9 de fev de 2012

Série: Sherlock - 2ª Temporada (2012)

 


por Luiz Santiago

          Os produtos que saem dos Estúdios da BBC possuem a aura e o toque de Midas que a produtora cultiva a tantos anos. Um modelo único e ousado de levar à televisão entretenimento de qualidade é a cartilha da emissora, e não raro essa regra tem como produto final programas que transpiram perfeição. O caso da série Sherlock é mais um desses exemplos.

          Exibida em meados de 2010, a Primeira Temporada da série fixou um novo tempo para as aventuras do detetive, conquistou o público, e terminou com um terceiro episódio de tirar o fôlego, especialmente na sequência final, com a introdução de Jim Moriaty na série. A Segunda Temporada (2012), é tudo aquilo que um fã dos livros de Arthur Conan Doyle e da série gostaria de ver, só que melhor. Não é exagero algum dizer que se trata de uma temporada perfeita em todos os sentidos. Presenciamos a evolução das personagens, o aumento da complexidade das histórias e a adição de vilões e casos mais perigosos e mortais. Além disso, vemos que a série ganhou definitivamente um tratamento cinematográfico, executado de maneira muito competente nos três episódios.

          Se na temporada anterior os espectadores ficaram impressionados com a sagacidade dos roteiristas em trazer casos clássicos da literatura para a tela, nesse temporada, temos o mais famoso caso de Sherlock Holmes, O Cão dos Baskerville (Segundo Episódio), uma autêntica história de terror inserida num ambiente de suspense e crimes misteriosos.

          Também o romance ganhou voz na série, já no primeiro episódio, Um Escândalo em Belgravia, um episódio cujo conteúdo complexo e emaranhado deu origem ao melhor filme da série até então. As [leves] cenas de nudez ali contidas incomodaram muitos espectadores conservadores no Reino Unido, e a BBC justificou as cenas acrescentando que “foram uma forma de desmentir os boatos sobre o relacionamento homossexual entre Sherlock e Watson.”. Conhecendo bem o criador da série e roteirista do episódio, Steven Moffat, é possível que sua preocupação em manter a fidelidade do original o tenha impelido para uma ressalva na masculinidade de Sherlock, mas decerto esse não foi o leitmotiv do filme, qualquer espectador atento pode afirmar isso.


          O finale da temporada é a mais perfeita surpresa, uma combinação de inteligência e expectativa, uma aglutinação dos todos os temas trabalhados chegando ao seu último estágio. Sherlock Holmes traz à tona todos os sentimentos possíveis, em todas as personagens, e o próprio Holmes demonstra, por trás de seu palácio de racionalização, um coração e uma personalidade que se importa com os outros, mas que pode ferir, se o objetivo final é proteger as pessoas que ama.

          Os ganhos técnicos e estéticos dessa temporada não só superam a já alta qualidade da primeira, como também recriam ambientes e situações dramáticas insólitas da maneira mais instigante possível. Sherlock enrolado em um lençol, como uma túnica de um Senador romano; uma celebração de Natal com Sherlock, Watson, Molly, Lestrade e a Sra. Hudson; as alucinantes sequências na floresta e no laboratório, tudo ganha uma caracterização especial de Fabian Wagner, o diretor de fotografia dos três episódios. Na abertura da série, os tons quentes e claros dão uma ar mais familiar, convidativo e humano à história, e também a Sherlock, que se “humaniza”. No segundo filme, o trabalho com a luz não brinca apenas com sombras e ambientes escuros, mas pinta ambientes de verde, vermelho e amarelo, todos com uma força assustadora sobre o espectador. Por último, num ambiente mais diplomático, vemos uma fotografia mais plástica, clara, que ao invés de caracterizar o ambiente inteiro, faz notar os objetos em cena – um verdadeiro truque de mestre.

          A direção de arte e o design de produção dão asas à imaginação e reinventam o próprio mundo de Doyle. Tanto Paul McGuigan quanto Toby Haynes, os diretores da temporada, souberam aproveitar milimetricamente os espaços cênicos, seja através de panorâmicas ou da grande variação de ângulos para uma mesma cena. É encantador para quem assiste, ver uma série mais ou menos centrada em um espaço geográfico ter um apelo de entretenimento tão grande. O 221B da Baker Street nunca parece ser “demais” ou “repetitivo”, graças a essa escolha de rotação da câmera, seja em diversos ângulos fixos, seja através de uma steadicam que anda pelo apartamento.


