29 de ago de 2011

Planeta dos Macacos: A Origem





por Luiz Santiago


     Já não é segredo para alguns diretores de Hollywood que o caminho mais fácil (e comercialmente mais eficaz) para realizar um filme de gosto popular é primar pelo humanismo na construção das personagens e da trama. Quando se aproxima a temática e os conflitos tipicamente humanos dos seres ou animais que normalmente não os possui, o público tende a transparecer uma dose extra de simpatia, e a partir daí, fica mais fácil a aceitação do produto.

     Planeta dos Macacos: A Origem vem colecionando elogios, garantindo o status de melhor blockbuster do ano até agora. Esse resultado deve-se à humanização adotada pelo roteiro de Rick Jaffa e Amanda Silver, e também pela acertada opção de nos trazer a história não pelo ponto de vista humano, mas dos macacos, um pequeno diferencial narrativo que faz valer a sessão, embora o descompasso do ritmo interno acabe por diminuir-lhe um pouco o valor.


O Planeta

     Nos bons filmes de ficção científica, não raro os problemas de ordem humana aparecem junto com uma crítica social, a exemplo do filme que deu origem à febre símia, O Planeta dos Macacos (1968), dirigido pelo exigente Franklin J. Schaffner. A adaptação da obra homônima de Pierre Boulle superou as expectativas da Fox, e ganhou mais quatro sequências que vão de deploráveis a razoáveis, contando ainda com um remake de Tim Burton em 2001. Com um novo estímulo, a série ressurge em 2011 também como um remake, mas dessa vez, trabalhando de maneira nuclear a explicação sobre o domínio dos macacos na Terra, dada em  A Conquista do Planeta dos Macacos (1972).

     Inúmeras referências aos outros filmes da saga aparecem aqui, desde a Estátua da Liberdade que César monta em uma das cenas, até a clássica frase “Take your hands off me, you damned dirty ape”, dita pelo personagem de Tom Felton, em boa caracterização no filme. Sem desprezar as raízes originais dos primeiros episódios, Rupert Wyatt nos apresenta uma película que é um ótimo entretenimento e um bom recomeço de franquia.


     Uma indústria farmacêutica tem a ambição de encontrar a cura para o Alzheimer, e a criação do ALZ 112 e 113 é o último estágio para o milagre. Após um lamentável episódio inicial, e com a fórmula já reestruturada, os testes apresentam ótimos resultados em macacos, e despertam a ambição financeira do empresário responsável pela marca. O que escapa ao dono da empresa é que além de aumentar consideravelmente a inteligência dos símios, o produto é letal ao ser humano. Um motim, uma morte causada pelo produto e o início do contágio mundial: eis a trama completa da Origem.

     A narrativa que nos apresenta a visão do animal oprimido e dotado de sentimento é um trunfo importante para filme, porque deixa os humanos como coadjuvantes e dá maior impacto à trama, mas contribui bastante para a medíocre direção de atores que ali encontramos. James Franco, que deveria segurar o lado humano do filme com a mesma competência que sustentou sua personagem em 127 Horas, aparece inexpressivo a maior parte do filme. Sua atuação é desnecessariamente contida, e não há justificativa dramática para tanto. Pode-se justificar essa postura dizendo que ela não pretende desviar o foco ou a importância no que se refere aos macacos. Mas ora, se a narrativa adotada já traz a visão símia, e se desde que vemos César como bebê, simpatizamos com ele, não é um absurdo acreditar que uma atuação mais vivaz do protagonista humano fosse diminuir a importância do protagonista símio? Menor que James Franco é a insossa personagem de Freida Pinto, cuja participação no filme justifica-se apenas no plano clichê do par romântico. Os bons destaques do filme encontram-se nos personagens menores vividos muitíssimo bem por John Lithgow, Brian Cox e Tom Felton.

     As relações de poder burocrático não constam no filme. Sua crítica ressalta a organização ambiciosa dos seres humanos, sua nula importância com a natureza, crueldade e ganância. Ao contrário do filme de 1968, a caça é de macacos e não de humanos, e as dolorosas experiências também acontecem com esses animais capturados. Aos poucos, o filme constrói toda uma rede de justificativas para a revolta dos animais. Já a contaminação, que nos filmes posteriores causará o extermínio de quase 100% dos humanos, é um acidente de resultados em cadeia, nada tem a ver com os símios. A atmosfera de iminente revolta impera a partir do meio da obra, e em sua reta final, temos uma legítima indicação visual no quarto de Robert Franklin, o responsável pelos macacos no laboratório: um grande poster de O Encouraçado Potemkin.


