30 de jun de 2011

Grandes Diretores: Woody Allen



por Márcio Sallem


     Às vésperas do lançamento de seu novo filme, Meia-Noite em Paris, escolhido para abertura do Festival de Cannes deste ano e aclamado pela crítica mundial, é tão oportuno quanto é justo, redigir um artigo sobre a vida e obra de Allan Stewart Konigsberg, o Woody Allen, que irá abrir um novo espaço no Cinema com Crítica para discutir a filmografia, as características e peculiaridades dos principais autores do cinema mundial. Devo confessar o desafio de condensar mais de 41 filmes (somente os que ele dirigiu) em algumas poucas palavras, encontrando o tom e o ritmo da obra desse genial novaiorquino. Tudo isto começou há alguns meses quando, a convite do amigo Luiz Santiago do Cinebulição participei do júri que elegeu os 10 melhores filmes de Woody Allen. A brincadeira se estendeu um pouco mais quando, ao invés de me ater apenas aos reconhecidamente clássicos, resolvi investir em uma aventura de ver e rever toda a sua obra. Começou na farsa cômica com Peter Sellers e Peter O'Toole, O que é que há, Gatinha?(1965), onde ele atuou e roteirizou e terminou em Tudo Pode dar Certo (2009), no qual dirige seu alter-ego interpretado por Larry David. Seu trabalho mais recente lançado nos cinemas brasileiros, Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos, foi o único desta rica filmografia que não revi.

     Ao longo dos anos, Woody Allen vivenciou três momentos bem distintos uns dos outros e ilustrativos do seu amadurecimento como autor. Do início nas comédias de humor físico e escrachado, aos melancólicos e nostálgicos romances na selva de concreto da cidade que ele é mais apaixonado, Nova York, e finalmente às obras que flertam em estilo e conteúdo com aquele que mais o inspirou, o diretor sueco Ingmar Bergman. Essa evolução não se deu da noite para o dia, e Woody Allen sempre encontrou espaço para amealhar uma brincadeira cinematográfica de gênero como Neblina e Sombras, uma homenagem ao expressionismo alemão, ou Zelig, um brilhante pseudo-documentário sobre um homem camaleão com a estranha capacidade de absorver as características das pessoas ao redor. Genial!

     Como disse anteriormente, Woody Allen apresentou-se ao público em comédias com o senso de humor bastante particular do diretor e muito sarcasmo. Na antologia Tudo o que Você quis saber sobre Sexo e tinha Medo de Peguntar (1972) vemos um seio gigante perseguindo o protagonista e disparando litros de leite sobre ele ou então o personagem interpretado por Gene Wilder acariciando luxuriosamente uma ovelha; ou em O Dorminhoco (1973), uma excelente homenagem a Charles Chaplin e o cinema mudo que, em seguida, se transforma em uma ficção científica hilária e uma das melhores da primeira década do diretor. Mas, talvez o exemplar mais famoso e notório deste período seja Bananas (1971), uma alegoria sobre a ditadura de Cuba na qual um mísera testador de produtos acaba se transformando no grande líder de um pobre País nos Caribes.

     Na década de 70, o diretor talvez tenha feito a sua maior obra-prima e um dos filmes mais importantes do cinema sobre relacionamentos, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977), cujo único defeito é o título nacional, é uma inesquecível história de amor na qual Woody Allen brinca com linhas temporais, desconstruindo o nascimento da união de Annie Hall e Alvy Singer até o eventual momento da separação. Os reencontros são peça fundamental na dinâmica dos dois, e os recalques e amarguras do passado ressurgem, questionando a temporalidade do próprio conceito de amor, confundido com paixão. O ótimo roteiro e direção foram premiados inequivocamente com o Oscar (único ano em que Woody Allen arrebatou os dois prêmios), Diane Keaton também levou a estatueta para casa e Woody Allen recebeu a sua única indicação por melhor ator. Como roteirista, especialmente, o cara é recordista, com 14 indicações!

     Um dos grandes méritos de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa foi a superação da linguagem cinematográfica derrubando a quarta parede que separa os atores dos espectadores. Dessa maneira, não é incomum que Alvy se dirija diretamente aos espectadores, expondo suas dúvidas e conflitos internos. O truque é muito inteligente e, inevitavelmente foi usado em outras produções, e em duas particularmente como elemento imprescindível na narrativa. Quando Boris em Tudo pode dar Certo (2009) começa a conversa com o espectador, ele acaba comprovando a inteligência superior que ele afirmara ter muitas e muitas vezes à frágil personagem de Evan Rachel Wood, pois somente ele em toda a narrativa consegue ter a percepção da existência de outras pessoas além da tela do cinema. Porém, a superação da quarta barreira ocorre literalmente no doce e sensível romance A Rosa Púrpura do Cairo (1985), no qual o personagem Tom Baxter (Jeff Daniels) foge da tela de cinema após as repetidas visitas de Cecilia (Mia Farrow). Mais do que isto, o filme é uma pérola na metalinguagem, pois além de envolver os estúdios do cinema e os processos decorrentes de "fugas" de outros Tom Baxter ao longo dos Estados Unidos, Gil Shepherd, o ator que interpreta Tom Baxter (compreendeu a sutileza?), acaba envolvido diretamente na história de amor.

