13 de fev de 2012

O Artista / The Artist (2011)




por Luiz Santiago

          Em Crepúsculo dos Deuses (1950), Norma Desmond responde à afirmação “Você era uma grande atriz” com a emblemática frase “Eu continuo grande. Os filmes é que encolheram.”. Se nos perguntarmos qual o motivo principal dos filmes ter encolhido, segundo a visão da atriz decadente no clássico de Billy Wilder, encontraremos como resposta "a chegada do som". Não é segredo para ninguém que a passagem do cinema mudo para o sonoro arruinou um sem número de carreiras no cinema, em todos os setores de produção.

          O Artista (2011), aclamado e delicioso filme de Michel Hazanavicius, revisita esse período do cinema em um sentido bem mais pessoal do que fizeram Stanley Donen e Gene Kelly em Cantando na Chuva (1952). O filme conta a história de George Valentin, famoso ator do cinema mudo que vê sua carreira arruinar-se com o evento dos filmes falados, em 1929. Ele assiste a escalada de Peppy Miller, uma jovem dançarina que se adapta muitíssimo bem ao novo formato do cinema. Os encontros e desencontros entre os dois atores sustentam o roteiro assinado pelo próprio Hazanavicius, e caminham para um final digno do cinema que homenageia, carregando as feridas do tempo histórico em que foi produzido.

O elefante [preto e] branco

          A História nos prova que a evolução tecnológica só é plenamente positiva dentro do campo da tecnologia, porque seus efeitos colaterais acabam por eliminar alguém, algo ou algum grupo por completo. Quando se trata de arte, a discussão sobre “evolução” é bem mais complexa e polêmica. Há quem não enxergue superioridade entre uma criação computadorizada e uma pintura rupestre, ambas podem ser denominadas arte e são valiosas pelo que são. Todavia, a obra digital tende a concentrar maior simpatia das massas. No caso específico do cinema, seja pelo acesso fácil, pela rápida reprodução ou pensamento contemporâneo ligado à imagem de efeitos, a criação aliada à tecnologia tende a encantar mais do que a chamada “arte do passado”. Então surge O Artista, um filme quase mudo, preto e branco, metalinguístico e com homenagens clássicas a perder de vista. A discussão nas entrelinhas do filme questiona o valor da arte no tempo.

          A cena de abertura em O Artista mostra um homem sendo torturado (numa homenagem a Metropolis, de Fritz Lang), onde vemos o ator George Valentin (Jean Dujardin), que se recusa a falar. Ironicamente, esse será o dilema do ator dali a alguns anos, com a chegada do cinema sonoro. A diferença de pensamento entre George Valentin e Peppy Miller demonstra o conflito das gerações e a superação do velho pelo novo. Uma vez questionado e relativizado o valor de um e outro, voltemos o nosso olhar para o interior do filme.

          A começar pela trilha sonora, O Artista transpira a arte que é o cinema. Na verdade, é  mais que uma homenagem, se levarmos em conta que se trata de um filme de 2011. Ludovic Bource realiza um trabalho plural, consciente de que sua música assumiria a narração do filme, muito mais que a sequência lógica dada pelos intertítulos. A música cumpre com louvor o papel de guia supremo num filme que usa o som apenas duas vezes, mas de maneira tão brilhante, que o impacto no espectador é tal como se fosse na plateia do início dos anos 1930, que ouvia pela primeira vez os sons dos objetos nas películas, as risadas, a respiração ofegante, as vozes dos atores. Já a fotografia de Guillaume Schiffman nos lembra o trabalho de Gregg Toland nos anos 1940, porque não se prende apenas na iluminação criativa para um P&B moderno, mas realiza truques de projeção, sombras, contrastes, e dramática intensidade nos dois tons, usando ainda uma "pigmentação de cartelas", aquelas cores dominantes de todo o quadro típicas do primeiro cinema.

          O elenco é de uma graça transbordante. Jean Dujardin brilha em seu papel à la Rodolfo Valentino + John Gilbert; seu sorriso e interpretação são tão autênticos, que George Valentin   é a personagem que mais se parece com um ator do cinema mudo. Bérénice Bejo esbanja simpatia. O par que a atriz faz com Dujardin é poderoso, definitivamente cria e vende a força dramática e encantadora do filme. O elenco de apoio é de igual vigor. John Goodman e James Cromwell estão ótimos em seus papeis, e o cão Uggy consegue encantar e divertir como o ponto humorístico do filme.

          O Artista é um filme ousado. Ao discutir a arte, vai por uma trilha diferente daquela seguida por Abbas Kiarostami em Cópia Fiel (2009). Seu caminho é o da oposição entre duas eras cinematográficas, e o resultado é belo, mas incômodo em certo ponto, se racionalizarmos o seu significado histórico. Com o afastamento da câmera e revelação da equipe em uma panorâmica, tal qual fizera Fellini em E La Nave Va (1983), Hazanavicius desnuda seu filme e fecha a obra com chave de ouro, abrindo caminho para as novas possibilidades que a sétima arte pode trazer. 

