30 de jun de 2011

Testa de ferro por acaso


por Nuno Reis


     Porque nem só de humor vive o comediante, por vezes Woody Allen participava em dramas. E aquela regra de ser sempre a autoridade máxima durante a produção do filme também tinha excepções. "The Front" é a combinação perfeita dessas duas excepções. O melhor filme em que Allen participou sem realizar, talvez a sua melhor interpretação de sempre, e um tema nada divertido: a caça às bruxas de McCarthy.

     Apenas na década de 2000 ("The Majestic", 2001 e "Good Night and Good Luck", 2005) o cinema mainstream falará de forma tão direta sobre essa idade de trevas.

     Howard Prince era um vulgar empregado de café com gosto por apostas. Um dia um velho amigo aparece para lhe pedir um favor. É um argumentista, mas devido às preferências políticas ninguém quer os textos dele. Precisa de alguém que dê a cara. Howard faz-lhe o favor e, ao ver como é fácil ganhar dinheiro assim, começa a representar outros escritores proibidos. Quando a televisão está totalmente dependente dele chega a comissão que vai investigar o seu passado e fazer a derradeira pergunta. É um comunista senhor Prince?

     Foi uma época dura e muita boa gente perdeu o emprego por meras suspeitas. A maioria seria mesmo de esquerda, mas isso é motivo para os segregar pela calada? O argumento parece saído das mãos de Allen pela sucessão de acontecimentos, pela relação amorosa que surge e pelas conversas de café. No entanto argumentista (Walter Bernstein), realizador (Martin Ritt) e inclusivamente um brilhante Zero Mostel (a personagem Hecky Brown) são todos ex-indesejados. Aqui provam quanto o cinema perdeu por terem sido afastados da ribalta.


     O filme consegue manter os espectadores presos independentemente da década em que assistam e passa-lhes a eterna mensagem: para que o mal vença, basta que os bons não façam nada. Ser humano significa que por vezes se tem de fazer o que é correto, mesmo que isso signifique risco pessoal. Aqui há três perspectivas. Howard e Florence seguem caminhos diferentes nesta luta e a sua relação e as suas intenções são tão ricas quando falam como quando estão separados. Depois há um grande Hecky (último papel de Zero Mostel) a expressar a dor, a angústia e a raiva que uma geração desgraçada pelos outros carregou em silêncio. As escolhas que eram obrigados a fazer, os trabalhos que eram obrigados a aceitar depois de rebaixados até ao limite do ser humano.

     Foi um filme saído do coração de muitos segregados e Allen neste seu pequeno gesto de apoio mostrou não ter medo de ninguém e, apesar de ser indiferente a Hollywood e à indústria, respeitar todos os colegas de profissão. Quanto à cena final (visualmente tão básica, mas com uma enorme carga emocional) é digna de uma ovação de pé. Porque homens como Hecky houve muitos, mas como Howard não.


TESTA DE FERRO POR ACASO (The Front, USA, 1976)
Direção: Martin Ritt
Elenco: Woody Allen, Zero Mostel, Herschel Bernardi, Michael Murphy, Andrea Marcovicci, Remak Ramsay, Danny Aiello, Josef Sommer, David Marguiles


FILME MUITO BOM. FORTEMENTE RECOMENDADO.

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