5 de out de 2011

O Senegal rebelde de Ousmane Sembène: Emitaï



por Luiz Santiago


     Senegal é um país da costa atlântica africana que durante séculos, lutou contra a violência e a exploração europeias iniciada pelos portugueses no século XV, chegando ao seu fim apenas com a separação do país da Federação do Mali (criação territorial francesa que unia o antigo Sudão Francês – atual Mali – e Senegal) em 1960. Durante esse período, além de Portugal e França, o Senegal teve como colonizadores a Holanda e a Inglaterra. A exploração da mão de obra escrava, o alistamento forçado aos exércitos colonizadores, a pilhagem, o massacre de rebeldes e o etnocídio são apenas alguns dos males causados pelas nações europeias ao país africano.

     O cinema senegalês tem na pessoa do escritor e cineasta Ousmane Sebène a sua pedra angular. O realizador – que lutou na Segunda Guerra Mundial e teve lições de cinema com soviético Mark Donskoi – expunha de maneira crítica e nada eufemizada a situação do continente africano minimizadas nas questões políticas e sociais da pós-independência em seu país, e de certa forma, em todo o continente.


     Desde O Carroceiro (Borom Sarret, 1962), curta-metragem que é considerado o pontapé inicial para o cinema da África Subsaariana realizado por um diretor nativo, as produções senegalesa e africanas receberam a influência do realismo político de Sembène, realismo que se tornou um modelo continental, com resquícios de forma e conteúdo percebidos até hoje. 

     Em Emitaï (1971), Sembène trabalha com a questão do alistamento senegalês forçado pela França, transformando os nativos em inimigos de seu próprio povo, fazendo-os reprimir, prender e atirar em qualquer rebelde. O filme aborda o período de transição do governo de Pétain para De Gaulle e as políticas internas de imposições fiscais e colonização em Senegal. No filme, o Exército solicita aos cidadãos o pagamento de imposto per capta pela produção de arroz, ordem que é desobedecida pelas mulheres, que resolveram resistir, escondendo toda a colheita.

     A narrativa em tom de crônica nos apresenta o cotidiano da vila de Casamance, com o seu Conselho de Anciãos, o plantio e colheita do arroz, a resistência das mulheres, e o final que critica violentamente a repressão colonial aos africanos. O tom político aí usado não se diferencia muito do discurso cinematográfico utilizado por cineastas do Leste Europeu, a exemplo de Miklós Jancsó, também imbuído de questões políticas, em Os Sem Esperança. A diferença em Emitai, é que o filme está repleto de motivos cinematográficos tipicamente africanos, o que dá uma maior força antropológica e realista à obra.

     Mesmo trabalhando com questões políticas e sociais, Sembène não se esqueceu da religião ou da ligação de seu povo com a religião e os ancestrais. Em boa parte do cinema da África negra, a questão da ancestralidade tem seu lugar garantido. No documentário burquinense Memória Entre Duas Margens, essa questão se mostra vital para a história e para a identidade do povo de Burkina Faso, e assim também é para todo o continente, que ainda hoje, apesar de tudo, dá grande importância às tradições. O fantástico desse mundo ancestral se une ao político em Emitai, numa mistura tão deliciosa, porém menos idílica do que aquela trazida pelo moçambicano João Ribeiro em O Último Voo do Flamingo. A interferência dos deuses define toda uma apostura política. Até na forma, com coloração uniforme dos takes, o diretor conduziu a “sequência dos deuses” em um ponto à parte do “mundo real” ali vivido. Não há uma separação bem definida entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos; entre deuses e homens. Todos estão intimamente ligados, formam um corpo orgânico, embora, de certa forma, disperso.


     Emitai é um filme sociopolítico e antropológico que contém o gérmen da resistência africana, e questiona, acima de tudo, o poder como algo instituído e sustentado através do discurso persuasivo do medo. A predominância do silêncio em algumas cenas ajudam-nos a absorver melhor essa posição do diretor frente à obra. O que mais nos chama a atenção é a mudança na direção de arte do início do filme para o final, começando com uma compleição tribal, e culminando com um estado de guerra ou burocrático estabelecido. Emitai é um grande filme, e se não emplaca como uma das obras-primas de Ousmane Sembène, é por pouco, muito pouco, talvez apenas pelo mínimo subjetivo.


EMITAÏ (Senegal, 1971)
Direção: Ousmane Sembène
Elenco: Robert Fontaine, Mcihel Remaudeau, Pierre Blanchard, Andoujo Diahou, Ibou Camara.



FILME MUITO BOM. FORTEMENTE RECOMENDADO.

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