     Em 1978, Woody Allen, pela primeira vez, assumiu a admiração por Ingmar Bergman no drama Interiores. Desde o restrito microuniverso de personagens, em suma acompanhamos os patriarcas de uma família, suas três filhas e respectivos companheiros, à exígua duração de tempo durante um final de semana ou a ausência de qualquer resquício de humor - a única cena em que vemos os personagens sorrindo sequer sabemos o porquê, pois não ouvimos a piada contada. Um filme difícil que descortina as consequências de um divórcio no seio familiar com maturidade e honestidade, essenciais para que Allen realizasse outra obra-prima e que, por ocasião do destino, um dos poucos filmes que o diretor rejeita: Manhattan (1979). Trata-se da história de um escritor cuja vida pessoal é a inspiração de inúmeros elementos de seu mais novo livro, dentre outras coisas despindo seu amor incondicional pela cidade de Nova York, sua admiração (agora literal) por Ingmar Bergman ou Federico Fellini, os motivos do término com Jill (uma jovem e bela Meryl Streep) ou o seu envolvimento com a namorada do melhor amigo. Mais do que isto, Woody Allen usa pela primeira vez uma fotografia em preto & branco juntamente com o diretor de fotografia Gordon Willis, um dos colaboradores habituais do diretor. Encerrando a narrativa com notas extremamente otimistas, algo incomum de certa forma na carreira do diretor, nas clássicas palavras da jovem personagem de Mariel Hemingway "Você deve ter um pouco de fé nas pessoas".

     Os próximos cinco filmes de Woody Allen longe de obras-primas revelam a sensibilidade do diretor em adaptar a sua assinatura a obras ligeiramente diversas. Memórias (1980) é uma pseudo auto-biografia na qual um diretor de cinema é homenageado e deve enfrentar alguns fantasmas do passado, com muito bom humor e novamente a fotografia preto & branco; Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão (1982), um dos trabalhos mais irregulares da carreira do diretor, quando pela primeira vez ele reparte a responsabilidade de ser protagonista com um grande elenco; Zelig (1983), Broadway Danny Rose (1984) e A Rosa Púrpura do Cairo (1985) antecedem o momento de uma nova obra-prima de Woody Allen e pela qual ele recebeu outro Oscar em sua carreira: Hannah e suas Irmãs (1986). Apresentando a rivalidade, competitividade e infelicidade nos relacionamentos de três irmãs, especialmente Hannah (Mia Farrow), a perfeitinha da família, Woody Allen lança olhares frios e sarcásticos sobre a instituição da família e como às vezes os próprios membros que nos acalentam e nos dão carinho são aqueles que nos desferem os piores golpes.

     Depois do nostálgico A Era do Rádio (1987), onde Woody Allen reconta inúmeras histórias de sua infância, e a mais importante e conhecida da história, a farsa da invasão alienígena dramatizada por Orson Welles, o cineasta novamente retornou às suas influências de Ingmar Bergman nos dramas Setembro (1987) e A Outra (1988). Mas, é talvez em Contos de Nova York (1989), no segmento Édipo Arrasado, que Allen apresenta um das histórias mais surreais e cômicas de todos os tempos. Sheldon Mills é um neurótico e inseguro adulto superprotegido pela mãe e que, em função disto, não consegue se relacionar. Após ela desaparecer (literalmente), em um show de mágica, e quando tudo parecia se encaminhar para um final feliz, ela ressurge, dessa vez em modo Deus (tem que ver para crer), atormentando em todos os aspectos a vida do seu filho. Hilário e genial!

     Eventualmente, Woody Allen acabaria se transformando no seu maior e único rival, pois a qualidade e a profundidade dos filmes anteriormente produzidos contrastam em tema e estilo com aqueles mesmos filmes que o fizeram célebre. Assim, bons filmes como Crimes e Pecados (1989) ou Simplesmente Alice (1990), apesar de fazer menção a assuntos antes não tratados pelo diretor ou apenas sugeridos, como a independente Alice ilustrando a luta das mulheres por direitos iguais, jamais se convertem em obras particularmente memoráveis. Sim, Maridos e Esposas (1992) embora não seja novidade na carreira do diretor, tem um olhar crítico e analítico sobre as crises conjugais que assolam os dois casais principais da narrativa, porém é excessivamente distante (igual a ida a uma consulta no psicólogo). Apenas em 1994, Woody Allen viria a realizar outra obra prima, Tiros na Broadway, na qual seu alter-ego é interpretado pelo também verborrágico e histérico John Cusack. A comédia ambientada na década de 20, apresenta a influência da máfia norte-americana no financiamento de peças de teatro, com uma excelente atuação de Chazz Palminteri, e as ironias marcadas da origem do talento de cada um.

