19 de jan de 2011

Livros teóricos sobre cinema



por Luiz Santiago


O MUNDO COMO CHANCHADA
DIAS, Rosângela de Oliveira. São Paulo: Editora Relume Dumará, 1993.

     As Chanchadas da década de 1950 tornaram-se as grandes representantes de um produto brasileiro. O “gênero” é uma mistura do hollywoodiano com todas as tendências possíveis, mas o resultado desses filmes carnavalescos sinalizam de fato um produto nosso. Nesse livro esclarecedor, temos uma análise social e cultural das Chanchadas. O imaginário popular é visitado pela autora, e o Brasil entra na análise como um país que passava por tremendas mudanças políticas e financeiras, influenciando assim esses filmes que mostravam o outro lado do desenvolvimento. A década de ouro das chanchadas compreende os governos de Vargas (1951 - 1954) e JK (1956 - 1960), e a partir daí, podemos justificar todas as questões pertencentes a essas produções nacionais. Confesso que nos primeiros anos de minha cinefilia, eu tinha um grande preconceito em relação às Chanchadas. Com o tempo, vendo e revendo os filmes desse “gênero”, pude perceber uma polida crítica social, e embora esse não fosse o foco dos diretores, é impossível separar o momento histórico das alfinetadas em meio às trapalhades de Oscarito e Grande Otelo. O livro não pretende salvar as Chanchadas, nem reificá-las. A proposta da autora é trazer ao leitor informações e dados históricos, estatísticos e ideológicos que permitam-no ver essas obras com um outro olhar.  


A TELA GLOBAL: MÍDIAS CULTURAIS E CINEMA NA ERA HIPERMODERNA
LIPOVETSKY, Gilles; SERROY, Jean. São Paulo: Sulina, 2007.

     O melhor livro sobre o “comportamento do cinema contemporâneo” que eu já li. Os autores discorrem sobre o impacto e as diversas diversificações que o cinema tem passado nos últimos vinte anos, tanto em sua técnica quanto em seu formato – especialmente o de reprodução. E aí chegamos no estudo das várias telas, a coluna desse estudo. Entendemos que a proliferação de mídias reprodutoras de imagem-movimento, bem como a facilidade de filmar a publicar na rede, desestruturou e ao mesmo tempo reestruturou o cinema. Junto a outras tecnologias e seu impacto ideológico sobre diversos povos, o cinema contemporâneo apresenta-se como um guia social muito mais do que já fora. O documentário tem ganhado espaço. A experimentação não é mais tão mal vista. Um novo ar se ensaia para o cinema. E Lipovetsky e Serroy discorrem sobre essas mudanças na Sétima Arte, analisando o impacto nos cinéfilos e como a nova sociedade midiática se ergue. Imperdível. Obrigatório. Obra-prima! 


CINEMA BRASILEIRO HOJE
BUTCHER, Pedro. São Paulo: Publifolha, 2005.

     Esse livro nos dá uma excelente visão do cinema brasileiro que se desenvolveu após os anos 1980. O foco do autor é o Cinema de Retomada – inclusive com uma breve discussão teórica a respeito dessa nomenclatura – e uma pontualíssima abordagem de boa parte dos filmes produzidos após os anos 1990. Com uma narrativa didática e muito informativa, somos apresentados aos motivos históricos e mercadológicos que impulsionaram o nosso cinema para o estrondoso desempenho que vem tendo nos últimos anos. Para quem quer conhecer ou gosta do cinema nacional, eis uma ótima pedida.



O CINEMA SEGUNDO BERGMAN
BJÖRKMAN, Stig; MANNS, Torsten; SIMA, Jonas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.

     O livro é na verdade uma longa série de entrevistas cedidas por Ingmar Bergman à tríade de críticos citada acima. Os filmes abordados vão de Crise (o primeiro filme de Bergman) a Gritos e Sussurros. Além de valiosas informações sobre o conteúdo de cada filme dentro desse período, Bergman relata passagens de sua vida pessoal e como elas influenciaram a sua obra. O diretor também fala de grandes mestres como Hitchcock e Orson Welles. Aqui, à semelhança do livro de Eric Lax sobre Woody Allen, essa obra nos apresenta um paralelo da arte produzida com sua vida, além de esclarecer a escolha por certas posturas técnicas e dificuldades durante a carreira. Esse livro me permitiu entender e admirar ainda mais este cineasta que está entre os meus preferidos.


