23 de dez de 2010

Dom Quixote de Orson Welles


por Nelson Lopes Rodrigues


     Dom Quixote é sem dúvida uma grande obra da literatura universal, ainda mais quando esta obra se desloca para o âmbito cinematográfico. A versão que analisei aqui foi realizada pelas mãos hábeis de Orson Welles, que conseguiu fazer uma bela leitura da obra. Apaixonado pela Espanha, Orson Welles dedicou 14 anos de sua vida a Dom Quixote, uma obra inigualável, a que o enorme gênio do cinema não poderia ficar indiferente. O filme mostra os espanhóis e seus costumes, destacando as largadas e corridas de touros que tanto fascinavam Welles, sem deixar de lado tradições populares como as festas dos Mouros e dos Cristãos, ou as procissões religiosas do catolicismo espanhol. As excepcionais interpretações de Reiguera e Tamiroff, tal como a aparição de Welles em algumas cenas, fazem com que este seja um filme absolutamente imprescindível. Em algumas cenas, podemos ver um Dom Quixote em uma semelhança com Sócrates, o que não pode ser considerado uma coincidência pois temos como diretor uma pessoa detalhista e perspicaz como era Orson Welles.


     Vários foram os filósofos que se debruçaram sobre a obra prima de Cervantes, Karl Marx, Hegel, Schelling e Schopenhauer foram alguns que analisaram a obra. Dom Quixote, um pequeno fidalgo castelhano que perdeu a “razão” por muita leitura de romances de cavalaria e pretende imitar os feitos de antigos cavaleiros em companhia de Sancho Pança, seu fiel amigo e companheiro, que tem uma visão mais realista e que tenta dissuadi-lo de suas aventuras e lutas imaginárias. A ação gira em torno das três incursões da dupla por terras de La Mancha, de Aragão e de Catalunha. Nessas incursões, eles se envolvem em uma série de aventuras, mas suas fantasias são sempre desmentidas pela dura realidade.

     Para Schelling, a história de Dom Quixote simboliza um embate entre o idealismo e a realidade, para Schopenhauer se trata de uma alegoria da vida. Podemos perceber que Dom Quixote e Sancho Pança representam valores distintos (idealismo versus realidade), embora sejam participantes do mesmo mundo.


     Para Hegel, o personagem possui uma índole nobre, deslocada e isolada, convicta, e que não chega a consciência infeliz (Unglückliches Bewusstsein), mas que se choca constantemente com o mundo real e ordenado. É importante compreender a visão irônica que Cervantes tem do mundo moderno, o fundo de alegria que está por detrás da visão melancólica e a busca do absoluto. São mundos completamente diferentes. Sancho Pança, o fiel escudeiro de Dom Quixote, é definido por Cervantes como "Homem de bem, mas de pouco sal na moleirinha". É o representante do bom senso e do realismo, é o representante do mundo real, assim como Dom Quixote é para o mundo ideal, não podemos esquecer a antológica cena onde o herói vê no moinho o seu "monstro", como se a realidade fosse uma dura a fria realidade, um monstro, para uma alma pura e idealista. Quixote é aquele que combate a frieza da realidade e busca pela beleza e pelo sublime de uma vida espetacular e fantasiosa. Por fim, a história também é apresentada sob a forma de novela realista: ao regressar a seu povoado, Dom Quixote percebe que não é um herói, e que não há heróis, é um mundo duro e cruel. Porém, talvez ser herói não seja sair da realidade, mas garantir os mesmos ideais neste mundo, a saber, de honra, justiça e amizade. Portanto, é um retorno do homem valoroso e idealista para seu mundo trágico.


Artigo originalmente publicado no Filocinética.


Referências:
Cervantes. Miguel de. Novelas exemplares. Tradução de Darly Nicolana Scornnaienchi. São Paulo. Editora Boa Leitura. 1971.
Saavedra, Miguel de Cervantes. El ingenioso Hidalgo Don Quijote de la ManchaCapítulo primero. Que trata de la condición y ejercicio del famoso hidalgo. (PDF).
"La lengua de Cervantes" (PDF) . Ministerio de la Presidencia de España.


DOM QUIXOTE DE ORSON WELLES (Don Quijote de Orson Welles, Espanha, Itália, EUA, 1992).
Direção: Orson Welles
Elenco: Francisco Reiguera, Akim Tamiroff, Orson Welles, José Mediavilla, Juan Carlos Ordóñez, Constantino Romero, Fernando Rey, Paola Mori, Beatrice Welles, Oja Kodar.

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