7 de ago de 2010

Édipo Arrasado



por Luiz Santiago


   Apenas os filhos que foram (e são) “monopolizados” pela mãe, mesmo depois de adultos, entendem o dilema de Sheldon Millstein, advogado de 50 anos que não consegue se ver livre das críticas e da influência de sua progenitora, no magnífico curta-metragem de Woody Allen, Édipo Arrasado, terceiro Episódio de Contos de Nova York (1989). O curta é quase uma via crucis de Millstein, que vê o pior de seus pesadelos se tornar uma surreal realidade.

   O filme começa com a câmera na diagonal, em plano médio, para a qual fala Sheldon Millstein (Woody Allen). Na verdade, a cena é uma sessão de análise, e logo em seguida, o analista é visto em contra-campo, pelo espectador. Sheldon Millstein não consegue esconder a frustração de sua mãe sempre conseguir deprimi-lo. Naquela mesma noite ele leva Lisa (Mia Farrow) para jantar na casa da mãe, e apresentá-la como sua noiva. A receptividade materna não poderia ser “melhor”:


SHELDON: Oi, mãe. Como vai?
MÃE: Meu Deus, você está horrível!


   E começa a tortura. A mãe (maravilhosamente interpretada por Mae Questel) mostra fotos antigas do filho, fala de coisas que mais o envergonhavam na infância e adolescência (como fazer xixi na cama e ser chamado de ruivo), diz que ele está magro demais, que está ficando completamente careca como o pai, etc. Dias depois, a família vai a um show de mágica. Por acaso, a mãe de Sheldon é escolhida para participar do número da Caixa Mágica. O problema é que, ao fim do truque, ela REALMENTE desaparece. A princípio em pânico, e depois, exultante, Sheldon passa a ter uma vida feliz e normal como sempre sonhou. Até que um dia, ao sair do supermercado e se espantar com todos os carros parados na rua, e as pessoas olhando para o céu, ele constata que sua mãe está conversando a seu respeito com toda a Cidade de Nova Iorque, ali, estampada em tamanho gigante no céu da cidade.



   Daí para frente o resultado é deliciosamente magnífico, ouro puro, e a cada minuto que passa, com as novas soluções buscadas por Sheldon (o ponto alto é a entrada de uma paranormal, insanamente interpretada por Julie Kavner) tudo se torna ainda mais engraçado. Ele e a paranormal tentam de tudo para tirar a mãe do céu: meditação budista, tarô, exorcismo, máscaras africanas, magia, rituais druidas, vodu; é impossível não ter cólicas de tanto rir. Outro excelente momento do filme é quando Shledon está em uma importantíssima conferência em seu escritório, e é comunicado pela secretária que sua mãe está lá para vê-lo. O tambor de Gene Kruppa em Sing sing sing, começa a tocar, enquanto duas velhinhas entram no corredor vazio. Sheldon fica pasmo. A clarineta de Benny Goodman inicia a melodia que acompanha a cena. As duas velhinhas se aproximam:

SHELDON: Mamãe?
MÃE: Diga “oi” para a tia Ceil.
SHELDON: Mãe, o que você está fazendo aqui?
MÃE: Acabamos de ver “Cats”!
SHELDON: Katz? O Sr. Katz?
MÃE: “Cats”. “Cats”, o show. Lembra que você me deu dois ingressos? [...] Então pensei em trazer a tia Ceil para ver seu escritório.
(para tia Ceil): Não é lindo?


   Só a imagem de duas velhinhas (uma delas, surda) saindo da matinê de Cats e indo a um importante escritório de advocacia, visitar um de seus associados, é demais.
   Tudo nesse curta é incrível. A direção e o roteiro de Woody Allen, a fotografia de Sven Nykvist (da equipe de Ingmar Bergman), os figurinos de Jeffrey Kurland, a edição de Susan Morse, a direção de arte de Santo Loquasto. Tudo isso amarrado de um modo fascinante, e composto em diversos ambientes que se integram à história principal como se fossem de fato parte dela. Édipo Arrasado é, sem dúvida, um dos melhores curtas da história do cinema.


ÉDIPO ARRASADO (Oedipus Wrecks, EUA, 1989).
Direção: Woody Allen
Elenco principal: Woody Allen, Mia Farrow, Julie Kavner, Mae Questel.




FILME ÓTIMO. É IMPERDÍVEL ASSISTI-LO!

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