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3 de fev. de 2012

Machado de Assis no Cinema

 



por Luiz Santiago

          As adaptações literárias sempre causam discordância e até furor nos espectadores. A mudança da mídia impressa para o audiovisual incomoda os leitores mais exigentes, que cobram do cinema uma representação tal e qual havia imaginado na leitura do livro. Se contarmos as livre adaptações, que já em sua concepção, pretendem ser diferentes, a briga entre o cinéfilo e o leitor (que podem ser a mesma pessoa) ganha proporções monstruosas. Nosso objetivo nessa postagem, é trazer à memória algumas adaptações de obras literárias  de um dos nossos maiores escritores, o carioca Machado de Assis (1839 - 1908).




Filme: Esse Rio que eu Amo (filme em episódios).
Ano: 1962

Direção: Carlos Hugo Christensen
Obra: Noite de Almirante (1884).

Trecho da obra: "Pode ser que qualquer outra mulher tivesse igual palavra; poucas lhe dariam uma expressão tão cândida, não de propósito, mas involuntariamente. Vede que estamos aqui muito próximos da natureza. Que mal lhe fez ele? Que mal lhe fez esta pedra que caiu de cima? Qualquer mestre de física lhe explicaria a queda das pedras. Deolindo declarou, com um gesto de desespero, que queria matá-lo. Genoveva olhou para ele com desprezo, sorriu de leve e deu um muxoxo; e, como ele lhe falasse de ingratidão e perjúrio, não pôde disfarçar o pasmo. Que perjúrio? que ingratidão? Já lhe tinha dito e repetia que quando jurou era verdade. Nossa Senhora, que ali estava, em cima da cômoda, sabia se era verdade ou não. Era assim que lhe pagava o que padeceu? E ele que tanto enchia a boca de fidelidade, tinha-se lembrado dela por onde andou?".




Filme: Capitu.
Ano: 1968

Direção: Paulo Cesar Saraceni
Obra: Dom Casmurro (1899).

Trecho da obra: "Aos cinco e seis anos, Ezequiel não parecia desmentir os meus sonhos da Praia da Glória; ao contrário, adivinhavam-se nele todas as vocações possíveis, desde vadio até apóstolo. Vadio é aqui posto no bom sentido, no sentido de homem que pensa e cala; metia-se às vezes consigo, e nisto fazia lembrar a mãe, desde pequena. Assim também, agitava-se todo e instava por ir persuadir às vizinhas que os doces que eu lhe trazia eram doces deveras; não o fazia antes de farto deles, mas também os apóstolos não levam a boa doutrina senão depois de a terem toda no coração. Escobar, bom negociante, opinava que a causa principal desta outra inclinação, talvez fosse convidar implicitamente as vizinhas a igual apostolado, quando os pais lhe trouxessem doces; e ria-se da própria graça, e anunciava-me que o faria seu sócio.".




Filme: Viagem ao Fim do Mundo.
Ano: 1968

Direção: Fernando Campos
Obra: Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881).

Trecho da obra: "Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do que uma ideia grandiosa e útil, a causa da minha morte, é possível que o leitor me não creia, e todavia é verdade. Vou expor-lhe sumariamente o caso. Julgue-o por si mesmo."




Filme: Azyllo Muito Louco.
Ano: 1970

Direção: Nelson Pereira dos Santos
Obra: O Alienista (1882).

Trecho da obra: "E tinham razão. De todas as vilas e arraiais vizinhos afluíam loucos à Casa Verde. Eram furiosos, eram mansos, eram monomaníacos, era toda a família dos deserdados do espírito. Ao cabo de quatro meses, a Casa Verde era uma povoação. Não bastaram os primeiros cubículos; mandou-se anexar uma galeria de mais trinta e sete. O Padre Lopes confessou que não imaginara a existência de tantos doidos no mundo, e menos ainda o inexplicável de alguns casos."