          O Artista é daqueles filmes que despertam a personalidade bipolar do espectador, transmitindo uma gama de sentimentos e sensações em menos de duas horas de duração. Se não fosse esteticamente espetacular e bem dirigido, o filme ainda valeria pela ousadia, não a ousadia desmedida e despropositada, mas uma ousadia crítica, que propõe uma viagem, uma discussão e uma dança com a Sétima Arte, no melhor estilo do cinéfilo que gosta de brincar de dissecar o cinema.


O ARTISTA (The Artist, França, Bélgica, 2011).
Direção: Michel Hazanavicius
Roteiro: Michel Hazanavicius
Elenco: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell, Penelope Ann Miller, Missi Pyle, Malcolm McDowell.
Duração: 1h40min.


FILME ÓTIMO. É IMPERDÍVEL ASSISTI-LO!


9 de fev de 2012

Série: Sherlock - 2ª Temporada (2012)

 


por Luiz Santiago

          Os produtos que saem dos Estúdios da BBC possuem a aura e o toque de Midas que a produtora cultiva a tantos anos. Um modelo único e ousado de levar à televisão entretenimento de qualidade é a cartilha da emissora, e não raro essa regra tem como produto final programas que transpiram perfeição. O caso da série Sherlock é mais um desses exemplos.

          Exibida em meados de 2010, a Primeira Temporada da série fixou um novo tempo para as aventuras do detetive, conquistou o público, e terminou com um terceiro episódio de tirar o fôlego, especialmente na sequência final, com a introdução de Jim Moriaty na série. A Segunda Temporada (2012), é tudo aquilo que um fã dos livros de Arthur Conan Doyle e da série gostaria de ver, só que melhor. Não é exagero algum dizer que se trata de uma temporada perfeita em todos os sentidos. Presenciamos a evolução das personagens, o aumento da complexidade das histórias e a adição de vilões e casos mais perigosos e mortais. Além disso, vemos que a série ganhou definitivamente um tratamento cinematográfico, executado de maneira muito competente nos três episódios.

          Se na temporada anterior os espectadores ficaram impressionados com a sagacidade dos roteiristas em trazer casos clássicos da literatura para a tela, nesse temporada, temos o mais famoso caso de Sherlock Holmes, O Cão dos Baskerville (Segundo Episódio), uma autêntica história de terror inserida num ambiente de suspense e crimes misteriosos.

          Também o romance ganhou voz na série, já no primeiro episódio, Um Escândalo em Belgravia, um episódio cujo conteúdo complexo e emaranhado deu origem ao melhor filme da série até então. As [leves] cenas de nudez ali contidas incomodaram muitos espectadores conservadores no Reino Unido, e a BBC justificou as cenas acrescentando que “foram uma forma de desmentir os boatos sobre o relacionamento homossexual entre Sherlock e Watson.”. Conhecendo bem o criador da série e roteirista do episódio, Steven Moffat, é possível que sua preocupação em manter a fidelidade do original o tenha impelido para uma ressalva na masculinidade de Sherlock, mas decerto esse não foi o leitmotiv do filme, qualquer espectador atento pode afirmar isso.


          O finale da temporada é a mais perfeita surpresa, uma combinação de inteligência e expectativa, uma aglutinação dos todos os temas trabalhados chegando ao seu último estágio. Sherlock Holmes traz à tona todos os sentimentos possíveis, em todas as personagens, e o próprio Holmes demonstra, por trás de seu palácio de racionalização, um coração e uma personalidade que se importa com os outros, mas que pode ferir, se o objetivo final é proteger as pessoas que ama.

          Os ganhos técnicos e estéticos dessa temporada não só superam a já alta qualidade da primeira, como também recriam ambientes e situações dramáticas insólitas da maneira mais instigante possível. Sherlock enrolado em um lençol, como uma túnica de um Senador romano; uma celebração de Natal com Sherlock, Watson, Molly, Lestrade e a Sra. Hudson; as alucinantes sequências na floresta e no laboratório, tudo ganha uma caracterização especial de Fabian Wagner, o diretor de fotografia dos três episódios. Na abertura da série, os tons quentes e claros dão uma ar mais familiar, convidativo e humano à história, e também a Sherlock, que se “humaniza”. No segundo filme, o trabalho com a luz não brinca apenas com sombras e ambientes escuros, mas pinta ambientes de verde, vermelho e amarelo, todos com uma força assustadora sobre o espectador. Por último, num ambiente mais diplomático, vemos uma fotografia mais plástica, clara, que ao invés de caracterizar o ambiente inteiro, faz notar os objetos em cena – um verdadeiro truque de mestre.

