23 de jun de 2011

Meia Noite em Paris (2011)



por Luiz Santiago


     A arte é um dos temas mais fecundos da filmografia de Woody Allen. Desde sua leitura cômica de clássicos russos como Guerra e Paz e Crime e Castigo em A Última Noite de Boris Grushenko (1975), o diretor firmou o pé nas representações artísticas da “fauna urbana novaiorquina”, e além de temas caros às suas películas como a neurose, as relações amorosas, e a sociedade (abordadas de diferentes modos, dependendo do filme), é em torno da arte que se desenvolve uma das muitas reflexões do diretor. Em seu mais novo filme, Meia Noite em Paris (2011), artistas dos anos 1920 e da Belle Époque são visitados por um personagem do século XXI, no melhor estilo de realismo fantástico. O resultado é um filme leve, sem preocupações didáticas e muito divertido.

     A positiva recepção que a crítica e o público tiveram sobre a película não é sem justificativa. Meia Noite em Paris é um filme que traz o sabor dos clássicos de Woody Allen, ajustando pelo menos três tempos históricos diferentes, cada um deles contendo seus problemas existenciais e suas representações artísticas. Este ano, o diretor novaiorquino deixou de lado o pessimismo realista que acompanhou seus dois últimos filmes e plasmou uma comédia de cunho romântico, cercada de personalidades e temas que (mais uma vez) interrogam a legitimidade do casamento e os arranjos amorosos por comodidade ou para exibição social.

     De certa forma, a atmosfera artística de Vicky Cristina Barcelona (2008) é relembrada em Meia Noite em Paris. A oposição entre a realidade capitalista norte americana (para a qual Paris é um grande shopping) e a sensibilidade artística francesa são uma versão mais séria e mais irreal que a apresentada na película de 2008. Aqui, a arte abandona o pedantismo acadêmico para tocar a sensibilidade dos espectadores. A atmosfera diegética é criada pelas personagens, que só na abertura traz a voz over, passando logo depois para a voz off, um acertado recurso narrativo inicial. O abandono do narrador e a personificação da produção artística em dois atores são indícios de um outro caminho usado pelo diretor afim de discutir o tema. Se em Barcelona a arte estava ligada ao campo da libido, em Paris, a arte é o passaporte para um mundo que não existe mais, o ideal Paraíso romântico de todo aquele que nega a realidade e passa a almejar o que se foi.

     Mas além de uma nova constituição fílmica interna e uma homenagem a artistas que admira, Meia Noite em Paris é um presente de Allen à cidade-luz. Já na abertura do filme, percebemos uma leve diferença na apresentação dos créditos. Primeiro as produtoras, e então, ao som de Si Tu Vois Ma Mère (de Sidney Bechet), imagens-ícones da cidade são mostradas em uma ponte temporal que vai do amanhecer à madrugada, e daí passamos para o diálogo em over / off entre Gil (Owen Wilson) e Inez (Rachel McAdams), o casal protagonista. A beleza e a magia do espaço urbano parisiense são mostrados pormenorizadamente antes da aparição dos atores, um recurso usado pelo diretor apenas em Manhattan (1978), filme que faz de Nova Iorque o palco e o motivo dramático para o desenrolar da história. Meia Noite em Paris é um filme único porque foi feito para um lugar único, um lugar que abrigou grandes nomes da história da arte e que encerra em sua própria mitologia a fantasia demonstrada na obra de Allen.


     A nostalgia dos “tempos áureos” da humanidade faz parte do discurso de qualquer indivíduo descontente com sua realidade. O desejo da fuga pode se dar de duas formas distintas. A primeira, com a mudança geográfica – representada por discursos que enxergam na mudança de cidade, Estado ou país o remédio para seus mais diversos problemas. A segunda, com a fuga ideológica para outros tempos – representada pela vontade de ter nascido em outra época, e a partir daí adotar um estilo de vida remotamente parecido com o período sonhado. Em Meia Noite em Paris, Gil, a personagem principal, sofre desses dois sintomas. Mudar-se para Paris é praticamente a declaração de um não-casamento, seu maior desejo não assumido; e viver nos anos 1920 é a idealização de um espaço propício à escrita, seu maior desejo para a cura da falta de inspiração.

     Como em busca de material para um ensaio crítico, Woody Allen faz realizar-se os desejos de Gil, e ele volta para a Era de Ouro e para a Belle Époque, onde conhece Scott Fitzgerald, T.S. Eliot, Gertrude Stein, Picasso, Buñuel, Dalí, Man Ray, Hemingway, Cole Porter, Matisse, Gauguin, Degas, Lautrec, dentre outros. A conclusão a que o escritor chega é que independente da época em que se vive, massacradas pela vida que é sempre insatisfatória, as pessoas tendem a achar que em determinado lugar e numa determinada época elas seriam muito mais felizes, quando na verdade, a felicidade está onde se deseja que ela esteja: o otimismo que pontua o filme o torna ainda mais belo.

