24 de jun de 2010

Série: Twin Peaks (1990 - 1991)



por Luiz Santiago


   Assim como as adaptações literárias para o cinema devem ser vistas não pela semelhança ou riqueza de detalhes que conservam do original, mas sim pela criação fílmica em si – são produtos e linguagens completamente diferentes -, as séries feitas para a televisão devem ser vistas como um produto de entretenimento para uma massa de espectadores (a faixa etária e o tipo específico de público-alvo variam conforme censura e temática de série para série: o público de FRIENDS dificilmente se interessará por uma série como The Tudors ou Roma, por exemplo), que pretendem alcançar o maior número de audiência possível através de um programa estruturalmente novelístico, sendo um episódio, e as possíveis temporadas, continuação do anterior (nas sit.com essa relação de continuidade é mais maleável). Com o desenvolvimento da tecnologia digital nos anos 1990, as séries de TV ficaram cada vez mais parecidas com os filmes de cinema, a ponto de o Episódio Piloto de LOST (09/2004) ter custado cerca de US$ 14 milhões, valor que corresponde geralmente ao orçamento de um filme de Woody Allen.

   Twin Peaks foi uma série criada por Mark Frost e David Lynch, e teve apenas duas temporadas (1990 – 1991), com 29 episódios mais o Episódio Piloto. Todavia, isso bastou para que a série entrasse para o hall dos melhores programas de TV de todos os tempos.

   David Lynch jamais havia feito algum trabalho para a televisão antes de Twin Peaks, e o convite para a realização da série, certamente se deu pelo sucesso de seu filme anterior, Veludo Azul (1986). Mark Frost já conhecia a produção para a TV, mas como escritor de poucos episódios para algumas séries no final dos anos 1970 e início dos anos 1980. Dois grandes criadores de universos reunidos para fazer um programa de televisão: o resultado, certamente, seria algo totalmente diverso daquilo a que o público estava acostumado ver.


   Apesar de ser uma série de TV, Twin Peaks não se encaixou no padrão comercial (em nenhum sentido ou categoria) dos produtos realizados para a pequena tela, como citamos no início. Assim, é um grande espanto perceber que uma rede tão conservadora quanto a ABC tenha patrocinado algo tão fora do normal televisivo e rentável produto audiovisual. O estranho mundo inventado por Lynch e Frost recebeu carta branca da produtora para um Episódio Piloto, e mesmo relutante, para sete episódios iniciais, que se transformariam na primeira temporada da série.

   No dia oito de abril de 1990, Twin Peaks estreou na ABC, com um Episódio Piloto de quase duas horas de duração, dirigido por David Lynch – uma das melhores coisas já feitas para a TV, por toda a densidade e amplitude que a história ganha, já de início. O estrondoso sucesso da exibição de estreia foi acompanhado pela pergunta que ergueria e derrubaria a série: “Quem matou Laura Palmer?”. Na “versão europeia” do Episódio Piloto, há a inserção de uma sequência final, praticamente um esquete, porque não se encaixa necessariamente em nada do que foi apresentado antes: a sequência da Sala Vermelha, que na temporada seguinte seria identificada como uma passagem ou a ante-sala de uma outra dimensão, o Black Lodge. Nesta Sala Vermelha, todos falam as palavras de trás para frente, dançam, geralmente andam para trás, a lei da gravidade não existe, e coisas fantásticas acontecem. Ao fim do Episódio Piloto, depois de um fade-out, vemos uma sala de piso preto e branco, com cortinas vermelhas, sofás pretos, uma escultura grega (Vênus), e o título do “esquete”: VINTE E CINCO ANOS DEPOIS. Nessa sala, a defunta Laura Palmer e um anão, conversam com o agente Dale Cooper (já velho), o responsável pela investigação da morte da jovem, durante o episódio.

  
   Twin Peaks é uma cidade sombria, um vale cercado por montanhas e rodeado por florestas de Abetos, sempre castigados pelo vento incessante que se mistura à névoa ou à neblina. Corujas e corvos são animais vistos frequentemente. Apesar do aspecto assustador, Twin Peaks é uma cidade pacata. Até o assassinato de Laura Palmer. A partir de então, é como se todas as máscaras começassem a cair, todos os crimes fossem revelados e todas as mentiras descobertas. A loucura, a repressão dos desejos, as neuroses e os segredos dos ilustres cidadãos da cidade passam a ser revelados. Ninguém é inocente em Twin Peaks e não há absolutamente nenhuma verdade nessa cidade.

   Após a morte de Laura Palmer, o agente do FBI, Dale Cooper (Kyle MacLachlan) assume as investigações do crime, ao lado do xerife local Harry S. Truman (Michael Ontkean). Juntos, passam a reunir as peças do quebra cabeça para chegar ao assassino, ao passo que uma série de outros mistérios se apresentam, e ligações impensáveis entre as personagens são reveladas.

