11 de fev de 2011

Guardarás Domingos e Festas Sagradas (1988)



DECÁLOGO 3
por Luiz Santiago


     Em 1993 Krzysztof Kieslowski lançava o seu antepenúltimo filme, A Liberdade é Azul, abrindo a Trilogia das Cores com um drama onde a relação com a morte e a frieza humana é explorada de uma maneira no mínimo dolorosa. A heroína que “perdeu” marido, os “jogos” que empreende consigo mesma para continuar a viver, além de uma brilhante cor azul que domina quase todos os quadros, fazem de A Liberdade é Azul um exemplo de resgate e banalização da memória. Cinco anos antes de dar a Juliette Binoche um dos mais emocionantes papéis do cinema, Kieslowski criou uma personagem e uma trama que em muitas coisas se assemelham à abertura da Trilogia das Cores, e esse prenúncio em azul é o Decálogo 3, baseado no seguinte mandamento: “Lembra-te do dia do sábado para santificá-lo.”. Aqui, temos uma importante transição ocorrida na história e incorporada pelos cristãos. Para analisarmos o Decálogo 3, são necessários alguns apontamentos sobre essa mudança.

     Quando comecei a escrever esse artigo, uma curiosa diferença me chamou a atenção. O mandamento original de Moisés diz que é para o sábado ser santificado. A história do povo hebreu conta com diversos documentos datados do início do reinado de Ciro II (537 a.C.), que mostram a santificação e a celebração deste dia. Todavia, após a morte de Cristo (29 – 36? d.C.), a visão do sábado como um “dia santo” mudou. Tendo Cristo ressuscitado em um domingo, um novo “primeiro dia da semana foi estabelecido, o dia em que a luz se fez dentre os mortos, o dia do sol, o Dia do Senhor (Dominus, Dies Dominica). Eis o motivo pelo qual no mandamento original nós temos a citação do sábado como um dia a ser guardado, mas é o domingo quem assume, nos dias de hoje, essa posição. No Decálogo 3, uma outra vertente desse mandamento é problematizada, a questão das festas sagradas, e por uma grande ironia, o Natal de 1988 (ano de produção e realização do Decálogo) caiu em um Domingo.


     A personagem principal do Decálogo 3, Ewa, é uma mulher angustiada. Na véspera de Natal, após o desaparecimento de seu marido, ela vai procurar a ajuda de um antigo amante para ajudá-la na busca. Conforme o episódio se desenvolve, percebemos que não só a desobediência ao mandamento de guardar um dia sagrado, mas a mentira e o egoísmo são elementos essenciais do jogo empreendido por Ewa em relação ao amante Janusz; por Janusz em relação à esposa; pela esposa em relação a si mesma; e por todos em relação a Deus. No Decálogo 3, o Dia do Senhor transforma-se em Dia da Mentira.

     Diferente dos Decálogos 1 e 2, esse terceiro episódio da série estabelece uma distância quase antipática entre o espectador e a protagonista. No excelente roteiro de Kieslowski e Piesiewicz , não temos espaço para sentir nem pena nem ódio – uma tremenda jogada cênico-dramática que já nos remete à punição divina para a desobediência ao mandamento: a solidão. Tanto por parte do espectador quanto dentro da realidade diegética, as personagens desse episódio estão completamente sozinhas, imersas em seus medos e desconfianças. Mesmo com muitas pessoas ao redor, parecem guiar solitariamente as suas vidas por uma estrada que as chama para a morte. As representações desses fatos estão espalhadas pelo filme. Já no primeiro corte temporal, um carro passa em alta velocidade pela tela. Os protagonistas dirigem o tempo inteiro (Janusz é motorista de táxi), e assim como suas vidas estão em risco de sofrer um colapso, seus veículos parecem estar à beira de um acidente. Até mesmo a personagem angelical aparece como guia de um bonde. Em A Liberdade é Azul, essa premissa é a chave para a abertura da obra, e assim como o Decálogo 3 é um dos melhores da série no que diz respeito à concepção estética, Bleu será o filme da Trilogia das Cores cuja fotografia é a que recebe maior atenção.

     Além do azul predominante no Decálogo 3, vale destacar os pontos luminosos e o foco de luz recorrente durante o filme. Desde que começou a trabalhar com cor, Kieslowski sempre optou por uma estilização quase experimental dos cenários, especialmente em tomadas noturnas e internas. O ápice desse experimentalismo está em A Dupla Vida de Véronique. No terceiro episódio do Decálogo, um belo trabalho de fotografia – que usa do Natal para uma iluminação quase barroca – dispõe pelo cenário inúmeras fontes de luz e convencionaliza o lado esquerdo da tela como foco mais intenso de iluminação. O vermelho é um contraste sempre presente, seja como indicação metafórica do sangue ou quebra de nuances tonais do quadro.


     Quando o Dia do Senhor se torna em um dia para decisões éticas de primeira ordem, evidenciando a importância do indivíduo acima do Deus, a solidão punitiva assola a todos. A cena final do Decálogo 3 é uma das representações mais fielmente patéticas da realidade. Além do fingimento que se estabelece ao fim do episódio (todos representam um papel contrário às suas concepções), a mentira parece não se ter dissipado. A incerteza na voz se sobrepõe às promessas. No dia de Natal, contra todas as recomendações divinas, uma condição de existência se estabelece: ou eu, indivíduo; ou Ele, Deus.


DECÁLOGO 3 (Dekalog, Trzy, Polônia, 1988).
Direção: Krzysztof Kieslowski
Elenco: Daniel Olbrychski, Maria Pakulnis, Joanna Szczepkowska, Artur Barcis, Krystyna Drochocka.


FILME MUITO BOM. FORTEMENTE RECOMENDADO.

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