     Sem querer separar dramaticamente os diversos tempos históricos, o diretor traz um roteiro amplo de espaços de atuação, não isolando a história central no presente. O realismo fantástico que imprime à obra ganha em 1920 e em 1890 as suas doses de 2010, reafirmando o desejo humano, seja em qual época for, de fugir de seu mundo para um lugar melhor onde se viver. Além disso, as personagens femininas são uma espécie de guia da história, alcançando em todos os tempos um papel importantíssimo na vida dos homens. Todas essas características também são encontradas em A Rosa Púrpura do Cairo (1985), obra em que o diretor brinca com a realidade e o mundo imaginário. Nesse filme, as personagens dentro de “A Rosa Púrpura...” estão “presas” ao mundo diegético e a um determinado ponto do roteiro, porque o protagonista fugiu da cena, situação remotamente parecida com a de O Anjo Exterminador (Buñuel, 1962), filme cuja ideia é sugerida ao diretor espanhol pelo protagonista de Meia Noite em Paris.

     A direção de Woody Allen traz algumas surpresas, mas o grande destaque está na direção de atores, e dentre eles, Owen Wilson é o grande destaque. Vindo de produções hollywoodianas de baixa qualidade (com exceção de seus bons trabalhos em Os Excêntricos Tenenbauns e Viagem a Darjeeling), o ator revela-se um ótimo alter ego woodyano, sem carregar nos trejeitos e sem imprimir uma postura excêntrica à constituição de sua personagem. Rachel McAdams está um pouco mais que correta, bela e engraçada, formando um ótimo par com Wilson. Carla Bruni não se destaca pela atuação, que é normal, mas sim pela presença, que marca de maneira satisfatória as suas cenas. Adrien Brody como Salvador Dalí é um dos melhores momentos do filme. O ator conseguiu trazer a excentricidade do pintor surrealista para o tom de voz, o movimento dos olhos, e a teatralização das falas. Marion Cotillard e Léa Seydoux são duas agradabilíssimas presenças nativas de Paris, ambas fazendo uso de seus belos e carregados inglês com sotaque. Todo o elenco de apoio está maravilhoso.

     A fotografia de Darius Khondji permite ao espectador um desfrute visual de cada um dos tempos narrativos. Com exceção de uma cena, todas as viagens no tempo são filmadas em noturnas, e o diretor de fotografia conseguiu escurecer os ambientes de forma que não ficasse impossível reconhecer os atores e que pudesse nos transmitir a sensação de passagem do tempo, uma vez que não há absolutamente nenhum truque de montagem para sinalizar-nos. Da Paris no presente, fortemente iluminada, passamos para uma sépia Era do Ouro e para uma Belle Époque amarronzada e com filtro de imagem. Mesmo a angulação em cada espaço obedece uma dinâmica diferente, e a duração dos planos também transmite a sensação de movimento interno em cada época. A direção de arte de Anne Seibel passa do clean ou antiquado contemporâneo para o rebuscado das décadas passadas. Cada bar, casa, festa, salão, é detalhadamente preenchido, e gostaria de destacar a sequência do noivado de Adriana com um certo pintor surrealista: a decoração extravagante e a fotografia esverdeada deram ao recito uma aura muitíssimo apropriada.


     Meia Noite em Paris é um roteiro antigo de Woody Allen. Desde as filmagens no Rio Sena em Todos Dizem Eu Te Amo (1996), o diretor acalentava a esperança de um financiamento europeu para rodar em uma de suas cidades favoritas. O filme é um sonho realizado e fala da realização de um sonho. Ao fim da película, voltamos para a realidade insatisfatória munidos da constatação desse sentimento através dos tempos. Mas a realidade não se mostra ameaçadora, ao contrário, uma vontade de (re)conhecer o que já se conhece caracteriza a sequência final. A mágica da vida acontece, e mesmo que a felicidade não se tenha prometido, é finda a busca por um lugar ideal e cheio de possibilidades para realizações. O aqui e agora é o lugar onde tudo acontece, essa é a nossa Era do Ouro. É o início de uma outra vida. É meia-noite em Paris.


MEIA NOITE EM PARIS (Midnight in Paris, Espanha, EUA, 2011).
Direção: Woody Allen
Elenco: Owen Wilson, Rachel McAdams, Kurt Fuller, Mimi Kennedy, Michael Sheen, Nina Ariadna, Carla Bruni, Yves Heck, Corey Stoll, Adrien Brody, Marion Cotillard, Léa Seydoux


FILME ÓTIMO. É IMPERDÍVEL ASSISTI-LO!

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