Filme: Um Homem Célebre.
Ano: 1974

Direção: Miguel Faria Jr.
Obra: Um Homem Célebre (1896).

Trecho da obra: "Veio o café; Pestana engoliu a primeira xícara, e sentou-se ao piano. Olhou para o retrato de Beethoven, e começou a executar a sonata, sem saber de si, desvairado ou absorto, mas com grande perfeição. Repetiu a peça, depois parou alguns instantes, levantou-se e foi a uma das janelas. Tornou ao piano; era a vez de Mozart, pegou de um trecho, e executou-o do mesmo modo, com a alma alhures. Haydn levou-o à meia-noite e à segunda xícara de café."




Filme: Confissões de Uma Viúva Moça.
Ano: 1976

Direção: Adnor Pitanga
Obra: Confissões de Uma Viúva Moça (1870).

Trecho da obra: "Minha casa era um ponto de reunião de alguns rapazes conversados e algumas moças elegantes. Eu, rainha eleita pelo voto universal... de minha casa, presidia aos serões familiares. Fora de casa, tínhamos os teatros animados, as partidas das amigas, mil outras distrações que davam à minha vida certas alegrias exteriores em falta das íntimas, que são as únicas verdadeiras e fecundas. Se eu não era feliz, vivia alegre. E aqui vai o começo do meu romance."




Filme: A Causa Secreta.
Ano: 1994

Direção: Sérgio Bianchi
Obra: A Causa Secreta (1896).

Trecho da obra: "Garcia, em pé, mirava e estalava as unhas; Fortunato, na cadeira de balanço, olhava para o teto; Maria Luísa, perto da janela, concluía um trabalho de agulha. Havia já cinco minutos que nenhum deles dizia nada. Tinham falado do dia, que estivera excelente, — de Catumbi, onde morava o casal Fortunato, e de uma casa de saúde, que adiante se explicará. Como os três personagens aqui presentes estão agora mortos e enterrados, tempo é de contar a história sem rebuço."


Filme: O Enfermeiro.
Ano: 1999

Direção: Mauro Farias
Obra: O Enfermeiro (1896).

Trecho da obra: "Quando percebi que o doente expirava, recuei aterrado, e dei um grito; mas ninguém me ouviu. Voltei à cama, agitei-o para chamá-lo à vida, era tarde; arrebentara o aneurisma, e o coronel morreu. Passei à sala contígua, e durante duas horas não ousei voltar ao quarto. Não posso mesmo dizer tudo o que passei, durante esse tempo. Era um atordoamento, um delírio vago e estúpido. Parecia-me que as paredes tinham vultos; escutava umas vozes surdas. Os gritos da vítima, antes da luta e durante a luta, continuavam a repercutir dentro de mim, e o ar, para onde quer que me voltasse, aparecia recortado de convulsões. Não creia que esteja fazendo imagens nem estilo; digo-lhe que eu ouvia distintamente umas vozes que me bradavam: assassino! assassino!"





Filme: Memórias Póstumas de Brás Cubas.
Ano: 2001

Direção: André Klotzel
Obra: Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881).

Trecho da obra: "Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à
direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem..."


Filme: Dom.
Ano: 2003

Direção: Moacyr Góes
Obra: Dom Casmurro (1899).

Trecho da obra: "— Quando era mais jovem; era criança, era natural, ele podia passar por criado. Mas você está ficando moço e ele vai tomando confiança. D. Glória, afinal, não pode gostar disso. A gente Pádua não é de todo má. Capitu, apesar daqueles olhos que o Diabo lhe deu... Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada. Pois, apesar deles, poderia passar, se não fosse a vaidade e a adulação. Oh! a adulação! D. Fortunata merece estima, e ele não nego que seja honesto, tem um bom emprego, possui a casa em que mora, mas honestidade e estima não bastam, e as outras qualidades perdem muito de valor com as más companhias em que ele anda. Pádua tem uma tendência para gente reles. Em lhe cheirando a homem chulo é com ele. Não digo isto por ódio, nem porque ele fale mal de mim e se ria, como se riu, há dias, dos meus sapatos acalcanhados..."