          A direção de arte e o design de produção dão asas à imaginação e reinventam o próprio mundo de Doyle. Tanto Paul McGuigan quanto Toby Haynes, os diretores da temporada, souberam aproveitar milimetricamente os espaços cênicos, seja através de panorâmicas ou da grande variação de ângulos para uma mesma cena. É encantador para quem assiste, ver uma série mais ou menos centrada em um espaço geográfico ter um apelo de entretenimento tão grande. O 221B da Baker Street nunca parece ser “demais” ou “repetitivo”, graças a essa escolha de rotação da câmera, seja em diversos ângulos fixos, seja através de uma steadicam que anda pelo apartamento.


          A montagem da temporada foi assinada por dois editores diferentes, Charlie Phillips e Tim Porter, profissionais que reafirmaram a estrutura cinematográfica da série. O primeiro destaque vai para a criativa flutuação de textos e palavras na tela, um atalho muitíssimo eficaz para evitar que o roteiro ou a imagem tivessem que representar mensagens de celular, observações dedutivas e processos mentais. A edição conserva o cuidado com o equilíbrio, jamais deixando que uma enorme quantidade de textos cansem o espectador, e a mesma preocupação se aplica à aceleração ou desaceleração da câmera, especialmente nas lutas ou nas observações de Sherlock. Mas a virtude maior da edição está na sequência lógica das cenas a partir de elementos do próprio cenário, tornando a continuidade fluída e suave; ou mesmo o uso de “colagens” (o que chamamos de falso-raccord), elementos não necessariamente pertencentes àquele cenário, que por uma aproximação da câmera ou uma colocação de sentido dramático, liga um ambiente a outro (no sonho, a cama de Sherlock Holmes que liga o campo, onde o esportista é morto pelo próprio boomerangue, ao quarto do detetive). Mesmo nesses falsos raccords, a estranheza provocada no espectador não é nada negativa, ao contrário, comunica a engenhosidade dos editores e impressiona visualmente.

          Sobre o elenco da série, pouco se tem a acrescentar ao que já foi dito. A dupla Benedict Cumberbatch (Sherlock) e Martin Freeman (Watson) está impecável, realmente duas almas gêmeas, uma espécie de contrário um do outro, dois amigos que se gostam muito, uma amizade que mostra o quão intensa é, nos episódios Dois e Três. Ambos cresceram dramaticamente, e mesmo as atuações se tornaram detalhadamente impecáveis – não apenas em técnica, mas em espontaneidade e emoção. Watson ganhou mais importância, se tornou um eixo inseparável das investigações de Sherlock, não apenas o amigo falador e impressionável. Sherlock se tornou mais “humano”, mostrou os atos de afeto que pode ter para com as pessoas que gosta. Até o humor se tornou algo de ambas as partes.

          Una Stubbs (Sra. Hudson), Rupert Graves (Lestrade) e Loo Brealey (Molly), também se destacaram melhor que na temporada anterior, cresceram em relação à sua importância para a dupla protagonista e ganharam um pouco de independência em suas ações. Mark Gatiss (Mycroft), é outro ator que teve sua personagem “upada”, seja na aquisição de sentimentos, seja na sua participação mais ativa na vida de Sherlock e Watson. Andrew Scott (Moriaty) perdeu um pouco a afetação do finale da primeira temporada e ganhou papel de merecido destaque, com impecáveis alterações de humor. O ator conduz a personagem divinamente, é um antagonista encantador e ao mesmo tempo repudiável, sentimentos criados pela ampla interpretação. Dos atores que interpretam personagens especiais, destacamos as maravilhosas caracterizações de Lara Pulver (Irene Adler – Episódio 1) e Russell Tovey (Henry Knight – Episódio 2).


          Não é sem motivo que a BBC exibe com orgulho as suas produções. Sherlock é quase uma afronta às outras séries, de tão bem realizada. A segunda temporada conseguiu o seu lugar cativo no coração dos espectadores, e ciente disso, os produtores não deixaram de inserir elementos da cultura popular, nerd, geek e afins, como pro exemplo, Batman e Robin, comparação feita para a dupla Sherlock e Watson em um jornal; os Smurfs, quando Watson pergunta a Mycroft porque ele e Sherlock não tinham um bom relacionamento: “Ele roubou todos os seus Smurfs, quebrou seus bonecos?”; Spok, apelido dado por Watson a Sherlock; 007, o número de um voo no episódio Um; e as muitas homenagens ao cinema de terror e às outras versões de O Cão dos Baskerville, no segundo episódio. É como se Steven Moffat e os outros produtores e roteiristas estivessem buscando algo que transcendesse o universo detetivesco de Sherlock Holmes, e não só conseguiram o que desejavam como plantaram no público a doentia semente da ansiedade pela terceira temporada.


Série: Sherlock
Status: Renovada para a terceira temporada (2013).
Diretores: Paul McGuigan (episódios 1 e 2) e Toby Haynes (episódio 3).
Duração: 1h28min.

Episódios

1 – A Scandal in Belgravia
2 – The Hounds of Baskerville
3 – The Reichenbach Fall

AVALIAÇÃO DA TEMPORADA: ÓTIMO.