     Vieram a pseudo-tragédia grega Poderosa Afrodite (1995) e o pavoroso musical Todos Dizem Eu te Amo(1996), uma experiência frustrada do diretor, e o maravilhoso Desconstruindo Harry (1997). Nele, o autor revisita sua vida e diversos personagens de sua extensa filmografia de maneira ímpar e genial. Sutil e referente quando Mariel Hemingway o chama de pervertido sexual e pedófilo, criando um interessante paralelo com Manhattan, quando a atriz interpretava uma garota de 17 anos e o caso amoroso do diretor ou no nome do protagonista, um homófono de "Writer's Block" (bloqueio criativo). O roteiro de Allen é um dos melhores de sua carreira, desde os diálogos criativos ("Com você é só niilismo, cinismo, sarcasmo e orgasmo"), subtramas geniais, um Robin Williams fora de foco e o sentimento de nostalgia na homenagem que o diretor faz a si mesmo (e como não se emocionar com os aplausos de todos os personagens ao término da narrativa). Para muitos diretores, esta seria uma obra de vaidade e egocentrismo, para Woody Allen é um agradecimento e reconhecimento por tudo de bom que fez pelo cinema e por ter encantado e cativado fãs. Imperdível.

     Infelizmente, o final da década de 90 e o início do novo século não foram tão bons com o diretor: Celebridades (1998) padece daquilo que procura mais severamente criticar; Poucas e Boas (1999) é agradável, no entanto, melhor somente por causa da excepcional atuação de Sean Penn; Trapaceiros(2000) acaba desperdiçando uma ótima premissa em um bobo e simplório filme de costumes; e nem me refiro em detalhes a O Escorpião de Jade (2001), Dirigindo no Escuro (2002) - no qual interpreta um diretor de cinema com cegueira histérica – e Igual a Tudo na Vida (2003) - a primeira vez em que é coadjuvante de seu próprio filme. Se Melinda e Melinda (2004) acerta justamente pela dualidade com que enxerga comédia e tragédia na vida de uma mesma pessoa, em uma direta associação ao teatro grego e ao uso de máscara para representações dos aspectos felizes ou tristes de uma vida, é em Match Point(2005) que o diretor se reinventa. Não apenas um drama sobre a alta sociedade inglesa, ou a história de um jovem ambicioso, Match Point é mais do que isto, é uma prova de que mesmo aos 70 anos, o intelecto do diretor jamais se abalou. Seja no anel que teima em não cair no rio ou a dúvida em relação à gravidez de uma determinada personagem. É o reencontro do diretor com as grandes premiações - por seu trabalho ele foi indicado ao Oscar de melhor roteiro - e a introdução de sua mais nova musa Scarlett Johansson.

     Vieram os mais recentes e, certamente, mais acessíveis aos novos fãs de Woody Allen, como o ruim Scoop (2006), o razoável O Sonho de Cassandra (2007), o cultuado Vicky Cristina Barcelona (2008), o já comentado Tudo pode dar Certo e o último do incansável diretor, Você vai conhecer o Homem dos seus Sonhos (2009). Apesar destes apenas comprovarem que a quantidade não faz qualidade, é inegável que um mediano Woody Allen já é melhor que muito da maioria das bobagens presunçosas despejadas semanalmente nos cinemas.

     Deixando de lado a vida pessoal conturbada do diretor, seus relacionamentos com inúmeras de suas colaboradoras como Diane Keaton ou o casamento com Mia Farrow, suas posições políticas ou religiosas e até mesmo o seu olhar diante da finitude da vida, resta a obra do gênio. Sim, um gênio. Um dos poucos a entenderam a essência dos relacionamento não como artifícios desajeitados de construções narrativas, mas revelando que atrás do coração não está o amor cego, o sentimentalismo prosaico ou a paixão súbita. Existe muito mais, vaidade, insegurança, medo de rejeição, egocentrismo, genialidade, abuso, interesse, verborragia. Ninguém nunca entenderá os desígnios dos sentimentos e, aceitando essa verdade inabalável, Woody Allen acabou desconstruindo inúmeros aspectos da dependência e urgência que temos em nos relacionar. Este é o maior dos seus temas, o ser humano, um ser social, um ser apaixonante e assustador.

E como fã incondicional que sou de Woody Allen não posso esconder a expectativa do seu novo lançamento nos cinemas, Meia Noite em Paris. Até lá então!

Filmografia sugerida:
Tudo Pode Dar Certo (2009)
Vicky Cristina Barcelona (2008)
Ponto Final - Match Point (2005)
Melinda e Melinda (2004)
Poucas e Boas (1999)
Desconstruindo Harry (1997)
Tiros na Broadway (1994)
Contos de Nova York (segmento Édipo Arrasado) (1989)
A Outra (1988)
Setembro (1987)
A Era do Rádio (1987)
Hannah e Suas Irmãs (1986)
A Rosa Púrpura do Cairo (1985)
Broadway Danny Rose (1984)
Zelig (1983)
Manhattan (1979)
Interiores (1978)
Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977)
O Dorminhoco (1973)
Bananas (1971)

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