FOLHA CONTA 100 ANOS DE CINEMA
LABAKI, Amir (org.). Rio de Janeiro: Imago Editora, 1995.

     Uma organização de críticas sobre os filmes mais significativos da História do Cinema, segundo Amir Labaki. E que seleção! A lista conta com NapoleãoCidadão KaneAcossadoLaranja MecânicaMorte em VenezaBerlin Alexanderplatz e Pulp Fiction – isso só para citar alguns. Como as críticas não são muito grandes, é possível ler o livro em um dia, e certamente aprender um pouco sobre clássicos absolutos da História da Sétima Arte. Dessa organização, o texto de minha preferência é sobre O Circo, do Chaplin, uma crítica escrita por Inácio Araújo.


O QUE É CINEMA
BERNARDET, Jean Claude. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985.

     Decifrar o que é o cinema parece brincadeira de criança. Mas não é. O que e cinema? A pergunta seguida por Bernardet, vira ironia, e às vezes cinismo. O crítico consegue lincar diversos elementos da sua visão precisa da indústria e da arte com o didatismo necessário para essa obra básica e essencial aos cinéfilos e aos que querem entender como se faz e sob que colunas se ergue essa Sétima Arte. Mais uma pérola da estupenda coleção Primeiros Passos.


O SÉCULO DO CINEMA
ROCHA, Glauber. São Paulo: Cosac Naify, 2006.

     Em relação ao CONTEÚDO POLÍTICO, eu gosto mais do Glauber Rocha crítico do que do cineasta. Talvez essa frase pareça polêmica demais, mas ao ler O Século do Cinema, muitas pessoas irão me entender. É simplesmente incrível a erudição e o modo corrido como Rocha escreve suas críticas. Esse livro aborda a história do cinema estrangeiro de Griffith a Pasolini (o cinema brasileiro mereceu um outro volume de críticas chamado Revisão Crítica do Cinema Brasileiro), e não se prende nem à forma nem ao conteúdo. E aí vemos que Glauber Rocha REALMENTE entendia o que era cinema. Talvez isso seja menos visível em seus filmes, cuja maioria padece de alguma coisa, sempre uma falta. E que fique bem claro: não sou inimigo cinematográfico do diretor. Ao contrário, admiro muito de sua obra, e gosto mais de Terra em Transe que Deus e o Diabo. Mas nesse livro, estamos diante de um crítico que sabe o que é estar atrás da câmera. E essa visão privilegiada é simplesmente deliciosa de ler. Além disso, temos algumas publicações que são verdadeiros relatos históricos, como o encontro do diretor baiano com os mestres Luís Buñuel, Fritz Lang, Roberto Rossellini e Jean Renoir. E além disso, relatos pessoais não tanto cinematográficos (porém muito interessantes) fecham o conteúdo do livro. Certamente um dos melhores e mais fortes livros de crítica cinematográfica que eu já li – embora não partilhe de muitas opiniões do diretor, sua firme argumentação e conteúdo que lhe permita dizer o que diz, faz o leitor oponente ao menos pensar no que está proposto. Na minha opinião, leitura obrigatória.  



CINEMA
BERGAN, Ronald. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007.

     Eu tenho uma relação de amor e ódio com esse Guia Ilustrado da Zahar. Algumas informações estão ali no limite do impossível, resultado de uma tradução estranha e de uma concepção comercialíssima de cinema. No entanto, o Guia é um ótimo instrumento de consulta rápida e informações. Quando comprei o primeiro exemplar desse livro eu ainda estava na faculdade, e lembro do quanto me ajudou, inclusive no fornecimento de dados para pesquisa – até porque o leitor não vai encontrar nenhuma análise profunda aqui. Mas por se tratar de um Guia, o que essa obra apresenta dá conta do que promete. As edições atualizadas não mudam lá muita coisa da “edição velha”, o que me fez optar pela minha velhinha e rabiscada mesmo. O leitor mais informado vai achar estranho a data de alguns filmes, mas para determinadas partes do livro, o autor usou o ano de lançamento oficial do filme, e para outras, o ano de filmagem. Fora esses desencontros cronológicos, penso que a leitura e mesmo a consulta desse material pode ser muito válida. Hoje nem tanto, mas ele já me ajudou muito.