7 de fev de 2012

Oscar 2012: Questionário de Apostas




por Luiz Santiago

          A mais conhecida e glamourosa premiação do cinema acontecerá no próximo dia 26 de Fevereiro, e o Cinebulição quer saber a sua opinião a respeito. Abaixo, temos um questionário com a maioria das categorias do Oscar e seus indicados. O leitor poderá votar naqueles que aposta que levarão a estatueta para casa. Apenas duas categorias e uma pesquisa de opinião são obrigatórias: Melhor Filme / Melhor Diretor e a escala de 0 a 10 sobre as indicações do Oscar esse ano, ao final do questionário. Todas as outras categorias (e são muitas!) são facultativas. Publicaremos o resultado dessa pesquisa no dia 25/02/2012, um dia antes da premiação oficial. Boa votação.





5 de fev de 2012

Honrarás Pai e Mãe (1988)



 

por Luiz Santiago

DECÁLOGO 4

          Baseado no quinto mandamento, “Honra teu pai e tua mãe, para que teus dias se prolonguem sobre a terra.”, o Decálogo 4 é um episódio atípico em relação aos anteriores. Primeiro porque a punição divina à desobediência não se dá no tempo fílmico; segundo, porque o ato rebelde é quase ínfimo se comparado ao dos decálogos Um, Dois e Três.

          A ação que descumpre o mandamento no Decálogo 4 acontece de dois modos. O primeiro deles é o desprezo da filha para com um pedido póstumo da mãe. O segundo, é a manutenção do desejo incestuoso da filha pelo pai. Como ambos duvidam da paternidade, o desejo contido não parece tão grave mediante a situação, mas a descoberta de uma carta deixada pela falecida mãe pode fazer ruir essa mentira inventada, de modo que ambos preferem queimar o envelope a descobrir a verdade. A opção pela ignorância, aparentemente, libertaria Anna e Michael de seus desejos incestuosos, mas longe disso (e essa é a punição) nasce uma espécie de maldição moral que irá persegui-los ad eternum.

          O filme começa na manhã de uma segunda-feira de Páscoa. Num primeiro momento, a relação entre Anna e Michael dá a entender que eles são marido e mulher, tal a força dos olhares e atitudes de um para com o outro. A água, elemento purificador, símbolo da vida (reafirmado pela Páscoa, a ressurreição de Cristo), é derramada como uma espécie de unção sobre a cabeça de Michael, que ainda dorme. Essa atitude guarda um quê de profanação, e podemos aplicar a desonra não só ao pai e a mãe terrenos, mas a Deus, o pai celestial, representado na figura de Cristo, em seu dia de ressurreição. A revelação do Complexo de Édipo vem colorir a manhã dos protagonistas com uma espécie de ritual há muito praticado.


A mulher e o pecado: visão retrógrada

          Kieslowski apresenta Anna sempre em figurinos claros ou de cor azul, embora a personagem nunca esteja perfeitamente vestida, maquilada e sob uma luz favorável. É notória a ausência de beleza ou vaidade nas mulheres do Decálogo. É como se essa série representasse também a postura de uma sociedade arcaica – como no Velho Testamento –, onde as mulheres, sempre desajeitadas e causadoras de problemas, estavam aquém dos homens. Na Trilogia das Cores (1993 - 1994), o diretor adotaria uma outra postura. A tríade feminina que protagoniza os filmes é tratada com o máximo de cuidado – estético e personalístico – e são catalizadoras de suas ações, independentes da força e presença masculina para escreverem a sua história.

          Nesse episódio, assim como no Decálogo 3, a mentira faz parte do cotidiano das personagens. A representação de uma postura social e familiar - hipócrita - é comum nos dois protagonistas desse episódio quatro, e isso percebemos com o passar do tempo: pai e filha sabiam da existência da carta e do seu conteúdo, apenas não tinham certeza absoluta porque não haviam-na lido; mas representam o tempo inteiro como se não soubesse de nada. Anna, como estudante de Artes Cênicas, é a verdadeira farsa da situação, assumindo o papel de mulher proibida, moralmente rejeitada pelo pai.

          Alguns objetos, aparições e acontecimentos interessantes formam a identidade desse decálogo e depreendem pouco esforço para serem contextualizados: Anna vai ao oftalmologista (primeiro fato curioso, porque o momento em que ela “descobre” a deficiência na visão é quando o avião do pai decola e ela não consegue enxergá-lo direito), e a doutora aponta uma sequência de letras de formam a palavra FATHER. Em uma cena no elevador, temos a interação com um protagonista de outro decálogo - é importante lembrar que os dez episódios se passam com pessoas diferentes de um mesmo conjunto habitacional em Varsóvia -, o médico do Decálogo 2. A personagem angelical – símbolo da onipresença de Deus, que aparece em 9 dos 10 episódios da série – surge no momento em que Anna está para abrir o envelope deixado pela mãe. Ele atravessa um rio em um pequeno barco, e ao chegar à margem, pega-o, para em frente a Anna, olha para ela fixamente e segue seu caminho. A oportunidade de se livrar de uma mentira é concedida à personagem nesse exato momento.