Filme: A Cartomante.
Ano: 2004

Direção: Wagner de Assis e Pablo Uranga
Obra: A Cartomante (1896).

Trecho da obra: "A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe:
— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto..."



Filme: Quanto Vale ou é por Quilo?
Ano: 2005

Direção: Sérgio Bianchi
Obra: Pai Contra Mãe (1906).

Trecho da obra: "Ora, pegar escravos fugidios era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas por ser instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implícita das ações reivindicadoras. Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir também, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem." 



Filme: A Erva do Rato
Ano: 2008

Direção: Júlio Bressane e Rosa Dias
Obras: A Causa Secreta (1896) e Um Esqueleto (1875).

Trecho da obra Um Esqueleto: "Ao terminar estas palavras, o doutor beijou respeitosamente a mão do esqueleto. Estremeci e olhei para D. Marcelina. Esta fechara os olhos. Eu estava ansioso por terminar aquela cena que realmente me repugnava presenciar. O doutor não parecia reparar em nada. Continuou a falar no mesmo assunto, e por mais esforços que eu fizesse para o desviar dele era impossível. Estávamos à sobremesa quando o doutor, interrompendo um silêncio que durava já havia dez minutos perguntou:

— E segundo me parece, ainda lhe não contei a história deste esqueleto, quero dizer a história de minha mulher?"


Filme: O Demoninho dos Olhos Pretos
Ano: 2008

Direção: Haroldo Marinho Barbosa
Obra: Contos Fluminenses (1870).

Trecho da obra: "Luís Soares teve um instante de desengano. Indiferente à moça, já começava a odiá-la; se casasse com ela era provável que a tratasse como inimigo mortal. A situação tornava-se ridícula para ele; ou antes, já o era há muito, mas Soares só então o compreendeu. Para escapar ao ridículo, resolveu dar um golpe final, mas grande. Aproveitou a primeira ocasião que pôde, e fez uma declaração positiva à moça, cheia de súplicas, de suspiros, talvez de lágrimas. Confessou os seus erros; reconheceu que não a havia compreendido; mas arrependera-se e confessava tudo. A influência dela acabara por abatê-lo."


Filme: Os Óculos de Pedro Antão
Ano: 2008

Direção: Adolfo Rosenthal
Obra: Os Óculos de Pedro Antão (1874).

Trecho da obra: "Três causas diversas podem aconselhar o uso dos óculos. A primeira de todas é a debilidade do órgão visual, causa legítima, menos comum do que parece e mais vulgar do que devia ser. Vê-se hoje um rapaz entrado na puberdade e já adornado com um par de óculos, não por gosto, senão por necessidade. A natureza conspira para estabelecer o reinado dos míopes."



Filme: Uns Braços
Ano: 2009

Direção: Adolfo Rosenthal
Obra: Uns Braços (1896).

Trecho da obra: "Já nessa noite, D. Severina mirava por baixo dos olhos os gestos de Inácio; não chegou a achar nada, porque o tempo do chá era curto e o rapazinho não tirou os olhos da xícara. No dia seguinte pôde observar melhor, e nos outros otimamente. Percebeu que sim, que era amada e temida, amor adolescente e virgem, retido pelos liames sociais e por um sentimento de inferioridade que o impedia de reconhecer-se a si mesmo. D. Severina compreendeu que não havia recear nenhum desacato, e concluiu que o melhor era não dizer nada ao solicitador; poupava-lhe um desgosto, e outro à pobre criança."


PRÉ-PRODUÇÃO

          Sem confirmação e data para as filmagens, a pré-produção de A Igreja do Diabo, projeto a ser dirigido por Manuel de Oliveira, ainda é uma hipótese. Com elenco português e brasileiro, o filme deverá trazer uma atraente adaptação do conto de Machado de Assis. Como a obra ainda não existe, ficamos com um trecho do conto.

