27 de mar de 2011

Simão do Deserto (1965)


por Luiz Santiago



A DESSANTIFICAÇÃO

[…]
Dos lábios flua o espírito, e a alegria o peito invada,
Na meia-noite já sem esperanças de repouso:
É como a hera em torno de uma torre já arruinada,
Verde por fora, e fresca, mas por baixo cinza onoso.

Byron


     Com Simão do Deserto (1965), Luis Buñuel finaliza o seu triplo ataque cáustico a tudo o que é demasiado. O filme é uma comédia cínica e desconcertante sobre o fanatismo, a idolatria e a suposta santidade de algumas pessoas e objetos.

     Ao contrário de Viridiana, Simão não é desvirtuado pelo pecado e pelos pecadores que o cerca. Por ser considerado um santo, Simão (Claudio Brook) é tentado por algo “mais forte”: o próprio diabo (Silvia Pinal).

     Simão Stilites é um evangelista penitente, ou um santo milagroso, que resolveu não mais pisar em terra firme, passando a viver no alto de uma coluna no meio do deserto. Para suas pregações, aparecem pessoas de todos os lugares.

     Embora não seja, ou não demonstre ser presunçoso, Simão tem consciência de que suas orações são milagrosas, e não se recusa a fazê-las. Do alto de sua coluna, essa espécie de João Batista sem o batismo, segue a mesma premissa da “voz que clama no deserto”, lida com a inveja de alguns de seus visitantes religiosos, e com as tentações do diabo, que chega a se disfarçar de Jesus Cristo para convencê-lo a descer de seu posto, e “mudar de vida”.

     A recusa de Simão em viver junto aos homens, sua privação de limento e água e o desapego a toda e qualquer pessoa, dão a ele um caráter divino, intensificado após os milagres que faz. O mundo ao seu redor, no entanto, rui em tentação e pecado. Um padre é possuído pelo diabo e tenta caluniá-lo. Um abade passa a ouvir a voz do diabo no deserto, assim como o anão que o acompanha. Tudo parece ser tomado por uma aura espiritual, e estar em constante disputa por espaço, e crentes.

     Entretanto, as constantes “tentações do maligno” quebram as defesas do santo Simão. Um avião sobrevoa o céu, e os leva – a Simão e ao Diabo – para um “Clube X”, onde a dança da “Carne Radioativa”, a “última dança”, deve ser suportada por ele até o final (dos tempos?). O preço de sua apostasia e desvirtude é ver jovens alucinados dançarem ao ritmo efusivo de uma música.



     Aqui, Buñuel brinca com o Apocalipse, e coloca toda a humanidade, tanto no deserto mexicano quanto no Brooklin, às portas da perdição, ou seja, do seu próprio desejo. Não se ouve o Hino dos Peregrinos ou os tambores de Calanda, como no começo do filme. Na desvirtude de Simão, que está sentado à mesa de um bar, bebendo e fumando, o que se ouve é o rock'n roll. Buñuel escarnece de todo e qualquer fanatismo, e mostra que por detrás de atitudes pias e penitentes, há um profundo desejo de perder-se.


CONCLUSÃO


     Do longa-metragem Viridiana ao média-metragem Simão do Deserto, temos a desconstrução das “posturas oficiais” das personagens. Luis Buñuel termina a sua carreira no México com três obras que dissecam o comportamento humano (social ou religioso) de seu fingimento, expondo o desejo que se esconde por trás de cada máscara, e é por isso que as personagens dessa trilogia terminam, de certa forma, envergonhadas: porque são obrigadas a mostrar-se para o espectador depois do processo que as levou a serem elas mesmas, e como já dizia Albert Camus: “o homem é a única criatura que se recusa a ser o que ele é”.


* Leia a primeira parte da Trilogia da Desvirtude.


SIMÃO DO DESERTO (Simón del Desierto, México, 1965)
Direção: Luis Buñuel
Elenco principal: Silvia Pinal, Claudio Brook, Hortensia Santanoveña, Luis Aceves Castañeda, Antonio Bravo, Francisco Reiguera.


FILME MUITO BOM. FORTEMENTE RECOMENDADO.

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