16 de jun de 2010

Tudo Pode dar Certo


                                                                                       por Luiz Santiago


          Quando escrevi  sobre Vicky Cristina Barcelona (2008), eu salientei o fato de Woody Allen ser um dos cineastas observadores-analistas mais argutos da cinematografia contemporânea. Em retrospecto, todos os seus 42 filmes trazem uma observação cínica, zombadora, trágica ou romântica da sociedade. Em cada obra woodyana é possível encontrar, intrínsecas às neuroses e aos comportamentos excêntricos das personagens, a influência do mundo externo político, cultural, etc.. A cada uma de suas fases como cineasta (é válido lembrar que Woody Allen dirige filmes desde 1969), um molde analítico é destacado, e as obras daquele período se encaixam nele. Apesar dessa frase parecer simplista ou preguiçosa demais, não há um filme de Woody Allen que possa ser considerado ruim ou que não tenha qualidade artística. Algumas de suas obras são mais profundas e belas ou melhor dirigidas que outras, mas é só.

          Para que possamos entender essa "nova fase século XXI" do cineasta, é preciso voltamos alguns filmes no tempo. Estacionemos em 1999, ano do lançamento de Poucas e boas, a película que inauguraria um período pejorativamente denominado pelos críticos de "fase Woody light", e que contaria com as seguintes obras: Trapaceiros (2000), O Escorpião de Jade (2001), Dirigindo no escuro (2002) e Igual a tudo na vida (2003). Os filmes da fase "Woody light" são, definitivamente (à exceção, talvez, de Poucas e boas), os filmes mais "leves" de toda a carreira do diretor. O que não significa que são menos geniais ou que não possuam incursões artístico-críticas: a "nova burguesia" em Trapaceiros; o cinema dos anos 1940 (com toques noir) em O Escorpião de Jade; a metalinguagem e a indústria cinematográfica em Dirigindo no escuro; a vida (com fortes doses existencialistas, pessimistas e estoicas) em Igual a tudo na vida. Fato é que esses filmes foram feitos realmente para provocar o riso, mesmo "destruindo" certos comportamentos da época.



          É nesta fase "Woody light", entretanto, que se forma o embrião para a fase seguinte, quando o humor de Woody Allen funde-se com sua experiência da "fase Bergman" e adquire linha e toques pessoalíssimos, estruturando-se sobre uma narrativa ácida, agressiva (moral, filosófica, ética, direta ou indiretamente) e trágica, ao mesmo tempo. O primeiro resultado dessa linha narrativa do "humor-com-dor" foi o filme Melinda e Melinda (2004), história-dupla narrada em "duas versões": cômica e trágica. É, porém, em 2005, com o incrível Match Point, que Woody Allen, iniciando sua fase europeia, gira de vez a roda da fortuna de seus filmes. O trágico, a narrativa provocativa e ácida passa a ser a condição sine qua non o humor jamais viria. Em 2006, com Scoop, Allen atua no que me parece que foi a sua última participação como ator em um filme seu. É claro que não podemos afirmar isso categoricamente, mas o diretor não atuou em mais nenhuma de suas películas (desde então, já foram quatro filmes finalizados, um que está em fase de finalização e outro que já entrou em pré-produção, e ao que tudo indica, Allen não atuará nele também). Alguns críticos consideram que a morte de Splendini ou Sydney, o personagem de Allen em Scoop, foi uma espécie de finalização de uma era, de uma fase. Apesar de concordar com eles, repito que não é possível tomar isso como verdade absoluta, posto que a obra do cineasta ainda está aberta, muitas surpresas podem vir. Outro elemento que caracteriza a "fase europeia" de Woody Allen, é a sua nova musa, a bela atriz Scarlett Johansson. Dos quatro filmes desta nova fase, ela atuou em três: Match PointScoop e Vicky Cristina Barcelona.