Dos Macacos

     O excelente uso da tecnologia CGI permitiu ao filme convencer visualmente o espectador. A captação dos movimentos de atores reais, filmados em locação, deram ainda mais veracidade aos macacos, e destacamos especialmente os olhos do protagonista César e as expressões faciais de todos os símios. O único momento em que podemos aplicar a palavra “artificialidade” é quando vemos César ainda bebê, mas pode-se caracterizar essa opinião de purista, porque todas as cenas são feitas com muita competência, de modo que a impressão de artificialidade do bebê macaco não tem importância alguma para o filme como um todo.


     A fotografia de Andrew Lesnie dá uma iluminação mais metálica às cenas, e a tendência naturalista, tal como o diretor usou na trilogia O Senhor Dos Anéis ou em King Kong, finaliza o trabalho de ressalto à realidade. Um mundo diegético entre o azul e o cinza ou o branco de laboratório existe na maior parte do tempo, salvando-se a clareza dos “ambientes humanos”, como o consultório da veterinária, a casa de César, a casa dos Rodman. Na mesma linha, a direção de arte enriquece as internas em residências com um sem número de objetos, e mostra a impessoalidade da decoração industrial, que, desprovida de humanidade, ganha a partir de sua arquitetura uma objetiva e gélida identidade.

     Entre esses dois mundos, passamos do César domesticado, dócil, defensor de quem gosta, para o César calculista e vingativo. Esse comportamento, no entanto, não retira do protagonista a simpatia inicial, e a partir dessa ótica, podemos entender o filme como um drama familiar: a história do órfão subjugado e abandonado, dotado de sentimentos mas consciente de seu lugar no mundo, revolta-se contra a ordem instituída. Mesmo dotado de moral e ética humanas, ele não se furta em liderar uma nova realidade para si, ao lado daqueles que considera como seus.

     Nota-se também que os roteiristas construíram as personagens com diferentes categorias morais e exposição ética, havendo aí dois modos de observamos como a direção arquitetou essas diferenças. Primeiro, com ajuda da edição em uma leve abordagem dialética, equiparando a personalidade de um símio a de um humano; segundo, opondo os dois mundos como sendo construtores de seus próprios sentimentos e emoções. Do início até quase o final da película, somos simpáticos aos símios. A quebra acontece após o motim urbano – aliás, uma sequência muito bem dirigida, com a ação pulsando na medida certa durante todo o tempo, onde destaca-se, mais uma vez, o inteligente uso da tecnologia digital – quando os macacos passam de vítimas oprimidas e menosprezadas para vilões. Todavia, numa louvável guinada dramática, a parte final do filme volta a trazer os macacos ao patamar anterior. Da agressão à observação, eles fitam panoramicamente o mundo que em breve lhes pertencerá, e isso é tão bem filmado, que não fere, em absoluto, o senso de sobrevivência, mesmo que diegético, do espectador.


A Origem

     O passo inicial está dado, e a saga do Planeta dos Macacos recomeça em grande estilo. Ou quase.

     O erro crasso do diretor nesse filme foi estender em demasia o tempo pacífico ou de preparação dos animais até o motim. Essa atitude não teria problema algum se o filme fosse mais longo, uma vez que poderia ser feito um trabalho menos abrupto sobre a revolta símia. A meia hora final da película extrapola todos os limites de ritmo já imaginados. Passamos de nichos de conflitos para um tsunami de pura ação, e para piorar, o filme “não termina”, ou seja, tudo converge para um gancho do segundo filme. Sendo assim, fica difícil levar o produto muito a sério já que sua preocupação com o próximo episódio sobrepõe-se a um bom desfecho da origem de tudo.


     Planeta dos Macacos: A Origem não é um clássico. Além do problema de ritmo interno (e por tabela, externo), o roteiro deixa passar uma ou outra falha no relacionamento homem – chipanzés, falhas que não comprometem a história como um todo, mas incomodam muito quando aparecem; e a direção de atores é regular, apesar do bom uso da tecnologia CGI. Como se vê, o filme está suspenso em compensações, mas essas são tão bem arquitetadas, que o todo consegue ostentar a bandeira de bom filme, e se pararmos para pensar no que ele se propõe a oferecer, de fato, é um bom filme. 


     Em meio aos debates sobre o futuro da humanidade, surge um filme que retira de uma vez por todas o homem do comando do planeta. O futuro chegou. E nós não estamos nele.


* Para Matheus Fragata.


O PLANETA DOS MACACOS: A ORIGEM (Rise of the Planet of the Apes, EUA, 2011)
Direção: Rupert Wyatt
Elenco: James Franco, Freida Pinto, John Lithgow, Brian Cox, Tom Felton, David Oyelowo, Tyler Labine, Jamie Harris, David Hewlett, Ty Olsson, Madison Bell.



FILME MUITO BOM. FORTEMENTE RECOMENDADO.

Twitter Delicious Digg Stumbleupon Favorites More

 
Powered by Blogger