          A Igreja do Diabo (1884): "Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a ideia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez."


18 de ago. de 2011

Cinema e Literatura: O Planeta dos Macacos


por Ritter Fan


     Pierre Boulle, escritor francês falecido em 1994, foi o verdadeiro responsável pela febre símia que assolou os Estados Unidos a partir de 1968, com o lançamento do primeiro de muitos filmes baseado em seu livro Le Planète des Singes ou, simplesmente, O Planeta dos Macacos. Sempre notei que, em todas as adaptações cinematográficas e televisivas sobre o mundo dos macacos, o nome de Pierre Boulle aparecia com grande proeminência mas nunca me dei ao trabalho de ler o livro, até porque nunca o encontrei em português. No entanto, com as facilidades da vida moderna, acabei adquirindo o livro digital de uma versão em inglês da obra francesa e posso dizer que me diverti muito.

     Para começar, é incrível que Pierre Boulle, em 1952, já tivesse escrito outro livro que se tornou um clássico do cinema: 
A Ponte do Rio Kwai. Normalmente imaginamos que autores de ficção científica ficam restritos ao gênero mas, pelo que pude aprender sobre Boulle, O Planeta dos Macacos foi, para ele, uma espécie de exceção. E que exceção!

     De fato, lendo o livro, temos a nítida impressão que, apesar de ser do gênero ficção científica, não há muita preocupação com a parte científica mas sim com a parte de ficção. Boulle não se interessa muito em dar explicações detalhadas sobre como, por exemplo, viagens interplanetárias acontecem em seu universo. O que ele quer - e muito sabiamente, aliás - é abordar os aspectos antropológicos de sua ideia de colocar símios no lugar de homens (de certa maneira, isso foi feito antes dele por Aldous Huxley, em 
Ape and Essence mas que não vem ao caso aqui). Vamos à estória.

     O filme começa com um casal de astronautas literalmente velejando pelo espaço em um futuro distante. Estão lá puramente por prazer, como se tivessem saído para dar uma volta de carro no campo. Seus nomes são Jinn e Phyllis e, em um momento relaxado, eles reparam que há algo estranho flutuando no espaço. Ao se aproximarem, percebem que é uma garrafa e eles correm para capturá-la. Dentro da garrafa, encontram um manuscrito longo que começam a ler em voz alta. E aí começa a estória propriamente dita: ouvimos a narrativa de Ulysse Mérou, um repórter francês que, no ano de 2500, partiu em viagem interplanetária quase na velocidade da luz, juntamente com o Professor Arthur Levain e um assistente dele.

     A viagem tinha como objetivo o sistema planetário de Betelgeuse e levaria 2 anos para ser completada. No entanto, pela teoria da relatividade de Einstein, 350 anos passariam na Terra. Ao chegarem em Betelgeuse, eles escolhem um planeta que, aparentemente, tem as mesmas propriedades da Terra e pousam com um 
pod, deixando a nave em órbita. Obviamente, logo descobrem que os humanos que lá existem são como animais e não falam além de alguns urros e a raça mais desenvolvida é a dos símios. Mas, diferente do que vemos nos filmes mas igual à série animada da TV, os símios do planeta Soror (nome que signifca "irmã" em latim e que é usado pelo viajantes para batizar o planeta) são tão desenvolvidos como os humanos do planeta Terra mais ou menos da década de 1960.

     Depois de encontrarem uma bela humana que batizam de Nova, Ulysse é capturado pelos símios e levado para pesquisas científicas. Em cativeiro, ele consegue fazer amizade com a cientista chimpanzé Zira, a quem revela que é um humano "pensante". Zira, então, tenta convencer o orangotango Zaius (o cientista chefe) que Ulysse é inteligente. Zaius, porém, apenas acha que Ulysse imita os símios muito bem e que só fala aquilo que ouve. Zira, então, juntamente com seu noivo Cornelius (um chimpanzé arqueólogo) começam a montar um plano para revelar ao mundo que Ulysse é um homem e que vem de outro planeta onde a lógica é inversa e os humanos são os seres dominantes.