          Em 2007, Allen lançou O Sonho de Cassandra. Terceiro filme consecutivo do diretor, em Londres, selou a tendência das novas abordagens de Woody Allen: o ataque à família, às instituições e a investigação dos processos (i)morais e (anti)éticos que permeiam toda a sociedade (algo que já podemos ver em Crimes e Pecados, de 1989). A iconoclastia de Luís Buñuel é a coluna que sustenta o "novo Woody Allen". Em 2008, com Vicky Cristina Barcelona, o cineasta embate artistica e culturalmente o Velho e o Novo Mundo, além de ironizar com muito rancor, a formação da família ou dos casamentos/relacionamentos modernos. Em 2009, depois de quatro filmes consecutivos na Europa, Woody Allen retorna a Nova York para filmar Tudo pode dar certo (Whatever Works), obra que carrega forte influência de sua experiência no Velho Continente, e que transporta para sua cidade e seu país, todo o ataque e acidez característica da sua tetralogia europeia.



          Tudo pode dar certo é o ápice do pessimismo woodyano. O filme conta a história de Boris Yellnikoff, incrivelmente interpretado por Larry David (que foi massacrado por alguns críticos sob a acusação de tentar imitar o tipo woodyano de atuação, o que, apesar de não ser mentira, é injusto, dado o trabalho estupendo que o ator realizou), um hipocondríaco gênio da Física e indicado ao Prêmio Nobel, que conhece Melodie (Evan Rachel Wood, em ótima atuação sob a direção de Allen), uma jovem de 21 anos do interior do país, e de conhecimento limitadíssimo, que passa a ser "ensinada, educada, civilizada" por ele. Com um roteiro vintage (o filme teria Zero Mostel no papel principal, mas foi engavetado depois da morte do ator, em 1977), Woody Allen retoma a história de Pigmalião, desta feita, revitalizada com especificidades do século XXI e com citações da história recente dos Estados Unidos e do mundo, com "a eleição de um presidente negro" ou o Taliban. Aliás, citações históricas não faltam neste filme. Há referências aos gregos antigos, aos egípcios, aos maias e aos astecas.

          Além da narrativa mais "solta", porém não menos pessimista, que as da tetralogia europeia, Tudo pode dar certo traz já nas sequências iniciais a metalinguagem explícita, forma que o diretor não usava em tal magnitude desde A Rosa Púrpura do Cairo (1985). Boris é a única personagem do filme que sabe da existência de uma plateia do outro lado da tela, e tenta mostrar isso, sem sucesso, aos seus amigos. Há momentos em que ele se dirige aos espectadores para discutir elementos da trama, como por exemplo, o momento em que Melodie confessa estar apaixonada por ele. Com isso, já vemos uma mudança na atitude formal interna do filme, no que concerne à narrativa.



          Allen já usou muito a figura do narrador em seus filmes, o que sempre dá um tom de crônica às suas películas. Em Tudo pode dar certo, o narrador não é off, nem é totalmente sugerido pela montagem, pela trilha sonora ou pela história auto-narrativa. O próprio Boris, protagonista da história, dá a linha de andamento da obra. Ele é agente e observador dos atos do filme, o que faz de Tudo pode dar certo uma obra de força e proximidade com o espectador muito grande. Além dessa "onipresença" que atrai com cumplicidade a plateia, o filme tem uma das melhores execuções de timing de Woody Allen, e a mise-en-scéne é tão comunicativa e tão forte, que o final não poderia ser outro: todas as personagens do filme em uma sala, comemorando a passagem do ano. As quebras narrativas (cinco, ao todo), marcam fortemente cada minuto do filme. Allen não permite que a história ultrapasse o limite da desaceleração. Quando a sequência esgota sua força narrativa, uma quebra de estrutura do roteiro se dá: o aparecimento de Melodie; de Marietta - a mãe; do Sr. Celestine - o pai; do "amante"; e a tentativa de suicídio de Boris. O roteiro de Tudo pode dar certo é extremamente consistente em sua estrutura, e muito rico em seu conteúdo, embora os temas não sejam nada estranhos à filmografia do diretor. Também vale citar que a direção de Allen está mais contida que em seus últimos quatro filmes.