O fim da moral coletiva?

          Se uma pessoa perde as referências e os valores familiares, abre-se o caminho para  muitas atitudes criminosas, já que não existe mais essa garantia de ordem social e limitações chamada família. De uma maneira muito irônica, esse passo para o crime não é aberto no Decálogo 4, (diferente do filme e da série Twin Peaks, caso muito bem apontado por Slavoj Zizek em um artigo sobre o Decálogo). O futuro das personagens e a legitimidade do pecado estão no julgamento do espectador. A música expressiva de Zbigniev Preisner que acompanha a cena final não nos deixa pistas sobre o que virá – embora o pecado do próximo Decálogo seja uma herança dessa família desvirtuada: Não Matarás. Apenas um dilema moral paira na tela, com a câmera envergonhada que se afasta dos protagonistas para ver “envelhecer” uma velha fotografia de família, como se quisesse aludir ao declínio e morte dessa instituição consumida pelo mundo secular dos modismos, dos extremos e excessos.



DECÁLOGO 4 (Dekalog cztery, Polônia, 1988).
Direção: Krzysztof Kieslowski
Roteiro: Krzysztof Piesiewicz e Krzysztof Kieslowski
Elenco: Adrianna Biedrzynska, Janusz Gajos, Artur Barcis, Adam Hanuszkiewicz, Jan Terasz.
Duração: 55min.

EPISÓDIO MUITO BOM. FORTEMENTE RECOMENDADO.


3 de fev de 2012

Machado de Assis no Cinema

 



por Luiz Santiago

          As adaptações literárias sempre causam discordância e até furor nos espectadores. A mudança da mídia impressa para o audiovisual incomoda os leitores mais exigentes, que cobram do cinema uma representação tal e qual havia imaginado na leitura do livro. Se contarmos as livre adaptações, que já em sua concepção, pretendem ser diferentes, a briga entre o cinéfilo e o leitor (que podem ser a mesma pessoa) ganha proporções monstruosas. Nosso objetivo nessa postagem, é trazer à memória algumas adaptações de obras literárias  de um dos nossos maiores escritores, o carioca Machado de Assis (1839 - 1908).




Filme: Esse Rio que eu Amo (filme em episódios).
Ano: 1962

Direção: Carlos Hugo Christensen
Obra: Noite de Almirante (1884).

Trecho da obra: "Pode ser que qualquer outra mulher tivesse igual palavra; poucas lhe dariam uma expressão tão cândida, não de propósito, mas involuntariamente. Vede que estamos aqui muito próximos da natureza. Que mal lhe fez ele? Que mal lhe fez esta pedra que caiu de cima? Qualquer mestre de física lhe explicaria a queda das pedras. Deolindo declarou, com um gesto de desespero, que queria matá-lo. Genoveva olhou para ele com desprezo, sorriu de leve e deu um muxoxo; e, como ele lhe falasse de ingratidão e perjúrio, não pôde disfarçar o pasmo. Que perjúrio? que ingratidão? Já lhe tinha dito e repetia que quando jurou era verdade. Nossa Senhora, que ali estava, em cima da cômoda, sabia se era verdade ou não. Era assim que lhe pagava o que padeceu? E ele que tanto enchia a boca de fidelidade, tinha-se lembrado dela por onde andou?".




Filme: Capitu.
Ano: 1968

Direção: Paulo Cesar Saraceni
Obra: Dom Casmurro (1899).

Trecho da obra: "Aos cinco e seis anos, Ezequiel não parecia desmentir os meus sonhos da Praia da Glória; ao contrário, adivinhavam-se nele todas as vocações possíveis, desde vadio até apóstolo. Vadio é aqui posto no bom sentido, no sentido de homem que pensa e cala; metia-se às vezes consigo, e nisto fazia lembrar a mãe, desde pequena. Assim também, agitava-se todo e instava por ir persuadir às vizinhas que os doces que eu lhe trazia eram doces deveras; não o fazia antes de farto deles, mas também os apóstolos não levam a boa doutrina senão depois de a terem toda no coração. Escobar, bom negociante, opinava que a causa principal desta outra inclinação, talvez fosse convidar implicitamente as vizinhas a igual apostolado, quando os pais lhe trouxessem doces; e ria-se da própria graça, e anunciava-me que o faria seu sócio.".




Filme: Viagem ao Fim do Mundo.
Ano: 1968

Direção: Fernando Campos
Obra: Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881).

Trecho da obra: "Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do que uma ideia grandiosa e útil, a causa da minha morte, é possível que o leitor me não creia, e todavia é verdade. Vou expor-lhe sumariamente o caso. Julgue-o por si mesmo."




Filme: Azyllo Muito Louco.
Ano: 1970

Direção: Nelson Pereira dos Santos
Obra: O Alienista (1882).