WOODY ALLEN
BARBOSA, Neusa. São Paulo: Editora Papagaio, 2002.

     Esse livro faz parte de uma série chamada Gente de Cinema. Para quem não lê em inglês (idioma no qual se encontram as biografias de Allen), esse livro fornecerá um apanhado muito preciso da vida do cineasta. Trata-se de uma visão global sobre a vida e carreira de Woody Allen, baseado em uma grande pesquisa feita pela autora. O diferencial do livro é a abordagem da relação do diretor com o Brasil, explorada do meio para o final da obra. Desde participações de atores brasileiros nos filmes de Allen até entrevista com o próprio diretor, temos neste volume um registro válido e inédito no Brasil. No final do livro, indicações da filmografia de Allen (filmes que fez e nos quais participou), livros dele e livros sobre ele, enfim, um apanhado amplo sobre o cineasta. Leitura leve, bem humorada e visivelmente apaixonada. Certamente destinado a fãs de Woody Allen e estudiosos de seu cinema. 



O PRIMEIRO CINEMA – Espetáculo, Narração, Domesticação
COSTA, Flávia Cesarino. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2005.

     Dentre os períodos do cinema, o início é o que mais me fascina. Sempre achei curioso a genialidade de realizadores como Méliès, Porter, Gance, Dullac. Truques, estaticidade da câmera, mutações narrativas. A própria criação, invenção de uma nova arte é algo realmente instigante. E Flávia Cesarino Costa, com muita competência, faz um apanhado extremamente minucioso desse período. Não limitando-se apenas à análise de filmes da época, a obra nos apresenta uma história pormenorizada da estruturação ideológica do cinema, das Feiras Universais para os galpões, depois para os Nickelodeons e então para os Palácios de Filmes. Além disso, a escritora nos disponibiliza diversas visões clássicas da crítica cinematográfica em relação a esse período. Com uma erudição muito grande e uma lista preciosa de filmes bem como indicações e informações preciosas, O Primeiro Cinema, além de nos mostrar a adaptação de uma nova arte, evoca uma pergunta que pouca gente sabe – alguém saberá, ao certo? - responder: o que é cinema? 


COMO USAR O CINEMA NA SALA DE AULA
NAPOLITANO, Marcos. São Paulo: Contexto, 2008.

     Escrito pelo historiador historiador Marcos Napolitano, esse é um dos livros mais interessantes para professores cinéfilos. Confesso que após sua leitura, me arrependo de tê-lo subestimado. O livro não tem pretensões épicas, como trabalhar detalhadamente a história do cinema, ou artísticas, como mapear todas as escolas cinematográficas e os principais auteurs do cinema, mas consegue, de modo simples e sem muita complicação narrativa, dar ao professor uma ótima direção de como ele deve usar filmes e de como empreender trabalhos com os alunos através desse recurso.

     O livro faz uma abordagem didática, do Ensino Infantil até o Ensino Médio, e toca em pontos específicos de como os alunos de cada faixa etária reagem a determinados tipos de filme. Além disso, sugestões de atividades, sinopses comentadas de centenas de filmes para todas as disciplinas (inclusive Educação Física e Informática) e muitas atividades para serem aplicadas no esquema de valorização da interdisciplinaridade. Mesmo para o professor mais treinado no campo cinematográfico, ou mesmo para um professor que já tenha um conhecimento crítico de cinema, a leitura do livro é muitíssimo importante, pois ajuda a dissecar com mais propriedade os elementos fílmicos para serem usados em sala de aula.

     Além das sugestões de atividades, o livro traz alguns anexos com reportagens especiais, listas e questões para o professor preparar a aula e questões simples para a constatação da cultura cinematográfica dos alunos. Apesar de não citar alguns filmes que eu particularmente acho essenciais para o trabalho em sala de aula, Marcos Napolitano dá conta da tarefa a que se dedicou, e faz isso de modo simples e muito rico (para aqueles que entram em contato com a história do cinema pela primeira vez). Vale a pena ler.


A LINGUAGEM CINEMATOGRÁFICA
MARTIN, Marcel. São Paulo: Editora Brsiliense, 2007.