          Se o ataque neste filme é às instituições, em especial a família, o motor da obra é a particularidade de cada integrante desta roda burocrática, e sua mudança, quando em contato com uma realidade que lhe mostra "a luz": Marietta, com seus sonhos artísticos frustrados durante tantos anos, termina como fotógrafa de corpos nus e vivendo em um amoroso ménage-à-trois. Melodie termina alcançando um alto nível intelectual e maturidade. O próprio Boris, que, mesmo não perdendo o pessimismo típico de sua personalidade, termina com um excelente monólogo otimista na cena final. O pai de Melodie, membro da Associação de Rifles, termina companheiro de alguém que ele disse ser "praticante da crença homossexual". Essa sequência é particularmente muito engraçada, posto que a negação e a realidade se encontram, originando o seguinte diálogo:


"- Mas você é...?
- Gay?
- ... praticante da crença homossexual?
- Você faz parecer uma religião... Se for, pode me considerar um fiel, completamente fanático.
- Mas isso é contra as leis de Deus!
- Deus é gay.
- Como? Como pode dizer isso? Deus é o criador dos céus, da terra, das plantas, das árvores, das cores...
- Pois é. Ele é decorador. "


          Como se sabe, depois da escrita do roteiro, nada mais é tão pessoal nos filmes de Woody Allen do que a trilha sonora. Neste filme, particularmente, ele escolheu e usou de forma muito ampla a música: jazz dos anos 1920, e 1940 (o típico mundo musical de seus filmes); a 9ª e a 5ª sinfonias de Beethoven, rock, pop, bossa-nova e trechos de um musical de Fred Astaire.

          Além desse amplo universo musical, a direção de arte e as locações merecem um olhar mais fixo. Pode-se observar que o interior da casa de Boris é relativamente desprovido de coisas, enquanto o subúrbio onde mora (que compreende um bairro chinês) é abarrotado de placas, cores, barracas, objetos. Nesse caso, a fotografia de Harris Savides acompanhou a descaracterização dos interiores, sempre fotografados em tons fracos, escuros, com predomínio de cores frias e ironicamente pontuado por luzes externas de cores contrastantes - vide a cena em que Boris chega da casa dos amigos e há uma luz verde e amarela reluzente através da janela. Ele se move para a direita e a câmera o acompanha em plano-médio, então, na segunda janela, brilha uma fortíssima luz vermelha. A mesma coisa se repete na cena final: do contraste das muitas luzes da Quinta Avenida em pleno Réveillon, para uma sala de estar quase completamente marrom, embora elementos de outras cores (as luminárias chinesas) pontuem o aposento. Não é forçoso identificarmos um contraste entre interior e exterior do homem através das internas e externas do filme.



          Tudo pode dar certo é uma comédia pessimista aparentemente simples. Seu conteúdo crítico é praticamente um universo à parte. Woody Allen identifica nas neuroses e questões pessoais relacionadas ao mundo, as causas do mau funcionamento da família, o que gera insatisfações, maus pais, maus casamentos, falsos fiéis, filhos desorientados. No final, a descrença na humanidade é patente. Pseudo-feliz, o desfecho do filme acende a chama das boas possibilidades, mas retira toda a esperança de durabilidade desses momentos de felicidade. Aos 74 anos, Woody Allen permanece com o seu lema de "um filme por ano", que sustenta desde Sonhos eróticos de uma noite de verão, de 1982. E a cada ano, é impossível negar a sua profunda e peculiar forma de ver o funcionamento meio circense do mundo e de transformar isso em matéria bruta para inquestionáveis filmes notáveis ou obras-primas. Nesse sentido, não se pode furtar a inscrição do nome do cineasta no topo da lista dos melhores diretores da atualidade.


Artigo originalmente publicado no Cine Revista.



TUDO PODE DAR CERTO (Whatever Works, EUA, França, 2009)
Direção: Woody Allen.
Elenco principal: Evan Rachel Wood, Larry David, Patricia Clarkson, Carolyn McCormick, Yolanda Ross, Henry Cavill, Michael McKean, Nicole Patrick, Lyle Kanouse, Adam Brooks.


FILME MUITO BOM. FORTEMENTE RECOMENDADO.

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