Trecho da obra: "E tinham razão. De todas as vilas e arraiais vizinhos afluíam loucos à Casa Verde. Eram furiosos, eram mansos, eram monomaníacos, era toda a família dos deserdados do espírito. Ao cabo de quatro meses, a Casa Verde era uma povoação. Não bastaram os primeiros cubículos; mandou-se anexar uma galeria de mais trinta e sete. O Padre Lopes confessou que não imaginara a existência de tantos doidos no mundo, e menos ainda o inexplicável de alguns casos."




Filme: Um Homem Célebre.
Ano: 1974

Direção: Miguel Faria Jr.
Obra: Um Homem Célebre (1896).

Trecho da obra: "Veio o café; Pestana engoliu a primeira xícara, e sentou-se ao piano. Olhou para o retrato de Beethoven, e começou a executar a sonata, sem saber de si, desvairado ou absorto, mas com grande perfeição. Repetiu a peça, depois parou alguns instantes, levantou-se e foi a uma das janelas. Tornou ao piano; era a vez de Mozart, pegou de um trecho, e executou-o do mesmo modo, com a alma alhures. Haydn levou-o à meia-noite e à segunda xícara de café."




Filme: Confissões de Uma Viúva Moça.
Ano: 1976

Direção: Adnor Pitanga
Obra: Confissões de Uma Viúva Moça (1870).

Trecho da obra: "Minha casa era um ponto de reunião de alguns rapazes conversados e algumas moças elegantes. Eu, rainha eleita pelo voto universal... de minha casa, presidia aos serões familiares. Fora de casa, tínhamos os teatros animados, as partidas das amigas, mil outras distrações que davam à minha vida certas alegrias exteriores em falta das íntimas, que são as únicas verdadeiras e fecundas. Se eu não era feliz, vivia alegre. E aqui vai o começo do meu romance."




Filme: A Causa Secreta.
Ano: 1994

Direção: Sérgio Bianchi
Obra: A Causa Secreta (1896).

Trecho da obra: "Garcia, em pé, mirava e estalava as unhas; Fortunato, na cadeira de balanço, olhava para o teto; Maria Luísa, perto da janela, concluía um trabalho de agulha. Havia já cinco minutos que nenhum deles dizia nada. Tinham falado do dia, que estivera excelente, — de Catumbi, onde morava o casal Fortunato, e de uma casa de saúde, que adiante se explicará. Como os três personagens aqui presentes estão agora mortos e enterrados, tempo é de contar a história sem rebuço."


Filme: O Enfermeiro.
Ano: 1999

Direção: Mauro Farias
Obra: O Enfermeiro (1896).

Trecho da obra: "Quando percebi que o doente expirava, recuei aterrado, e dei um grito; mas ninguém me ouviu. Voltei à cama, agitei-o para chamá-lo à vida, era tarde; arrebentara o aneurisma, e o coronel morreu. Passei à sala contígua, e durante duas horas não ousei voltar ao quarto. Não posso mesmo dizer tudo o que passei, durante esse tempo. Era um atordoamento, um delírio vago e estúpido. Parecia-me que as paredes tinham vultos; escutava umas vozes surdas. Os gritos da vítima, antes da luta e durante a luta, continuavam a repercutir dentro de mim, e o ar, para onde quer que me voltasse, aparecia recortado de convulsões. Não creia que esteja fazendo imagens nem estilo; digo-lhe que eu ouvia distintamente umas vozes que me bradavam: assassino! assassino!"





Filme: Memórias Póstumas de Brás Cubas.
Ano: 2001

Direção: André Klotzel
Obra: Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881).

Trecho da obra: "Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à
direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem..."


Filme: Dom.
Ano: 2003

Direção: Moacyr Góes
Obra: Dom Casmurro (1899).

Trecho da obra: "— Quando era mais jovem; era criança, era natural, ele podia passar por criado. Mas você está ficando moço e ele vai tomando confiança. D. Glória, afinal, não pode gostar disso. A gente Pádua não é de todo má. Capitu, apesar daqueles olhos que o Diabo lhe deu... Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada. Pois, apesar deles, poderia passar, se não fosse a vaidade e a adulação. Oh! a adulação! D. Fortunata merece estima, e ele não nego que seja honesto, tem um bom emprego, possui a casa em que mora, mas honestidade e estima não bastam, e as outras qualidades perdem muito de valor com as más companhias em que ele anda. Pádua tem uma tendência para gente reles. Em lhe cheirando a homem chulo é com ele. Não digo isto por ódio, nem porque ele fale mal de mim e se ria, como se riu, há dias, dos meus sapatos acalcanhados..."



Filme: A Cartomante.
Ano: 2004

Direção: Wagner de Assis e Pablo Uranga
Obra: A Cartomante (1896).

Trecho da obra: "A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe:
— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto..."



Filme: Quanto Vale ou é por Quilo?
Ano: 2005

Direção: Sérgio Bianchi
Obra: Pai Contra Mãe (1906).

Trecho da obra: "Ora, pegar escravos fugidios era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas por ser instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implícita das ações reivindicadoras. Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir também, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem." 



