2 de set de 2010

O Sonho de Cassandra


OU

A Voz da Profetisa


por Adriano Oliveira
Coordenador do site Cine Revista e Crítico de cinema (ACCIRS).


     O tema do crime-e-castigo volta à baila no novo filme do septuagenário Woody Allen, "O Sonho de Cassandra" (2007) - só que revestido de tragédia grega.

      Allen aqui não atua, apenas dirige, e sem sua persona o espaço para o humor ao longo da projeção é de fato muito restrito, o que acentua o caráter dramático da história. Se o teatro grego servia como fonte cômica no coro que balizava "Poderosa Afrodite" (1995), também do cineasta, agora é o aspecto trágico emergindo da mitologia helênica que permeia a recente obra. E essa feição mítica já brota diretamente do título, remetendo à desacreditada profetisa Cassandra, que, esconjurada por Apolo, não foi ouvida por Príamo a respeito da periculosidade do cavalo de madeira que veio a causar a queda de Tróia - episódio da "Ilíada" de Homero. Se em "Match Point" (2005) é a sorte que decide o futuro do transgressor, desta vez tal função cabe ao destino, como convém à uma desventura vaticinada.


     Em verdade, "O Sonho de Cassandra" aporta para fechar o que aparenta ser uma trilogia recente de Allen sobre as culpas vindas de um crime cometido e das conseqüências dele - sendo a mais imediata delas, a crise de consciência daquele que o fez. O primeiro exemplar vem do excelente "Crimes e Pecados" (1989), do qual "Match Point" é cria legítima e, por força de sua natureza e qualidade, de nível similar. Já "Cassandra" fica uns degraus abaixo, enfraquecido por algumas pretensões e comodismos. Por exemplo, Allen confia demais no poder da elipse e não obtém resultados eficientes, deixando um gosto de cabo de guarda-chuva na boca da platéia, o que ocorre ao optar por um final abrupto quanto à sua resolução, o qual merecia uns metros a mais de fita, sem a incômoda preguiça evidente no desenvolvimento do ato último da trama. Apesar da cena final conter um tanto de metáfora, o que a precede imediatamente não satisfaz. Com seu estilo contido, às vezes polido demais, extraindo com lentidão os dramas a partir de ações cotidianas para arremeter a um epílogo tão rápido quanto chocho, Woody deixa a dever um certo timing no andamento da história, inclusive decorrendo uma certa falta de equilíbrio narrativo quanto a isso.

      Também é claro que o cineasta quer criticar a validade da sensualização como recurso cênico através da personagem Angela (Hayley Atwell), contudo ao ficar somente no terreno da sugestão, perde boa oportunidade de falar e ser escutado, repetindo de certa forma a sina da mítica profetisa do título de sua obra.


     A história de dois irmãos londrinos, Ian e Terry (Ewan McGregor e Colin Farrell), que a fim de resolverem problemas financeiros pessoais se unem para cometer um crime perfeito a serviço de um milionário tio (Tom Wilkinson) é o estopim para Allen desenrolar um interessante drama-suspense, que no entanto poderia ser mais complexo e instigante. Embora McGregor esteja somente ok e Wilkinson até desaponte um pouco, por sua vez Farrell restaura nossa confiança no talento dele com uma bela atuação. Assim, com altos e baixos, a Cassandra do diretor e roteirista sonha e ambiciona ser ouvida em seus clamores, mas sua voz soa irregular: a mensagem nos chega um pouco truncada, quase telegráfica, a despeito de sua pretensa limpidez.


Artigo originalmente publicado no Cine Revista.


O SONHO DE CASSANDRA (Cassandra's Dream, 2007)
Direção: Woody Allen.
Elenco: Ewan McGregor, Colin Farrell, Hayley Atwell, Tom Wilkinson, Sally Hawkins.


FILME BOM. RECOMENDAMOS ASSISTIR.

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