     Pela descrição acima, é fácil ver que todos os filmes sobre 
O Planeta dos Macacos, inclusive o de 2001 (e com a exceção da aberração que é o segundo filme), retiraram elementos do livro de Boulle. Obviamente, o filme original de 1968 é o mais próximo ao livro, apesar de mostrar uma sociedade símia ainda muito primitiva. Na época de pré-produção do filme, a ideia era mostrar a sociedade avançada dos símios mas, por questões de orçamento, decidiu-se mostrar símios em evolução. No entanto, agora que li o livro, tenho para mim que a decisão foi mais do que orçamentária. Boulle, falando pela voz de Ulysse, faz um enorme - mas bem sucedido - esforço para convencer o leitor de que os símios vestidos como humanos não são ridículos como macacos de circo com um chapéu panamá e uma gravatinha (isso é escrito no livro). E, de fato, pensando bem, fico imaginando como seria nossa reação - certamente fruto do exato preconceito de Ulysse quando vê os símios pela primeira vez - se víssemos macacos vestidos de terno e outras roupas no primeiro filme. É bem verdade que lá os símios também eram vestidos mas o que vemos no filme são roupas próprias para os símios, diferentes daquelas que os humanos comumente usam. No final das contas, a escolha no filme, por uma razão ou outra, foi muito acertada.

     Mas o livro de Boulle tem elementos que só acrescentam à mitologia dos macacos. Para começar, a cena inicial em que Ulysse se depara com a maneira com que os humanos vivem, é antológica: são verdadeiros animais, vivendo como se fossem gorilas em uma floresta no Congo. Os humanos de Soror não usam roupas e acham muito estranho humanos usarem roupas e aninham-se em buracos cavados no solo. Boulle consegue, de maneira muito mais chocante do que qualquer filme, passar aquela sensação de estranhamento e, porque não, de vergonha alheia por haver humanos portando-se como "meros" animais. E o choque continua quando Boulle descreve a cena de caçada, que acontece logo em seguida. Os símios - em sua maioria gorilas - usam técnicas de caçada muito parecida com as técnicas que, imagino, sejam usadas por caçadores mesmo hoje em dia. Ulysse, com toda a inteligência e civilização humana em seus ombros, quase não consegue suportar a visão e por instantes perde o controle, meio que revertendo para uma forma mais animal. É claro, porém, que ele consegue manter a calma e a vida.

     E Boulle não usa saídas fáceis para a barreira linguística. Os símios falam uma língua própria que Ulysse, por fim, acaba aprendendo. E, em determinados momentos, Ulysse é retratado como arrogante e preconceituoso, achando-se superior aos símios. Não é um personagem fácil de se gostar mas que, com a evolução da trama, acabamos nos afeiçoando a ele.

     O livro é curto - apenas umas 270 páginas na versão impressa - mas a trama é bem mais complexa do que a que passei acima. No entanto, contar mais é estragar as surpresas. Mas, para quem quiser saber o que acontece no final, continuem lendo.


SPOILERS adiante.

     Ulysse aprende a língua símia e, durante um congresso de cientistas, quando será apresentado como grande atração, pega o microfone e faz um grande discurso, planejado por ele, Zira e Cornelius, que torna irrefutável a conclusão de que ele é inteligente. Para a raiva de Zaius, ele ganha a liberdade e uma espécie de cidadania. Em determinado momento, porém, aprendemos que a sociedade símia passou por um enorme período de estagnação científica, algo como a nossa Idade Média, só que por 10 mil anos. E, pior, antes desse período, não há quaisquer relatos. Cornelius, o arqueólogo, desconfia que há algo de errado e acaba descobrindo um sítio arqueológico mais antigo do que 10 mil anos em que há uma boneca humana de porcelana que fala "papa" (igualzinho ao final do primeiro filme). Ulysse, que estava acompanhando Cornelius nessa pesquisa, vê a boneca e conclui a mesma coisa que Cornelius sem que os dois precisem trocar uma palavra sequer: os homens dominavam aquele planeta antes dos símios e, por alguma razão, eles involuíram ao passo que os símios tornaram-se os seres dominantes.