Filme: A Erva do Rato
Ano: 2008

Direção: Júlio Bressane e Rosa Dias
Obras: A Causa Secreta (1896) e Um Esqueleto (1875).

Trecho da obra Um Esqueleto: "Ao terminar estas palavras, o doutor beijou respeitosamente a mão do esqueleto. Estremeci e olhei para D. Marcelina. Esta fechara os olhos. Eu estava ansioso por terminar aquela cena que realmente me repugnava presenciar. O doutor não parecia reparar em nada. Continuou a falar no mesmo assunto, e por mais esforços que eu fizesse para o desviar dele era impossível. Estávamos à sobremesa quando o doutor, interrompendo um silêncio que durava já havia dez minutos perguntou:

— E segundo me parece, ainda lhe não contei a história deste esqueleto, quero dizer a história de minha mulher?"


Filme: O Demoninho dos Olhos Pretos
Ano: 2008

Direção: Haroldo Marinho Barbosa
Obra: Contos Fluminenses (1870).

Trecho da obra: "Luís Soares teve um instante de desengano. Indiferente à moça, já começava a odiá-la; se casasse com ela era provável que a tratasse como inimigo mortal. A situação tornava-se ridícula para ele; ou antes, já o era há muito, mas Soares só então o compreendeu. Para escapar ao ridículo, resolveu dar um golpe final, mas grande. Aproveitou a primeira ocasião que pôde, e fez uma declaração positiva à moça, cheia de súplicas, de suspiros, talvez de lágrimas. Confessou os seus erros; reconheceu que não a havia compreendido; mas arrependera-se e confessava tudo. A influência dela acabara por abatê-lo."


Filme: Os Óculos de Pedro Antão
Ano: 2008

Direção: Adolfo Rosenthal
Obra: Os Óculos de Pedro Antão (1874).

Trecho da obra: "Três causas diversas podem aconselhar o uso dos óculos. A primeira de todas é a debilidade do órgão visual, causa legítima, menos comum do que parece e mais vulgar do que devia ser. Vê-se hoje um rapaz entrado na puberdade e já adornado com um par de óculos, não por gosto, senão por necessidade. A natureza conspira para estabelecer o reinado dos míopes."



Filme: Uns Braços
Ano: 2009

Direção: Adolfo Rosenthal
Obra: Uns Braços (1896).

Trecho da obra: "Já nessa noite, D. Severina mirava por baixo dos olhos os gestos de Inácio; não chegou a achar nada, porque o tempo do chá era curto e o rapazinho não tirou os olhos da xícara. No dia seguinte pôde observar melhor, e nos outros otimamente. Percebeu que sim, que era amada e temida, amor adolescente e virgem, retido pelos liames sociais e por um sentimento de inferioridade que o impedia de reconhecer-se a si mesmo. D. Severina compreendeu que não havia recear nenhum desacato, e concluiu que o melhor era não dizer nada ao solicitador; poupava-lhe um desgosto, e outro à pobre criança."


PRÉ-PRODUÇÃO

          Sem confirmação e data para as filmagens, a pré-produção de A Igreja do Diabo, projeto a ser dirigido por Manuel de Oliveira, ainda é uma hipótese. Com elenco português e brasileiro, o filme deverá trazer uma atraente adaptação do conto de Machado de Assis. Como a obra ainda não existe, ficamos com um trecho do conto.

          A Igreja do Diabo (1884): "Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a ideia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez."


2 de fev de 2012

Arca Russa / Russkiy Kovcheg (2002)

  

Arca Russa ou o resgate da história

por Erivoneide Barros


Aleksander Sokúrov, na 35ª mostra internacional de cinema de São Paulo, apresentou seu novo longa metragem, Fausto (2011), vencedor do Leão de Ouro, no Festival de Veneza 2011, na categoria melhor filme estrangeiro. No entanto ainda é seu Arca Russa que faz a crítica repensar o que é cinema e, sobretudo, o que é montagem.

Em um único plano-sequência de 96 minutos, Sokúrov abre uma das arcas da Rússia, o Museu Hermitage, para convidar o mundo a refletir sobre a questão russa. Desde o final do século XVIII, a relação entre Rússia e Europa é gradativamente pensada e explorada pelos escritores russos. Ressalta-se como exemplo desta reflexão as Notas de inverno sobre impressões de verão de Fiódor Dostoiévski. Dostoiévski, ironicamente, explora outro lado da Europa, contrapondo os supostos costumes bárbaros da Rússia à vida não comentada da Europa, como ilustra a análise que o autor faz das ruas repletas de “quartos de pouca permanência” e a circulação de “mulheres públicas” em Londres e Paris.

