5 de fev de 2012

Honrarás Pai e Mãe (1988)



 

por Luiz Santiago

DECÁLOGO 4

          Baseado no quinto mandamento, “Honra teu pai e tua mãe, para que teus dias se prolonguem sobre a terra.”, o Decálogo 4 é um episódio atípico em relação aos anteriores. Primeiro porque a punição divina à desobediência não se dá no tempo fílmico; segundo, porque o ato rebelde é quase ínfimo se comparado ao dos decálogos Um, Dois e Três.

          A ação que descumpre o mandamento no Decálogo 4 acontece de dois modos. O primeiro deles é o desprezo da filha para com um pedido póstumo da mãe. O segundo, é a manutenção do desejo incestuoso da filha pelo pai. Como ambos duvidam da paternidade, o desejo contido não parece tão grave mediante a situação, mas a descoberta de uma carta deixada pela falecida mãe pode fazer ruir essa mentira inventada, de modo que ambos preferem queimar o envelope a descobrir a verdade. A opção pela ignorância, aparentemente, libertaria Anna e Michael de seus desejos incestuosos, mas longe disso (e essa é a punição) nasce uma espécie de maldição moral que irá persegui-los ad eternum.

          O filme começa na manhã de uma segunda-feira de Páscoa. Num primeiro momento, a relação entre Anna e Michael dá a entender que eles são marido e mulher, tal a força dos olhares e atitudes de um para com o outro. A água, elemento purificador, símbolo da vida (reafirmado pela Páscoa, a ressurreição de Cristo), é derramada como uma espécie de unção sobre a cabeça de Michael, que ainda dorme. Essa atitude guarda um quê de profanação, e podemos aplicar a desonra não só ao pai e a mãe terrenos, mas a Deus, o pai celestial, representado na figura de Cristo, em seu dia de ressurreição. A revelação do Complexo de Édipo vem colorir a manhã dos protagonistas com uma espécie de ritual há muito praticado.


A mulher e o pecado: visão retrógrada

          Kieslowski apresenta Anna sempre em figurinos claros ou de cor azul, embora a personagem nunca esteja perfeitamente vestida, maquilada e sob uma luz favorável. É notória a ausência de beleza ou vaidade nas mulheres do Decálogo. É como se essa série representasse também a postura de uma sociedade arcaica – como no Velho Testamento –, onde as mulheres, sempre desajeitadas e causadoras de problemas, estavam aquém dos homens. Na Trilogia das Cores (1993 - 1994), o diretor adotaria uma outra postura. A tríade feminina que protagoniza os filmes é tratada com o máximo de cuidado – estético e personalístico – e são catalizadoras de suas ações, independentes da força e presença masculina para escreverem a sua história.

          Nesse episódio, assim como no Decálogo 3, a mentira faz parte do cotidiano das personagens. A representação de uma postura social e familiar - hipócrita - é comum nos dois protagonistas desse episódio quatro, e isso percebemos com o passar do tempo: pai e filha sabiam da existência da carta e do seu conteúdo, apenas não tinham certeza absoluta porque não haviam-na lido; mas representam o tempo inteiro como se não soubesse de nada. Anna, como estudante de Artes Cênicas, é a verdadeira farsa da situação, assumindo o papel de mulher proibida, moralmente rejeitada pelo pai.

          Alguns objetos, aparições e acontecimentos interessantes formam a identidade desse decálogo e depreendem pouco esforço para serem contextualizados: Anna vai ao oftalmologista (primeiro fato curioso, porque o momento em que ela “descobre” a deficiência na visão é quando o avião do pai decola e ela não consegue enxergá-lo direito), e a doutora aponta uma sequência de letras de formam a palavra FATHER. Em uma cena no elevador, temos a interação com um protagonista de outro decálogo - é importante lembrar que os dez episódios se passam com pessoas diferentes de um mesmo conjunto habitacional em Varsóvia -, o médico do Decálogo 2. A personagem angelical – símbolo da onipresença de Deus, que aparece em 9 dos 10 episódios da série – surge no momento em que Anna está para abrir o envelope deixado pela mãe. Ele atravessa um rio em um pequeno barco, e ao chegar à margem, pega-o, para em frente a Anna, olha para ela fixamente e segue seu caminho. A oportunidade de se livrar de uma mentira é concedida à personagem nesse exato momento.


O fim da moral coletiva?

          Se uma pessoa perde as referências e os valores familiares, abre-se o caminho para  muitas atitudes criminosas, já que não existe mais essa garantia de ordem social e limitações chamada família. De uma maneira muito irônica, esse passo para o crime não é aberto no Decálogo 4, (diferente do filme e da série Twin Peaks, caso muito bem apontado por Slavoj Zizek em um artigo sobre o Decálogo). O futuro das personagens e a legitimidade do pecado estão no julgamento do espectador. A música expressiva de Zbigniev Preisner que acompanha a cena final não nos deixa pistas sobre o que virá – embora o pecado do próximo Decálogo seja uma herança dessa família desvirtuada: Não Matarás. Apenas um dilema moral paira na tela, com a câmera envergonhada que se afasta dos protagonistas para ver “envelhecer” uma velha fotografia de família, como se quisesse aludir ao declínio e morte dessa instituição consumida pelo mundo secular dos modismos, dos extremos e excessos.



DECÁLOGO 4 (Dekalog cztery, Polônia, 1988).
Direção: Krzysztof Kieslowski
Roteiro: Krzysztof Piesiewicz e Krzysztof Kieslowski
Elenco: Adrianna Biedrzynska, Janusz Gajos, Artur Barcis, Adam Hanuszkiewicz, Jan Terasz.
Duração: 55min.

EPISÓDIO MUITO BOM. FORTEMENTE RECOMENDADO.


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