28 de set de 2010

Filmes de terror: existe o mal?

Poltergeist, 1982





por Nelson Lopes Rodrigues

     Desde que o homem desceu das árvores, ele vive uma luta entre sua razão e seus instintos de sobrevivência. Nesta época, o medo ficava por conta das atividades da natureza, como os raios, vulcões e feras.

     Na antiguidade, o mal era visto como uma sombra maléfica que atrapalhava o caminho do homem em seu retorno ao absoluto, e as religiões de hoje ainda garantem a permanência desse medo. Na modernidade, o mal é disfarçado em várias formas [...].

     Mas também há o mal dentro homem lutando contra uma "essência" boa, como os assassinos em série, os terroristas, os pedófilos, os traficantes de drogas, os traficantes de gente, de órgãos, de armas e etc. O cinema como arte humana também seguiu o homem nesta história do mal. Tivemos o mal sobrenatural imaginado em excelentes filmes como: O ExorcistaPoltergeistA mansãoDráculaO AvisoO Iluminado e O Anticristo de Lars Von Trier. Temos o mal personificado também na alma do homem como nos filmes: HannibalPsicosePânico. Na filosofia também houve essa preocupação com o mal, em desvendar este mistério.

Hannibal, 2001

     Kant traz essa preocupação para a presença do homem enquanto ser civilizado, mas que deve ser moralizado. No capitulo intitulado A Religião nos limites da simples Razão e ideia de uma história universal com um propósito cosmopolita ele expõe sua preocupação para com o homem: A educação é o maior e mais árduo problema que pode ser proposto aos homens. Na introdução, a primeira sentença anuncia: “O homem é a única criatura que precisa ser educada” (2002, p. 11). Ainda na introdução, Kant enfatiza: “Tornar-se melhor, educar-se e, se se é mau, produzir em si a moralidade: eis o dever do homem” (2002, p. 19-20).

     Para Kant, o mal é algo inerente ao homem, cabendo a ele se moralizar e seguir o imperativo categórico como um instrumento da Razão que guia as ações humanas para o bem.
     Já o filósofo Hume está preocupado com o mal das superstições e crenças que atrapalham o homem. Para tanto, o filósofo faz uma crítica à religião. Esta crítica se encontra em sua maior parte, nos capítulos X e XI do seu livro Uma Investigação acerca do Entendimento Humana de 1748 e em um de seus livros mais famosos, Diálogos acerca da Religião Natural (publicado somente em 1779, após sua morte) [...]. O problema do mal, como ele é colocado no capítulo X dos Diálogos, se apresenta de forma sistematizada da seguinte maneira:

(1) Deus é um ser onipotente, onisciente infinitamente bom;

(2) Um ser onipotente e onisciente pode eliminar todo mal e sofrimento do mundo, e sabe como fazê-lo;

(3) Um ser infinitamente bom deseja eliminar todo o mal e sofrimento do mundo;

(4) Se Deus existe, não há mal e sofrimento no mundo;

(5) No mundo há mal e sofrimento;

(6) Consequentemente Deus não existe.


O Anticristo, 2008

     Do ponto de vista da forma, não resta dúvida de que este argumento parece impecável. Falta saber se suas premissas são verdadeiras. A primeira nada mais é do que parte da definição tradicional do Deus do cristianismo. A segunda premissa é aceita pela maioria dos teólogos. A quinta é indiscutível. A quarta segue das três primeiras. A mais vulnerável das premissas é, portanto, a terceira. Se esta for rejeitada, a quarta premissa também terá que sê-lo, e o argumento inteiro cai por terra. Para sair deste silogismo lógico os religiosos argumentam que males e sofrimentos frequentemente resultam em bens de alto valor, que deixariam de existir se não houvessem estes males e sofrimentos. Em um mundo sem dor não haveria compaixão, caridade, solidariedade. Em um mundo em que ninguém jamais encontrasse dificuldades não haveria coragem, heroísmo, etc.


Psicose, 1960

     Para Nietzsche o mal é colocado para a questão da moral escrava e da moral do nobre. Para o filósofo, “bem” e “mal” são interpretações dos valores da classe dominante.

     Estaremos sempre nos perguntando e temendo as várias faces do mal. Sendo o mal inerente ao homem como em Kant, ou algo social e psicológico como em Hume ou Nietzsche, o que importa é que sempre estaremos interpretando essas facetas. E o cinema também sempre estará seguindo estas tendências. Sejam monstros, forças sobrenaturais ou psicopatas, o cinema será sempre o espelho desta história humana.


Artigo originalmente publicado no Filocinética.

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