A Linguagem Cinematográfica foi o primeiro livro sobre cinema que eu li, e devo muita coisa a ele. É raro encontrar uma obra que se destina a avaliar o cinema como elemento que fala por si, com seus símbolos, significados, modos e motivos de avaliação de um filme, elementos próprios, inerentes e abarcados pelo cinema. Neste livro, o leitor percorrerá a Sétima Arte dos irmãos Lumiére até meados dos anos 1950 – o que é uma pena, porque não temos analisadas as conquistas e perdas do cinema a partir de então. A edição que eu possuo tem um Prefácio escrito pelo autor em 1985, mas o livro não recebeu nenhuma atualização. Entretanto, a leitura desse clássico estudo de linguagem nos permite mudar o olhar para o cinema. Técnica e conteúdo são abordados e somos presenteados com capítulos quase didáticos, com uma atenção especial à montagem e todos os seus elementos próximos. Leitura obrigatória para curiosos e cinéfilos experientes. A Linguagem Cinematográfica é simplesmente delicioso.


O NEO-REALISMO CINEMATOGRÁFICO ITALIANO
FABRIS, Mariarosaria. São Paulo: Edusp, 1996.

     Para um movimento tão intimamente ligado à história da Itália, um livro que tratasse o Neorrealismo como um fator histórico não poderia ser mais pertinente. A professora Mariarosaria Fabris faz uma competente análise da história recente da Itália, seu envolvimento na Segunda Guerra Mundial e os fatores que permitiram o surgimento da corrente Neorrealista no país. Mas a autora não pula etapas. Somos apresentados aos filmes do telefone branco, aos dramas vazios do fascismo, e chegamos ao rompimento definitivo em 1945, com Roma, Cidade Aberta. A história dessa corrente cinematográfica é contada desde a sua gênese, com os primeiros filmes, os primeiros roteiristas e cineastas que se propuseram a olhar de um modo diferente a situação do país. De Visconti a De Sica, temos um apanhado cultural e histórico das realizações fílmicas italianas, e mesmo a geração seguinte é abordada em suas primeiras obras. Características do gênero também são apresentadas e trabalhadas com diversos exemplos, além das fotografias. O que me incomodou um pouco foram as intermináveis notas de rodapé usadas pela autora, muitas vezes com informações e observações já trabalhadas de um outro modo no corpo do texto. Mesmo assim, o livro é um aprendizado único, e certamente quem o ler, jamais verá os filmes italianos de 1945 a 1953, do mesmo modo. 



CONVERSAS COM WOODY ALLEN
LAX, Eric. São Paulo: Cosac Naify, 2008.

     Biógrafo de Woody Allen, Eric Lax já escreveu valiosas obras a respeito da produção artística do diretor novaiorquino. Seu livro mais recente foi publicado no Brasil em 2008, e é o resultado de entrevistas cedidas por Allen ao jornalista desde 1971. O livro é dividido em oito partes: A Ideia; Escrever; Casting, Atores, Atuação; Filmagens, Sets, Locações; Direção; Montagem; Trilha Sonora; A Carreira.

     Em cada uma dessas divisões, são abordados todos os longas-metragens feitos por Woody Allen durante sua carreira. Ao ler o livro (que já vai na 3ª Edição), entendemos os motivos pessoais e artísticos que motivaram o diretor a realizar determinado filme ou escrever determinado roteiro. Percebemos que antes de mais nada, Woody Allen é o seu maior crítico, um rígido observador de sua obra. Além das longas entrevistas, somos apresentados aos filmes de forma dinâmica e informações valiosíssimas nos são dadas através dos comentários do autor. Para quem não assistiu a todos os filmes do cineasta, há uma sinopse detalhada dos filmes trabalhados naquele ponto da entrevista, com relação dos atores principais e resumo crítico da trama. O livro ainda acompanha as concepções de Woody Allen sobre outros diretores e filmes, listas de filme que o diretor fez a pedido de Lax, depoimentos sobre as relações de Allen com seus atores, fotógrafos e toda equipe, e abordagens sobre o caso Soon Yi, resultado da polêmica separação de Allen e Mia Farrow em 1992. Além de muito divertido e rico em informações, o livro vale o preço e a leitura. Indico efusivamente.

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