5 de jul de 2011

Especial Harry Potter: Os livros



por Luiz Santiago e Pedro Veblen


     Harry Potter e a Pedra Filosofal foi lançado pela editora Bloomsbury (UK) em junho de 1997, e em menos de um ano alcançou fama mundial. Vale lembrar que à época, estávamos ainda em um processo de adequação da comunicação globalizada, de modo de um best seller britânico tornar-se uma febre planetária em menos de um ano de lançamento foi algo realmente novo para a época – se considerarmos ainda que se tratava de uma história de magia e fantasia, escrita por uma desconhecida professora.

     Diferente da maior parte das produções literárias para jovens e adolescentes, a saga Harry Potter tem o mérito de ser bem escrita. Os eventos que se espalham por cada um dos sete livros ligam-se num momento ou outro da narrativa, apresentam-se em diferentes intensidades de emoção, drama, comédia, mixam narrativas em primeira e terceira pessoa, trabalham o sonho, a realidade, e conforme a série avança em volumes, apresenta forte ligação do mundo mágico com o mundo dos trouxas.


     A Pedra Filosofal já começa com um dia muito especial para o mundo dos bruxos, o dia em que o garoto Harry Potter sobrevive ao ataque de Voldemort. Somos apresentados a alguns elementos bruxos, mas rapidamente a narrativa muda para o cotidiano do garoto na Rua dos Alfeneiros, e apenas quando Hogwarts começa a enviar-lhe as cartas-convite para que compareça à Escola é que temos de novo os eventos mágicos sendo narrados. Pela novidade e pelo ótimo enredo que envolve principalmente a chegada do trio de amigos Harry, Rony e Hermione ao salão da Pedra Filosofal (sequência massacrada na adaptação para o cinema), o livro é um deleite mágico. O final, sem aquele “vazio de continuísmo”, nos dá a entender que mais aventuras estão por vir, mas não abandona incompleta aquilo que se dispôs narrar.

     A Câmara secreta já tem o “sabor de ameaça” que alcança o seu ápice em A Ordem da Fênix, quando, enfim, o Ministério da Magia reconhece a volta de Voldemort. Além de uma nova personagem, Gina Weasley, que terá enorme importância no decorrer da saga, a ida de Harry e Rony para Hogwarts se dá da maneira mais inovadora e onde o carro enfeitiçado vai cair é outro lugar cheio de surpresas e tensão para o leitor. Pela primeira vez somos apresentados à Toca (a casa da família Weasley) e ao elfo doméstico Dobby, uma criatura que trará uma grande carga de emoção em diversos momentos dos livros seguintes. Do Salgueiro Lutador à aranha Aragogue, temos pela primeira vez revelações de corrupção e do mau que cerca um determinado tipo de bruxos. Mais uma vez a ação maior é reservada para o final, onde os acontecimentos da câmara secreta não deixam dúvidas do fortalecimento do ex-aluno do castelo, Tom Riddle, o temido Voldemort.

     O Prisioneiro de Azkaban é o primeiro livro realmente macabro da série. Toda a história se apresenta numa aura de medo, as aulas em Hogwarts (especialmente para Harry, perseguido pelas profecias da professora Sibila Trelawney) são tão “defensivas” quanto em A Ordem da Fênix. Os dementadores e a revelação da Prisão de Azkaban mostram que o mundo dos bruxos pode ser tão complicado e criminoso quanto o dos trouxas. Aqui, as viagens de Hermione através do tempo dão uma linha mais misteriosa ao enredo, que alcança, no salvamento do Hipogrifo, o seu ponto máximo. Também é um dos poucos momentos da saga em que Harry encontra alguém da família, o parinho Sirius Black. Antes desse momento, apenas na adoção emotiva dos Weasley, o protagonista dos livros tinha encontrado algo parecido com uma família.

     O Cálice de Fogo, em nossa opinião, esse é o melhor de todos os livros, um espetáculo à parte. O início cheio de inovações, narração de lugares, e a fenomenal Copa do Mundo de Quadribol já valeriam o livro inteiro, mas o desafio do Cálice de Fogo traz uma outra dimensão ao mundo dos bruxos. Os portais, a aparição decisiva e corporal de Voldemort, a primeira morte importante, os diversos desafios pelos quais os escolhidos devem passar, os dragões – especialmente os dragões – e a deixa para o livro seguinte são simplesmente maravilhosas. Podemos dizer que o verdadeiro “começo” (título do último capítulo, por sinal) da força das trevas acontece ao fim dessa livro. Absolutamente maravilhoso.

     A Ordem da Fênix é o livro mais antipático de todos, pelo menos até o meio da história. A adolescência de Harry torna-o temperamental e explosivo com os amigos, fazendo com que se torne, por alguns momentos, pouco querido dos leitores. O Ministério da Magia se descortina para o leitor, e pela primeira vez temos uma noção clara de toda a burocracia que envolve esse mundo mágico. O surgimento da odiosa professora Umbridge é o único ponto da série de livros que Severo Snape parece bonzinho. Um livro longo, com uma história densa, cheia de reviravoltas e ligações com episódios anteriores, uma verdadeira passagem por muitos lugares – como se estivesse antecipando o quase inerte O Enigma do Príncipe e a interminável primeira parte de As Relíquias da Morte.

      O Enigma do Príncipe retorna com a burocracia do mundo dos bruxos, agora interligando-a com a do mundo dos trouxas. É um livro que se pode chamar de “teórico”, pelo caráter informativo, cheio de coisas que se tornariam muito importantes para entender o fim da história, no livro seguinte. As horcruxes aparecem pela primeira vez, e a longa busca por elas só não deixam o livro ruim porque são postas alternadamente na crise moral sofrida por Draco Malfoy, o único momento de toda a série que temos de fato um sentimento simpático para com o garoto.

     As Relíquias da Morte é uma espécie de retorno a tudo quanto a saga apresentou, um livro que deixa muito para a imaginação do leitor e que traz um gigantesco número de indicações políticas contemporâneas. Dois dos maiores mistérios em relação ao livro era o que aconteceria com a Escola de Magia e qual a verdadeira posição de Severo Snape no mundo bruxo. A busca pelas horcruxes e os diversos artifícios de proteção para elas são um deleite de suspense, que conforme a viagem avança (podemos classificar a obra como um “road book”), mais interessante e perigosa se torna. A guerra dos bruxos é o momento em que ninguém consegue largar o livro, tal a grandiosidade e a carga de tensão habilmente criadas pela escritora. O último capítulo, “Dezenove anos depois” é um ponto final e ao mesmo tempo o último momento de emoção da série. Ler sobre o destino de todos e saber que a história não continuaria (?) foi um “choque” para todos.

     Impossível ficar indiferente a esse fenômeno de nosso tempo, uma das mais badaladas séries literárias, livros que devem ser lidos pelo menos uma vez na vida, não pelo seu valor clássico, vital ou plenamente literário (sem entrar em discussões plenamente literárias, etc.), mas pelo prazer da leitura, que vai muito além do que se diz: é preciso ler para saber. 

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