28 de nov de 2010

Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos

V


por Luiz Santiago



João amava Teresa que amava Raimundo

que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili

que não amava ninguém.

João foi para o Estados  Unidos, Teresa para o 

                                                        convento,

Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,

Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto

                                                        Fernandes

que não tinha entrado na história.

Carlos Drummond de Andrade



     Quadrilha. Esse poderia ser o título drummondiano do novo filme de Woody Allen, Você vai conhecer o homem dos seus sonhos (2010). Depois de ironizar sobre a existência humana no filme do ano passado, o diretor voltou à Europa e realizou uma comédia dramática com temas muito caros à sua filmografia. As brigas e desencontros entre casais, a crise de criatividade, o sobrenatural, a morte e a traição, são temas presentes nesse novo filme, mas que poderemos encontrar em qualquer um dos outros 43 do diretor. E a partir dessa informação, entramos naquele campo onde os desafetos do cineasta novaiorquino parecem ganhar fôlego e estufar o peito ao dizerem: Woody Allen sempre faz o mesmo filme, só muda o título e os atores (às vezes nem isso).


     Bem, para os que assim pensam, falta-lhes um pouco de percepção ou inteligência para identificar detalhes e enxergar mudanças. Os temas woodyanos já nos são conhecidos, e é a partir deles que o cineasta constrói o seu mundo neurótico, cômico ou dramático. No decorrer dos anos, Allen voltou a trabalhar com os mesmos motivos em seus roteiros, mas dentro de uma trama e mundo diferentes, com nova tecnologia e artes, em outra realidade. Não há uma repetição, há o seguir uma linha de coisas muito pessoais que o diretor prefere plasmar em película, e que a cada nova obra, ganham um ar novo, um reciclar criativo e inovador dentro de um material autoral, e acima de tudo, reconhecível: qualquer pessoa que inadvertidamente entrasse sem saber em uma sessão de um filme de Woody Allen, já a partir dos créditos de abertura, saberia de quem era o filme, e o que esperar. Esse crescendo que Woody Allen empreende em seus “temas e variações” faz com que cada filme seu seja motivo de espera por parte dos cinéfilos fãs e base para a pergunta: quem, o que e como o diretor vai “atacar”? Esse ano, o alvo são os adivinhos e profetas do futuro, e o plano de fundo, uma verdadeira quadrilha de amores, desamores, traições e buscas.

     Os créditos de abertura do filme são embalados pela belíssima When you wish upon a star, de Ned Washington e Leigh Harline, e a partir dela, segue-se a história de Helena, uma sensível senhora recém abandonada pelo marido que vai procurar a adivinha Cristal para saber de seu futuro. O marido, Alfie, luta contra a idade, tentando parecer jovem. Então ele conhece uma “atriz” muitíssimo mais jovem que ele, e casa-se com ela. A filha de Helena e Alfie, Sally, tem seu casamento com Roy cada vez mais sensível, até o momento em que ele resolve assumir o caso com a jovem vizinha Dia, e Sally resolve declarar-se para Greg, o dono da Galeria de Arte onde trabalha. Greg apaixona-se por uma artista amiga de Sally. A nova esposa de Alfie não é lá muito fiel, e o próprio Alfie resolve voltar para Helena, que já não o aceita, por estar saindo com um outro cavalheiro, que por sua vez ama a esposa falecida e tenta entrar em contato com ela através de sessões espíritas para pedir-lhe permissão para casar-se novamente. Com tantas idas e vindas e desencontros amorosos, vemos que Allen desconstrói o gênero da comédia romântica, tornando-o ácido e trazendo para dentro da história questões relevantes sobre a sociedade, o abandono, o plágio, o desejo e a paixão.