Embora a relação suscitada pelo título possa imediatamente atrelar-se a arca criada por Noé no primeiro livro do Pentateuco, ousamos a aproximação com outra arca, indicada no livro de Êxodo. A arca da aliança foi construída a partir das orientações divinas, tanto no que se refere ao formato, tamanho, quanto à sua função. Segundo a mitologia cristã, a arca deveria carregar as tábuas da lei, a vara de Aarão e um vaso de maná como uma espécie de museu ambulante a fim de que o povo não se esquecesse da aliança que Deus tinha com eles nem dos sinais e prodígios que o Senhor havia realizado.

Sókurov parece abrir tal arca, agora a da história russa, para refletir seu passado e sua incidência sobre o presente. A priori, vale lembrar que o Museu Hermitage não é um museu exclusivo de obras russas. Situado em São Petersburgo, o museu foi idealizado por Catarina, a Grande, que deu continuidade aos projetos de Pedro, o Grande, de modernizar a cidade de São Petersburgo e torná-la um grande centro cultural como Paris. Desejosa de tornar-se popular, a imperatriz consome a cultura europeia trazendo para a Rússia a cultura livresca e pictórica, principalmente da França. É ela quem encomenda e inaugura a escultura de Falconet, O Cavaleiro, na comemoração do centésimo aniversário da ascensão de Pedro ao trono. Sob o governo de Catarina, no século XVIII, a Rússia surgiu como uma grande potência.

É esse cenário que Sokúrov manipula com maestria. O narrador, o próprio cineasta, desloca-se no tempo saindo do século XXI (2001) e ambientando-se no século XIX sem saber aparentemente como. O narrador não reconhece o lugar em que está, nem identifica o comportamento das pessoas que surgem em sua frente. A narração predominante da primeira pessoa gera a inserção direta do espectador na cena e na história coletiva da Rússia, assim o espectador é convocado a tornar-se parte e assumir o seu lugar na História. Desse modo, a película é um amálgama de tempos e espaços.

A figura de Pedro, o Grande, é vista com ambivalência. Como idealizador de São Petersburgo, o czar é analisado por duas facetas, aquele que “permitiu os russos se divertirem” sem deixar de ser considerado “como um tirano”. Durante todo o filme, percebe-se de modo sutil esse jogo de dualidade que remete ao modo como a Rússia foi vista e analisada por seus filhos sem desconsiderar o olhar exterior.

Para marcar ainda mais essa visão ambivalente, surge a figura do Marquês de Custine que caminha com o narrador pelas salas do museu. As falas do personagem foram retiradas da obra La Russie en 1839, escrita pelo Marquês após o período em que esteve na Rússia.

Longe do suposto saudosismo apontado por muitos críticos, o diretor busca compreender a Rússia de antes e a de hoje. São iguais? O que permaneceu? Também não se trata de pessimismo – “Eles são surdos: o passado não pode ser alterado” – mas sim de uma tomada de consciência sobre o que se é e a necessidade de prosseguir. Sokúrov parece não buscar a Rússia dos csares, porém almeja trazer à tona a cultura perdida e, em alguns momentos, preterida pelas questões políticas. Declarações como “A Rússia é como um Teatro” induzem a reflexão dos grandes acontecimentos encenados, das grandes tragédias, no sentido shakesperiano.

Conforme pontuou Berman (1986), São Petersburgo nasceu como “Uma janela para a Europa”, imagem retomada pelo diretor no fechamento do filme. Após o grande baile que marca o fim da dinastia Romanov e assinala a revolução, a câmera é conduzida até uma espécie de janela para o mar em que o narrador faz uma declaração que sugerimos dar voz a todos os participantes da história russa: “Estamos destinados a navegar para sempre. A viver para sempre”.

          Não pretendemos limitar as várias possibilidades de leitura suscitada pela obra, porém não há como evitar o olhar assertivo e lúcido do diretor sobre as questões políticas russas e o lugar do país entre Ocidente e Oriente. Assim como a arca da aliança que não permitiu ao povo de Israel esquecer sua origem e história ao longo de sua trajetória, a arca russa de Sokúrov é uma elegia a um período decisivo da Rússia que marcou a história mundial.


Bibliografia

BERMAN, Marshall. Petersburgo: o modernismo do subdesenvolvimento. In. Tudo que é sólido desmancha no ar. Trad. Carlos Felipe Moisés e Ana Maria L.Ioriatti. São Paulo: Cia das Letras, 1986. p. 167-270.

VOLKOV, Solomon. São Petersburgo: uma história cultural. Trad. Marcos Aarão Reis. Rio de Janeiro: Record, 1997. 


ARCA RUSSA (Russkiy Kovcheg, Rússia, Alemanha, 2002).
Direção: Aleksandr Sokúrov
Roteiro: Aleksandr Sokúrov, Anatoli Nikiforov, Svetlana Proskurina e Boris Khaimsky.
Elenco: Sergei Dontsov, Maria Kuznetsova, Leonid Mozgovoy, Mikhail Piotrovsky, David Giorgobiani, Aleksandr Chaban, Maksim Sergeyev, Natalya Nikulenko.
Duração: 1h39min.

FILME ÓTIMO. É IMPERDÍVEL ASSISTI-LO!


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