     Essa descoberta afasta Cornelius de Ulysse um pouco, pois mesmo Cornelius sente a ameaça que Ulysse pode representar. De volta à cidade, Ulysse descobre que Nova está grávida dele e, assim como em 
A Fuga do Planeta dos Macacos (mas ao contrário, claro), os símios passam a ficar inquietos com a possibilidade de os humanos passarem a dominar o planeta novamente (como em A Conquista do Planeta dos Macacos). Começa, por um lado, uma trama de Zaius para acabar com Ulysse, Nova e o filho dos dois e, do outro, uma trama de Cornelius e Zira para salvar os três humanos.

     Obviamente, os chimpanzés triunfam e, usando um foguete para colocar um satélite no espaço, conseguem contrabandear Ulysse, Nova e Sirius (o filho) de volta para a nave que havia ficado em órbita de Soror. Os três partem em direção à Terra e, ao chegar, pousam no aeroporto de Orly e, para o horror de Ulysse, descobrem que a Terra havia sido dominada por macacos.

     O final acima, igual ao do filme de 2001, pode ser explicado da mesma maneira que [explicarei] no filme de Tim Burton ou pode ser apenas a evolução natural dos macacos ao fim de 700 anos (são 350 para ir e 350 para voltar).

     Mas Boulle não parou nesse final surpresa. Ele revela que Jinn e Phyllis, que estavam lendo o relato de Ulysse, são, na verdade, dois chimpanzés altamente evoluídos e que esnobam o texto que acabaram de ler como mera ficção já que é impossível um ser humano pensar. Fim do livro.


Fim dos SPOILERS.

     A leitura do livro de Boulle é altamente recomendada aos fãs de ficção científica em geral e aos amantes da mitologia dos macacos em particular. É uma leitura fácil, gostosa mesmo, que flui rapidamente. O mais importante, porém é que, mesmo tendo visto todos os filmes sobre a mitologia, o livro surpreende e nos deixa desesperados para virar a página e saber o que vai acontecer. Não dá para largar o livro, que tem capítulos curtos, até seu surpreendente final (ou finais). Para os fãs dos macacos, o livro dá uma nova perspectiva às estórias e mostra de maneira ainda mais clara como foram bem feitas as adaptações de 1968 e de 2001.



LEIA O NOSSO ESPECIAL PLANETA DOS MACACOS CLICANDO NA IMAGEM


1 de ago. de 2011

Cinema e Literatura: O caso dos 10 negrinhos



por Luiz Santiago


     Agatha Christie é uma das minhas autoras favoritas, e o seu romance O Caso dos Dez Negrinhos (Ten Little Niggers, 1939), um dos melhores livros policiais que eu já li. A conhecida história de um grupo de pessoas convidadas à uma ilha por um anfitrião desconhecido, é, certamente, uma das melhores histórias de serial killer ou de ambientes claustrofóbicos já escritas. Os ingredientes tão caros à escritora aparecem em doses homeopáticas, um pouco a cada misterioso assassinato, e isso é o que mais instiga nesse romance: a tensão constante e crescente.

     Em um primeiro momento, temos um grupo de pessoas comuns, imponentes, convidados de honra de alguém que não sabem quem é. Junto às apresentações de cada um, percebemos algumas nuances comportamentais, as mesmas que nos atormentarão durante todo o livro, a cada tentativa de descobrirmos quem é o assassino.