     O filme assume o tom de crônica do cotidiano. Um narrador off, o Virgílio que nos acompanha pelos círculos do inferno amoroso, é um recurso que Allen sempre usou em seus filmes, e que tem aparecido em quase todos os seus últimos lançamentos. Os vários núcleos dramáticos do roteiro são ligados através desse narrador tão irônico quanto o de Vicky Cristina Barcelona, mas aqui, assume um papel também de criador, porque a decupagem dos fatos é realizada através de sua narração-visão.

     O amor e os relacionamentos são tão charlatões quanto a vidente que vê auras rosas e “um novo momento” na vida de Helena. Os astros, as cartas, a oposição entre o que se vê cientificamente e “o que não se vê mas existe” são equilibrados na balança de um cupido cujas lentes enxergam a relação entre duas pessoas como uma gigante rede de possibilidades. Não sendo exato o amor prometido para sempre, com o tempo, irá mudar, ser entregue a outro ou transformar-se em ira. A visão do amor como um conto de fadas é mostrada como um conto de horror urbano sem monstros. Os vilões aqui são as próprias pessoas e seus desejos que não são realizados porque vão de encontro ao desejo do outro: o inferno sartreano arde em plano cenário woodyano deste fim de década.

     Vilmos Zsigmond, em sua terceira parceria com Woody Allen (as outras duas foram em Melinda e Melinda e O Sonho de Cassandra) traz uma forte iluminação amarelada para a fotografia do filme. A impressão que temos é que um verão muito quente influencia essa fogueira amorosa acendida pelas personagens em diversas camas. As cores quentes no figurino, no cenário, e uma iluminação quase metálica, dão esse ar de quentura dramática e estética às cenas, mesmo nas tomadas noturnas, e o resultado está dentro daquilo que sabemos ser algo muito típico de Woody Allen dos anos 90 para cá: boa luz para que possamos identificar os rostos das personagens e divisar bem todos os pontos do cenário.

     Anthony Hopkins assume o papel que seria de Allen em outros tempos. Sua atuação é comedida, sem muitos excessos, mas com muita competência. Os destaques vão para Gemma Jones no papel de Helena (numa atuação emotivo-cômica e muito, muito impressionante) e Lucy Punch como Charmaine, em um papel que nos lembra o de Mira Sorvino em Poderosa Afrodite, e numa atuação que na minha opinião deveria levar o prêmio de Atriz Coadjuvante no Oscar do próximo ano. Naomi Watts está a contento, dentro da considerada normalidade. Antonio Banderas com seu sotaque carregado parece afetado demais, inclusive na aproximação de sua performance com a de Allen, gaguejando e tudo (vide a cena em que ele convida Sally para ver uma ópera de Donizetti).


     Embora o filme deste ano não seja um dos geniais filmes de Woody Allen, ele carrega todos os ingredientes do cérebro gênio do cineasta. O impressionante roteiro que consegue ligar e desligar todas as personagens, a condução do filme pelo diretor, o uso da música, tudo convida e garante uma excelente sessão, e justifica as filas que vi formarem-se para assistir ao filme. Entre a comicidade, a trama, o amor e a adivinhação, Allen termina a década com uma obra que põe num caldeirão mágico e incerto, todos os seres humanos e as pessoas que amam durante a vida. No fim, apesar do “som e fúria” shakespeariano, nada tem significado. É preciso fazer valer, dar significado às coisas e acreditar que, seja “um moreno alto e estranho” ou o “seu estranho”, você vai conhecer o homem dos seus sonhos. Uma mensagem ácida de esperança em um tempo onde nada se espera além do desastre. Enfim... É por isso que eu amo Woody Allen.


VOCÊ VAI CONHECER O HOMEM DOS SEUS SONHOS (You will meet a tall dark stranger, EUA, Espanha, 2010).
Direção: Woody Allen
Elenco: Antonio Banderas, Josh Brolin, Anthony Hopkins, Gemma Jones, Freida Pinto, Lucy Punch, Naomi Watts.


FILME BOM. RECOMENDAMOS ASSISTIR.

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