21 de set de 2010

Tempos Modernos



A ovelha negra



por Adriano Oliveira
Coordenador do site Cine Revista e Crítico de Cinema (ACCIRS).




     Na primeira cena pós-créditos iniciais de "Tempos Modernos", vemos um rebanho de ovelhas avançando, imagem que é justaposta à de um mesmo movimento, a saber, de pessoas se dirigindo ao trabalho. A sutileza da imagem dos ovinos vai além da metáfora provocada pelo corte citado: no meio dos animais daquela aglomeração, há uma ovelha negra. O vagabundo-operário personificado por Chaplin está ali representado, pois desse prólogo, já se define a jornada do herói da trama: um homem que contestará o sistema em que é subjugado.

     Demonstrando uma grande consciência de seu tempo e também de sua arte, Chaplin sintoniza a ação do filme para o momento de sua confecção. À época dos anos 30, a Grande Depressão americana grassava, como conseqüência imediata do crack da Bolsa de 1929, trazendo desemprego e fome. A industrialização findou por escravizar o homem, vinculando-o vitalmente ao sistema capitalista. Nesse cenário, o personagem chapliniano é um típico trabalhador braçal de uma indústria que enlouquece devido ao ritmo anormal da linha de produção em que opera e acaba se metendo em inúmeras confusões. A crítica econômico-social se vê dominante, a tecnologia e a desumanização são fortemente combatidas, mas o roteiro encontra tempo e espaço também para uma bela história de amor e de crença na humanidade, uma vez que Carlitos encontra em uma jovem órfã e moradora de rua (a linda Paulette Godard), uma idealista como ele, e acabam formando um mágico par.




     O aspecto de sátira é o contraponto perfeito para o diretor/roteirista/produtor mostrar seu descontentamento com a modernização que tornou o mundo gélido: em meio a inúmeras e extraordinariamente cômicas gags, reside uma gigantesca, e ao mesmo tempo, sutil, acidez para com o modus operandi da sociedade capitalista. O uso da comédia nunca esteve tão a serviço de uma ideologia, sem abrir mão - inclusive, pelo contrário - da sua função natural de divertir.

     Em verdade, "Tempos Modernos" é rico a ponto de fornecer uma farta gama de cenas que, isoladas, já valeriam um artigo a cada uma delas. Vamos lembrar algumas, das tantas memoráveis: Carlitos trabalhando loucamente numa linha de montagem, depois sendo engolido pelas engrenagens da máquina; ele como cobaia de uma máquina de alimentação; a divertidamente ensandecida revolta contra a fábrica e o capitalista-chefe; o vagabundo tomado por líder comunista; a briga na cadeia; o idílio campesino; o proletariado se reencontrando em um assalto à uma loja de departamentos, local onde pouco antes Carlitos dançara perigosamente, vendado e de patins; o corte preciso mostrando a órfã saindo da dança anônima na rua para virar estrela de um show glamourizado; pela primeira vez, a voz do notável vagabundo é ouvida, ao cantar "Titina"; o final da obra representando uma ode à esperança.




     É o último grande filme mudo de Hollywood, ainda que tenha partes faladas (à exceção da canção de Carlitos, as demais vozes ouvidas, embora de fonte humana, provém de máquinas) e também a despedida ao imortal papel do vagabundo, que pela primeira vez em um filme, não finda sua jornada sozinho. Aqui, ele encontra uma companheira, com quem literalmente caminha em direção a um novo horizonte, renovando sua fé no homem, no entendimento entre as pessoas, no amor e no porvir, em uma cena comovente. A ovelha negra pode se desgarrar do rebanho, mas não mais está solitária. O tempo segue a avançar, porém Chaplin, por esta e outras realizações, ganhou a eternidade. 


Artigo originalmente publicado no Cine Revista.



TEMPOS MODERNOS (Modern Times, 1936)
Direção: Charles Chaplin.
Elenco: Charles Chaplin, Paulette Godard, Edward LeSaint, Hank Mann.


FILME ÓTIMO. É IMPERDÍVEL ASSISTI-LO!

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