     O livro tem uma grande potencialidade imagética, justamente por isso não é de se espantar que tenha sido exaustivamente adaptado para o cinema. Alguns diretores trazem do original o enredo para o filme, outros, optam por trabalhar a ideia geral, fazendo as famosas "livre adaptações", como é o caso de Suspicions (1995) de Michael Sperazza, dentre inúmeras outras.

     De todos os filmes, conheço apenas a versão dirigida por René Clair, na fase americana de sua carreira. Para ler a crítica completa, clique no título do cartaz logo abaixo.


1945


18 de jul. de 2011

Cinema e Literatura: O "cristianismo patético"


por Luiz Santiago

O LIVRO

     Escrito em 1898, Padre Sérgio é um prato cheio para os versados em psicanálise e críticos do cristianismo – essa última característica, sendo própria de Tolstói, que, por sua versão pessoal e ácida do cristianismo, acabou sendo excomungado da Igreja Ortodoxa em 1901.

     Em pouco mais de 100 páginas, o autor nos conta a vida do príncipe Stiepán Kassátski, que acaba virando o Padre Sérgio em dado momento de sua vida. Com uma narração fria e indiferente, os acontecimentos da vida do Padre Sérgio são sempre ligados à sua busca por algo novo, por querer fazer diferente, por nunca estar contente com o patamar (qualquer que fosse) em que se encontrava. Daí a passagem para o mosteiro e sua renúncia do desejo, tanto carnal, quanto o de ser o primeiro em tudo. É interessante como o autor nos apresenta aos poucos essa mudança. Já ao fim do livro, a carga patética que envolve a existência do Padre Sérgio chega a incomodar o leitor, especialmente nos parágrafos finais, quando essa característica insossa chega ao seu ápice.

     O livro nos mostra a sociedade da Rússia czarista, suas festas e hierarquias, sua corte e boatos. Por outro lado, nos mostra a Rússia da periferia, a Rússia dos peregrinos, vagabundos, as deportações para a Sibéria, os vícios e crimes. Embora seja um livro cujo foco é único – o personagem que dá título à obra –, vemos tratados com grande importância esses “temas paralelos”.

     A crítica ao cristianismo aparece desde o momento em que Kassátski entra para o monastério. A burocracia e hierarquia da igreja bem como o questionamento da fé e do próprio Deus são abordados no livro. A mulher, como tentadora, é também uma das colunas paralela à narrativa.

     Não se trata de uma das melhores criações de Tolstói mas é um enorme prazer de leitura. Certamente a polêmica que aborda pode incomodar aos leitores cristãos mais fervorosos, que geralmente tendem a antipatizar com esse tipo de colocação. Mas garanto que ao fim de tudo, a análise feita do mundo laico X mundo religioso é digna de nota. O livro é patético por constituição, e nos faz lembrar a existência de muitos, ao nosso redor. Leitura recomendadíssima!




OS FILMES

     Tolstói é um dos escritores que mais possuem obras adaptadas para o cinema, em diversos momentos da história (Guerra e Paz e Ana Karenina estão entre as principais). Segundo o IMDB, são 159 filmes baseados em seus livros, um número bem significativo. Para a novela Padre Sérgio encontramos as três adaptações cinematográficas que se seguem.


Título original: Otiéts Siergui 
Direção: Yakov Protazanov e Alexandre Volkoff
País / Ano: Rússia, 1919
Duração: 112min.
CONFIRA UMA CENA DESSE FILME ABAIXO.





Título original: Le Père Serge

Direção: Lucien Ganier-Raymond

País / Ano: França, 1945

Duração: 105min.



Título original: Otiéts Siergui

Direção: Igor Talankin

País / Ano: URSS, 1979

Duração: 99min.



7 de fev. de 2011

Tradição e transformação do documentário



por Luiz Santiago


Todos os grandes filmes de ficção tendem ao documentário, como todos os grandes documentário tendem à ficção. (…) E quem opta a fundo por um encontra necessariamente o outro no fim do caminho.

