11 de jun de 2011

Os Sem Esperança (1966)


por Luiz Santiago


     Em seu 18 Brumário de Luís Bonaparte, Karl Marx acrescenta vigor à teoria hegeliana de que os fatos e personagens históricos de grande importância no mundo acontecem duas vezes: “a primeira como tragédia, a segunda como farsa”. Assim foi na Hungria, que sob domínio austríaco (à época do Império Austro-húngaro), conheceu momentos de intensas revoltas a favor da independência, seguidos de grande preocupação do Império com sua imagem e situação bélica após a Guerra Austro-prussiana de 1866. Uma onda de paranoia política, abuso de poder, delações e medo se apossou do país, e é durante esse período que foi ambientado Os Sem Esperança (1966), brilhante filme de Miklós Jancsó.

     Com fortes indicações críticas à recente história de seu país, Jancsó realiza uma obra que observa o dia a dia dos acusados de sublevação ao governo, todos reunidos em uma longínqua base do Exército. Através dos inescrupulosos meios de interrogação, os soldados governistas encarnam simbolicamente a horda soviética que invadiu a Hungria em 1956 e capturou e executou o popular Imre Nagy (que propunha inclusive a retirada da Hungria do Pacto de Varsóvia) e colocou no poder o pró-soviético Janós Kádár, que representou o recrudescimento do regime, governando o país de 1956 a 1988. Em Os Sem Esperança, Jancsó traz um fato do século XIX para a realidade de seu país em plena Guerra Fria.


     Dois momentos cênicos são usados para dar conta do filme inteiro. A “primeira parte” é quase unicamente realizada em internas ou dentro da própria base, um recurso que tem o duplo objetivo de criar a atmosfera fílmica necessária, como também indicar a prisão ideológica ou de ação do indivíduo, minando assim as suas esperanças de lutar. Os grandes planos gerais de duração média imperam durante essa parte, e as delações alcançam o seu ápice. Em dado momento, partidários revoltosos passam a assumir identidades alheias ou a autoria de crimes para poderem livrar-se do futuro trágico. Uma das cenas mais chocantes é da do suicídio coletivo, quando um grupo de homens jogam-se de cima de um prédio ao verem uma mulher ser chicoteada por um grupo de soldados. A “segunda parte” traz a câmera para fora do perímetro da base, e os grandes e longos planos gerais aliam-se à música, dois elementos primorosamente trabalhados pelo diretor durante toda a sua filmografia.

     As questões políticas entram no campo da ideologia, da moral e da ética, gerando no especador uma sensação de tensão, que explode na cena final com grande impacto. As armas e a traição são o cerne de toda a obra. O poder é conseguido através da força e da coação e por elas mantido e defendido. A traição é o elemento final, quando os rebeldes caem na armadilha preparada pelo próprio governo e arquitetada pelo seu antigo líder e herói. Tanto o descrédito político quanto o questionamento do sofrimento pessoal em prol de uma causa nacional entram em pauta e a resposta vem com o desfecho do filme, absolutamente lancinante.


     A dispensa do herói individual e a arbitrariedade das forças governistas nos indicam a visão do diretor para os fatos. De nada adianta a intensa luta e renúncia pessoal, se a causa consome-se a si mesma. A fraqueza dos motivos em que se acreditar é o sintoma que acompanharia a doença das ideologias de direita, imperantes no mundo ocidental pouco mais de uma década após o lançamento do filme. Através da história de seu país, Jancsó observa uma atitude particular e de cunho político, levando suas causas e consequências para o cinema, de forma a fazer o espectador assumir algum papel ativo e lutar contra o poder exercido pela violência. Eis o verdadeiro cinema. O cinema que desprende a passividade gerada pela imagem e convida o espectador a pensar. Os Sem Esperança é um filme sobre as decepções políticas e ideológicas, mas é paradoxalmente um filme sobre a esperança, a esperança de que em algum lugar, os que restaram, possam fazer alguma coisa pelo que restou. Quem e quaisquer que sejam essas duas coisas.


OS SEM ESPERANÇA (Szegénylegények , Hungria, 1966).
Direção: Miklós Jancsó
Elenco: János Görbe, Zoltán Latinovits, Tibor Molnár, Gábor Agárdi, András Kozák, Béla Barsi, József Madaras, János Koltai, István Avar, Lajos Öze.


FILME ÓTIMO. É IMPERDÍVEL ASSISTI-LO!

Twitter Delicious Digg Stumbleupon Favorites More

 
Powered by Blogger