   A Primeira Temporada da série foi um sucesso espetacular, com altos níveis de audiência, excelente crítica e o surgimento de um mercado de marketing à sua volta, um verdadeiro fenômeno cult, o que não era para menos: tudo, absolutamente tudo dá certo no primeiro ano da série. Cada episódio é um mistério, novas situações e personagens aparecem, o submundo mascarado da cidade vem á tona, a “vida paralela” de Laura Palmer é pausadamente revelada, para horror dos que a conheciam como apenas uma inocente colegial. Todo o elenco é fenomenal, inclusive o elenco jovem. Cada diretor que assumia um episódio da temporada imprimia sua marca pessoal, adicionava elementos particulares, o que só enriquecia a série. No último episódio da primeira temporada, um eletrizante e maravilhoso episódio escrito e dirigido por Mark Frost, há um dos maiores choques para o espectador, posto que termina com uma arma baleando o agente Dale Cooper, na porta de seu quarto, no Great Northern Hotel. Nunca se desejou tanto o início de uma próxima temporada. A possível morte de Cooper, o incêndio na Serraria, o mistério do Dr. Jacoby, a possessão demoníaca de Leland Palmer e o desenvolvimento da personagem de BOB, um demônio, fizeram da Primeira Temporada de Twin Peaks uma explosão cult da televisão americana, e o fim da temporada intensificou ainda mais todas as dúvidas e sensações através do magnífico episódio sete: The Last Evening.

 

   A Segunda Temporada começa com o episódio May the Giant Be With You, (de uma hora e meia), dirigido por David Lynch. Os elementos surreais e o mundo onírico abrem as portas que ainda estavam fechadas. Aparece um gigante-mentor e um velho-anjo. Perturbações mentais assolam algumas personagens. O mistério de Twin Peaks continua. No quinto episódio (e em mais alguns outros) Lynch faz o papel do agente Gordon, o chefe surdo de Dale Cooper. Sonhos, intrigas, aparições surrealistas em um bar, e recados do além ganham significação real na trama. Até chega o episódio que arruinou a série, o episódio onde o assassino de Laura Palmer é revelado. Embora o intrigante tom do discurso da Senhora do Tronco, ao início do episódio, tente abrir possibilidades futuras, a aura crepuscular do discurso é inevitável:

_ Então agora vem a tristeza. A revelação. Há uma depressão depois que uma resposta é dada. Era quase divertido não saber. Sim, agora nós sabemos. Pelo menos sabemos o que procurávamos no começo. Mas ainda há a questão: “Por quê?”. E essa questão vai continuar e continuar e continuar, até a resposta final chegar. Aí o saber vai ser tão completo, que não haverá espaço para questões.


   A partir desse momento tudo perde o interesse em Twin Peaks. Não há mais a medula, o segredo estrutural do qual se ramificava toda uma série de possibilidades. Tão rapidamente quanto ganhou, a série passou a perder espectadores. A ABC mudou diversas vezes o horário e o dia de transmissão do show, o que dificultava ainda mais a localização do espectador. Para piorar a situação, Mark Frost e David Lynch estavam envolvidos em outros projetos (Storyville e Coração Selvagem, respectivamente), o que dificultou ainda mais a retomada de um fio de interesse que pudesse ser desenrolado satisfatoriamente, retomando os elementos de suspense e encantando novamente os fãs do programa.

   Para tentar salvar a audiência que despencava a cada episódio exibido a partir do episódio 2.10 (evidente resultado da revelação do assassino e não continuidade do nível de produção obtido até então), diversos astros foram convidados para incompreensíveis participações especiais. Apenas no fim da temporada as coisas voltaram aos trilhos e a série voltou a ser tão interessante quanto fora no início, com novos temas sendo trabalhados e novas portas-mistério sendo abertas – mas já era tarde demais. Apesar da genialidade do episódio Beyond Life and Death, o último episódio da segunda temporada, cheio de temas-enigma, inclusive com o agente Cooper sendo possuído pelo demônio BOB após sair do Black Lodge e Audrey morrendo com a explosão do banco, Twin Peaks chegou ao fim: não haveria uma próxima temporada.

   Mesmo quase duas décadas depois, assistir à série é uma experiência maravilhosa. Lynch e Frost criaram uma obra tão profunda e tão cheia de atalhos, que é preciso vê-la e revê-la para que se possa abstrair todos os detalhes.


   Além da trama em si, Twin Peaks é um desfile de genialidade técnica. Dificilmente uma série de TV teve tanto espaço para tantas mudanças de cenários simbólico-criativos (o que requer uma espetacular direção de arte, e o que não falta, na série), pelo menos até Heroes (2006). Os outros elementos técnicos são de dar inveja a séries contemporâneas: figurinos, maquiagem, fotografia, música (essa, assinada pelo habitual e genial colaborador de Lynch, Angelo Badalamenti), todos conseguem um desempenho esplêndido, o que talvez explique o por quê a série é tão cativante em todos os sentidos.

   Twin Peaks foi um marco na televisão, obra de dois criadores que não se adequaram ao show comercial (aliás, parte da decadência do programa foi esse caráter, adquirido pelos episódios após a revelação do assassino e antes da retomada dos episódios finais), e que trouxeram para a pequena tela muito mais do que entretenimento, trouxeram arte, e arte das mais revolucionárias. Twin Peaks ultrapassou a fronteira do programa de televisão. Ela entrou no Black Lodge. Para sempre.



TWIN PEAKS (idem, EUA, 1990/91)
Direção: Diversos.
Produção executiva: Mark Frost e David Lynch.
Elenco principal: Kyle MacLachlan, Michael Ontkean, Sheryl Lee, Mädchen Amick, Dana Ashbrook, Richard Beymer, Lara Flynn Boyle, Sherilyn Fenn, Warren Frost, Peggy Lipton, Joan Chen, Kimmy Robertson, Eric DaRe, Ray Wise, Russ Tamblyn, Don S. Davis, Grace Zabriskie, Heather Graham.

SÉRIE MUITO BOA. É IMPERDÍVEL ASSISTI-LA!

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