11 de ago de 2011

A Rosa Púrpura do Cairo


por Luiz Santiago


     Filmes metalinguísticos tem um poder especial sobre o espectador, principalmente sobre os cinéfilos. Observar o cinema “fazendo-se” como produto, é uma atividade de caráter voyeur, que deixa claro o nosso encanto pelo mundo do outro lado da tela e a curiosidade por sua “nudez técnica”. Dentre os cineastas estadunidenses que dedicaram filmes ao cinema, Woody Allen apresenta-se como o mais constante, trazendo não só homenagens à sétima arte (Dirigindo no Escuro), aos seus diretores favoritos (Sonhos Eróticos de Uma Noite de Verão, Simplesmente Alice), aos astros (Celebridades) e a gêneros e escolas cinematográficas como o Noir (O Escorpião de Jade), o Expressionismo Alemão (Neblina e Sombras) e o Documentário (Zelig).

     Se olharmos criticamente para as homenagens de Woody Allen ao cinema, constataremos que A Rosa Púrpura do Cairo (1985) é a obra mais notável, impessoal e sem esperança de sua safra metalinguística. Embora já tivesse apresentado o universo do cinema num enredo extraordinário (Memórias, 1980), filme também acrescido de doses de realismo fantástico, foi em A Rosa Púrpura que o diretor fez com perfeição uma película desse porte fora da comédia, seu gênero mais comum. Além disso, foi aqui que o cineasta conseguiu trazer esperança, encanto pelo cinema e docilidade, em um enredo que é essencialmente melancólico e de certo modo, trágico.

     A história é ambientada no período da Grande Depressão. Cecília, uma garçonete que vive um casamento fracassado, passa horas sonhando com os filmes que assiste e com o glamour dos astros do cinema. A contrastante realidade social e pessoal da protagonista em relação ao mundo mostrado nos filmes, serão as colunas centrais de A Rosa Púrpura, e o doloroso impasse de escolher entre a realidade e a ficção, acaba atingindo em cheio o espectador. Com essa premissa da escolha entre o maravilhoso impossível e a dura realidade, somos arrastados para um dos finais mais secos, e, paradoxalmente, emocionantes, dos filmes de Woody Allen nos anos 80. Cecília é a encarnação do indivíduo descontente que não tem forças para levar adiante uma mudança mais radical. O cinema aparece aí como uma vital, o lugar onde é possível se entregar ao sonho e acreditar que ele é (ou pode ser, em algum lugar) a realidade de alguém. Ao criticar o comodismo, Woody Allen também louva o poder de “terceirização de problemas” que o cinema tem, mas nos mostra o outro lado da moeda: a ficção não é tão perfeita como nos faz acreditar que é.


     Os conflitos egoicos e as dificuldades que pontuam as relações humanas e amorosas são características que se sobressaem no filme. O aventureiro que desce da tela e apaixona-se por Cecília é tão ou mais complexo do que o ator que lhe deu vida. Seria esse personagem um alter ego dos problemas do ator? Ou seria uma declaração aberta de Woody Allen, como criador de ambos os personagens, projetando-lhes suas emoções, medos e anseios, assim como nós, espectadores, saímos de uma sessão de cinema encantados ou enraivecidos com algo que vimos? Em um dado momento do filme, a comédia, o drama e a fantasia mesclam-se para dar conta dos muitos níveis de emoções e projeções que o cinema comporta.

     Mia Farrow e Jeff Daniels compensam em altíssimo nível o insatisfatório Danny Aiello, a personagem mais fraca do filme. No tocante ao casal protagonista, uma docilidade afetada (“cinematográfica”), muito bela, pontua a relação. Através da fotografia escura de Gordon Willis, o cenário desse romance passa por cores tão intensas ou desbotadas quanto é o desenrolar do amor entre eles. O plano médio que mostra pela primeira vez Tom e Cecília próximos um ao outro, é uma das composições fotográficas mais comentadas do filme. Quanto mais a burocracia da realidade se impõe, mas desgastado e claramente ridículo se torna o affair entre Cecília e Tom Baxter, o aventureiro fictício. No entanto, vemos que o mesmo romance fora das telas também não dá em nada. Se nem a ficção nem a realidade podem proporcionar a felicidade, cabe ao indivíduo buscá-la por si só, onde mais lhe apraz, e é justamente o que faz Cecília, quando vai assistir O Picolino, e parece esquecer de todos os seus infortúnios, mergulhando na magia da dança de Ginger Rogers e Fred Astaire, ao som de Cheek to Cheek.

     A direção de arte e os figurinos são dois dos melhores setores técnicos do filme, a primeira, por reconstruir com perfeição um bairro suburbano de Nova Iorque nos anos 20; a segunda, por conseguir diferenciar, sem parecer chocante, os dois mundos trabalhados no roteiro de Woody Allen. Com uma objetividade quase dolorosa, chegamos ao final do filme com um misto de emoções e um prazer inexplicável. “A Rosa Púrpura do Cairo”, uma antiga lenda, termina por transformar-se num filme-conto fantástico e impossível, onde a tentativa de fuga da realidade fracassa, mas o amor pela vida ou pelos raros momentos felizes que ela proporciona (mesmo que sejam através de uma película 35mm), compensam todo o sofrimento de se viver. No fim das contas, cinema e realidade compartilham dos mesmos pesares; a diferença é que no primeiro mundo, o fade out encerra todo tipo de esperança: o que não foi mudado, não mudará jamais; no segundo mundo, há sempre a oportunidade de recomeçar e alterar o rumo da história.


"A semana passada ninguém me amava e agora duas pessoas gostam de mim e são a mesma pessoa!"



A ROSA PÚRPURA DO CAIRO (The Purple Rose of Cairo, EUA, 1985)
Direção: Woody Allen
Elenco: Mia Farrow, Jeff Daniels, Danny Aiello, Irving Metzman, Stephanie Farrow, David Kieserman, Elaine Grollman, Victoria Zussin, Edward Herrmann, Diane Wiest.



FILME ÓTIMO. É IMPERDÍVEL ASSISTI-LO!


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