Jean-Luc Godard


     Espelho Partido, de Silvio Da-Rin, analisa o gênero documentário, de sua origem às novas tendências e modelos de produção. O livro parte da discussão do termo, trazendo da história a noção de documento para a sua aplicação no cinema, e desenvolve, da percepção do espectador à manufatura de um filme documentário, muitos aspectos ideológicos, estéticos e intencionais dos realizadores. De Nanook do Norte (Robert Flaherty, 1922) até A Matadeira (Jorge Furtado, 1994), Da-Rin nos expõe as características essenciais do gênero, suas principais correntes e realizadores, os impasses político-temporais, o desenvolvimento e usos da tecnologia, a construção, desconstrução e reconstrução de verdades insossas ou questionamentos de possibilidades nunca absolutas. Trata-se portanto de um livro que não reifica a si mesmo, e no melhor estilo de equilíbrio entre teoria e práxis, o autor sustenta na própria escrita a sua visão de que só temos diante de nós uma reconstrução do real. Diferente dos livros-tese sobre cinema, Espelho Partido cumpre o papel de incitar o leitor à busca e exercitar a crítica em relação às verdades em 16 ou 35mm.

Nanook of the North - Robert Flaherty, 1922

     O que é um documentário? Da-Rin nos leva pelo caminho das possibilidades, passando pelos verbetes do dicionário, pelas teses clássicas e negações absolutas quanto à existência desse tipo de filme. A não-conclusão é a de que um documentário, embora haja uma série de questões de forma e conteúdo muito específicas, é algo que deve ultrapassar o campo teórico e entrar para uma análise de métodos, material documentado e de percepção do espectador, a fim de que haja validade na designação do termo. No mais, ainda segundo o autor, definir o que é um documentário é perder tempo. Ao aceitar determinado filme como pertencente ao gênero, cabe ao espectador crítico iniciar uma cadeia de pensamentos que vá além de depositários técnicos, niilismo pseudo-crítico ou reificação do material como produto da supra verdade. Como vemos, atrás de depoimentos, voz off, fotografias, filmes de época e inúmeros modelos de representação, inscreve-se uma vasta possibilidade de leituras e significados.

     O que mais me chamou a atenção neste livro foi a ampla filmografia citada e algumas particularidades de correntes e moldes que eu sequer havia ouvido falar. Foi com muito prazer que descobri um documentarista brasileiro chamado Arthur Omar, um vanguardista pouco conhecido que encabeça as raras produção não didático-expositivas dos documentários brasileiros “pré-Eduardo Coutinho”. O interessante é que o autor parte do gênero quando ainda era apenas indicação (as produções dos Lumière, por exemplo) e chega ao ponto onde ele se torna questionador de si mesmo. Valendo-se das palavras de John Grierson, Da-Rin nos coloca três situações documentais: a dos cineastas que vão com uma câmera-martelo para transformar a realidade; a dos cineastas que vão com um câmera-espelho para refletir a realidade; e a dos cineastas que vão com o martelo no espelho, e dos cacos, constroem dispersas, parciais e questionáveis interpretações do mundo.

A Matadeira - Jorge Furtado, 1994

     Espelho Partido é um livro de leitura fácil para cinéfilos, mas pode se tornar um enigma para aqueles que não conhecem pelo menos um pouco do Primeiro Cinema ou do próprio gênero em análise. Contudo, tanto na forma de escrita quando no caminho usado para dar conta do que se destina estudar, Silvio Da-Rin não dificulta em nada a compreensão dos conceitos do livro. O estudo do gênero que mais se sobressaiu nos últimos anos é uma leitura extremamente prazerosa, crítica e necessária. Ao término da obra, temos em mente mais perguntas do que respostas, somos impulsionados a pesquisar sobre os assuntos lidos, a ver e rever filmes já com um olhar mais aguçado. E aí o autor ganha mais uma batalha: a de estender o seu objeto de estudo para além das páginas do livro.


ESPELHO PARTIDO – Tradição e transformação do documentário.
DA-RIN, Silvio. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2006.

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