30 de set de 2010

Scoop



por Luiz Santiago

     Match Point (2005) é para Woody Allen o que A sombra de uma dúvida (1943) foi para Hitchcock. Este primeiro filme europeu – londrino – de Allen, alcançou um enorme sucesso de público e crítica, e ele o considera a sua melhor obra. Mas a película que sucedeu a tão bem cotada realização, Scoop (2006), não alcançou igual prestígio.

     O filme conta a história de Sondra Pransky, uma estudante de jornalismo que ao entrar uma uma caixa mágica, recebe a visita do espírito de um importante jornalista recém-falecido. O espectro diz o nome de uma importante personalidade da cidade, e dá a entender que o jovem rico provavelmente seja o famoso “assassino do tarô”, um serial killer procurado pela polícia. Intrigada, a jovem pede ajuda ao mágico (o próprio Allen), para fazer o espírito reaparecer, o que acontece quando a dupla menos espera. Depois da segunda aparição, o mágico Splendini e a bela jornalista investigarão o suspeito denunciado pelo espírito, e enormes surpresas, pinceladas de suspense e humor, farão parte da empreitada.

     Scoop é quase uma típica comédia woodyana. Se nos lembrarmos de Sonhos eróticos de uma noite de verão (1983), Édipo Arrasado (1989) e O Escorpião de Jade (2001), encontraremos elementos místicos e mágicos que reaparecem nesse filme europeu. A própria sequência do mágico Splendini, com a bela saturação de vermelho, no palco, e a sutil fotografia cênica, são praticamente idênticas à sequência do mágico de Édipo Arrasado, inclusive o truque da caixa mágica.



     Mas a tragédia de Match Point parece ter impregnado o roteiro seguinte de Woody Allen, que acabou filmando a sua comédia mais “ambígua”, na minha opinião. Scoop faz rir, mas carrega algo novo: um suspense angustiante que lhe dá um ar tão genial e tão estranho ao mesmo tempo, que o produto final chega a causar um riso nervoso no espectador, e não há nada mais incômodo do que essa reação, ao final de um filme. Além disso, Scoop está “perdido” entre dois fortes dramas woodyanos, o citado Match Point (2005) e O sonho de Casandra (2007). Portanto, não podemos negar que a prolífica e bárbara mente de Allen estava mais para a tragédia do que para a comédia, e por isso mesmo, Scoop tem esse caráter tragicômico.

     A abertura e música-tema do filme é a pequena peça Dança dos cisnes, o antepenúltimo ato d'O lago dos cisnes, de Thaikovsky. O efeito obtido com essa escolha, acentua o ar “dialético” entre a tragédia e a comédia. Sim, porque em cada sequência em que a peça é usada, o espectador é apresentado a uma nova onda de sensações, ora medo e anseio, ora alegria e descontração. Mais uma vez, podemos ver a importância e significado da trilha sonora para os filmes de Woody Allen, e como, a cada obra, o diretor tem usado de diversos meios para conseguir o seu intento dramático de identidade sobre a imagem fílmica, através da música.



     A morte, a imprensa e a personalidade pública são as colunas do filme. Mais uma vez, a partir Crimes e Pecados (1989), Woody Allen nos depara com um homem bem-sucedido que efetua um crime para salvar a sua imagem de bom cidadão, e desta feita, a “outra parte” é uma prostituta. O diretor expõe uma cena de bastidores, do particular, e ridiculariza como isso afeta e define a ação de um ser humano na vida pública. A imprensa, então, é o “Olho de Deus”, uma espécie de justiça falha, mas necessária, que trará à tona o crime. Mas a própria jornalista não exerce a profissão que queria, e é o evento sobrenatural que a guia para as investigações, sendo o sucesso da reportagem pura obra do acaso – entre utilitarismo e facilidades segue a Londres de Woody Allen.

     E por fim, a Morte. Allen faz uso de efeitos especiais e representação dantesca para dar conta desse seu tema-raiz. Pelo que me lembro, esta é a segunda vez que uma personagem interpretada por Allen morre, e se encontra com a Morte. A primeira foi em A última noite de Boris Grushenko (1975).

     A fotografia de Remi Adefarasin (o mesmo de Match Point) é muito sutil, embora tenha uma tendência para a saturação da cor (uma preferência de Woody Allen, especialmente para vermelho, amarelo e laranja). A cor, em Scoop, também serve para opor mundos, ou espaços cênicos, pelo menos nas primeiras sequências, todas em lugares diferentes, com tratamento visual, planificação e angulação completamente diferentes:

Sequência nº 1: Igreja. Velório de Joe Strombel.
Sequência nº 2: Bar. Amigos de Joe conversam sobre ele.
Sequência nº 3: O barco da morte.
Sequência nº 4: Sondra Pransky e o cineasta.
Sequência nº 5: Sondra Pransky no quarto da amiga.
Sequência nº 6: O show de mágica.



     A direção de arte de Nick Palmer me fez sentir muita falta da cenografia de Santo Loquasto (que trabalhou com Allen de A Era do Rádio (1987) até Melinda e Melinda (2004), voltando o ano passado, em Tudo pode dar certo).

     Em relação à cenografia, há um clamor e um gemido no filme. O interessante é que em O sonho de Cassandra, Nick Palmer faz um trabalho bem mais artístico, muitíssimo superior à secura que imprimiu à maioria das sequências de Scoop. Destaco apenas três espaços cênicos muito bons: o barco da morte, o teatro do show de mágica, e a fazenda de Peter Lyman.

     O elenco é bem dirigido, e mesmo Scarlett Johansson atrás daqueles terríveis óculos, consegue manter a sensualidade, e esbanjar beleza. Hugh Jackman impressiona com a naturalidade e a composição fria, indiferente e completa da personagem, algo que só o vi fazer em Kate & Leopold (2001) e principalmente em Fonte da vida (2006).



     Mesmo não sendo um filme genial, Scoop é uma preciosidade woodyana, uma bem dirigida (embora modicamente) tragicomédia com ares de suspense. O filme lembra um pouco as suas comédias mais leves dos anos 1990, mas que ninguém se engane: Scoop pertence a uma outra Era, e Woody Allen é um exímio perito em captar sintomas de momentos históricos diferentes. Sua longeva carreira e filmografia estão aí para provar.


SCOOP (Scoop – O Grande Furo, Estados Unidos, UK, 2006),
Direção: Woody Allen
Elenco: Scarlett Johansson, Hugh Jackman, Ian McShane, Woody Allen, Charles Dance, Romola Garai, Kevin R. McNally


FILME BOM. RECOMENDAMOS ASSISTIR.

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