          A montagem da temporada foi assinada por dois editores diferentes, Charlie Phillips e Tim Porter, profissionais que reafirmaram a estrutura cinematográfica da série. O primeiro destaque vai para a criativa flutuação de textos e palavras na tela, um atalho muitíssimo eficaz para evitar que o roteiro ou a imagem tivessem que representar mensagens de celular, observações dedutivas e processos mentais. A edição conserva o cuidado com o equilíbrio, jamais deixando que uma enorme quantidade de textos cansem o espectador, e a mesma preocupação se aplica à aceleração ou desaceleração da câmera, especialmente nas lutas ou nas observações de Sherlock. Mas a virtude maior da edição está na sequência lógica das cenas a partir de elementos do próprio cenário, tornando a continuidade fluída e suave; ou mesmo o uso de “colagens” (o que chamamos de falso-raccord), elementos não necessariamente pertencentes àquele cenário, que por uma aproximação da câmera ou uma colocação de sentido dramático, liga um ambiente a outro (no sonho, a cama de Sherlock Holmes que liga o campo, onde o esportista é morto pelo próprio boomerangue, ao quarto do detetive). Mesmo nesses falsos raccords, a estranheza provocada no espectador não é nada negativa, ao contrário, comunica a engenhosidade dos editores e impressiona visualmente.

          Sobre o elenco da série, pouco se tem a acrescentar ao que já foi dito. A dupla Benedict Cumberbatch (Sherlock) e Martin Freeman (Watson) está impecável, realmente duas almas gêmeas, uma espécie de contrário um do outro, dois amigos que se gostam muito, uma amizade que mostra o quão intensa é, nos episódios Dois e Três. Ambos cresceram dramaticamente, e mesmo as atuações se tornaram detalhadamente impecáveis – não apenas em técnica, mas em espontaneidade e emoção. Watson ganhou mais importância, se tornou um eixo inseparável das investigações de Sherlock, não apenas o amigo falador e impressionável. Sherlock se tornou mais “humano”, mostrou os atos de afeto que pode ter para com as pessoas que gosta. Até o humor se tornou algo de ambas as partes.

          Una Stubbs (Sra. Hudson), Rupert Graves (Lestrade) e Loo Brealey (Molly), também se destacaram melhor que na temporada anterior, cresceram em relação à sua importância para a dupla protagonista e ganharam um pouco de independência em suas ações. Mark Gatiss (Mycroft), é outro ator que teve sua personagem “upada”, seja na aquisição de sentimentos, seja na sua participação mais ativa na vida de Sherlock e Watson. Andrew Scott (Moriaty) perdeu um pouco a afetação do finale da primeira temporada e ganhou papel de merecido destaque, com impecáveis alterações de humor. O ator conduz a personagem divinamente, é um antagonista encantador e ao mesmo tempo repudiável, sentimentos criados pela ampla interpretação. Dos atores que interpretam personagens especiais, destacamos as maravilhosas caracterizações de Lara Pulver (Irene Adler – Episódio 1) e Russell Tovey (Henry Knight – Episódio 2).


          Não é sem motivo que a BBC exibe com orgulho as suas produções. Sherlock é quase uma afronta às outras séries, de tão bem realizada. A segunda temporada conseguiu o seu lugar cativo no coração dos espectadores, e ciente disso, os produtores não deixaram de inserir elementos da cultura popular, nerd, geek e afins, como pro exemplo, Batman e Robin, comparação feita para a dupla Sherlock e Watson em um jornal; os Smurfs, quando Watson pergunta a Mycroft porque ele e Sherlock não tinham um bom relacionamento: “Ele roubou todos os seus Smurfs, quebrou seus bonecos?”; Spok, apelido dado por Watson a Sherlock; 007, o número de um voo no episódio Um; e as muitas homenagens ao cinema de terror e às outras versões de O Cão dos Baskerville, no segundo episódio. É como se Steven Moffat e os outros produtores e roteiristas estivessem buscando algo que transcendesse o universo detetivesco de Sherlock Holmes, e não só conseguiram o que desejavam como plantaram no público a doentia semente da ansiedade pela terceira temporada.


Série: Sherlock
Status: Renovada para a terceira temporada (2013).
Diretores: Paul McGuigan (episódios 1 e 2) e Toby Haynes (episódio 3).
Duração: 1h28min.

Episódios

1 – A Scandal in Belgravia
2 – The Hounds of Baskerville
3 – The Reichenbach Fall

AVALIAÇÃO DA TEMPORADA: ÓTIMO.


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