11 de ago de 2010

O Desespero de Veronika Voss

por Luiz Santiago

Assim como o brilhante cinema soviético das duas primeiras décadas do século vinte foi praticamente exterminado pelo “realismo socialista” de Josef Stálin, mesmo que ainda houvesse filmes de Kozintsev, Trauberg e Eisenstein, o cinema alemão dos grandes diretores do Primeiro Cinema (Fritz Lang, F.W. Murnau, Josef Von Sternberg, G.W. Pabst, Ernst Lubitsch), regrediu e perdeu sua genialidade durante o período nazista (1933 – 1945), quando a produção cinematográfica do país resumiu-se a comédias de costumes, musicais de baixa qualidade, e filmes anti-semitas e de propaganda. O nome de Leni Riefentahl, certamente é de grande peso nesse período, e mesmo com duas obras encomendadas pelo governo (O Triunfo da Vontade (1935) e Olympia I & II, 1938), reconhecemos a sua tremenda genialidade na direção, e o valor estético, artístico e histórico de seus filmes. Entretanto, a cineasta alemã foi a única a produzir obras de algum valor para o cinema, em seu país, no período em que Hitler esteve no poder.

Como quase todas as cinematografias nacionais europeias do pós-guerra (destaque para a italiana, com o seu neo-realismo), a Alemanha produziu filmes de um forte caráter histórico-social, os “filmes da destruição”, ambientados na profunda crise emocional e econômica (só para citar duas) que pairava sobre o país¹.

Aos poucos, o cinema alemão ganhou força, e os anos 1970, foram de excepcional renovo, com obras-primas ousadas e críticas, realizadas por nomes que se tornariam ícones de qualquer antologia de cinema: Werner Herzog, Wim Wenders, Volker Schlondorff e Rainer Werner Fassbinder.


 Junto aos seus amigos do Teatro de Munique, Fassbinder entrou para o cinema nesse período de renovação, e seus melodramas ambientados no pós-guerra mostram um mundo traiçoeiro, frustrado, avaro, viciado e violento, onde todos buscam alguma coisa, e os mais fracos tendem ou são obrigados a desistir no meio do caminho. Pontuado por fortes personagens femininas centrais, doses de homossexualismo (quando não é o tema principal) e rigoroso uso da fotografia e planificação (com colaboradores habituais como Michael Balhaus e Xavier Schwarzenberger) e pontualíssimo e tocante uso da música (Peer Raben é o compositor que acompanha o cineasta durante toda a careira), os filmes de Fassbinder são provocantes análises ou retratos muito particulares da sociedade completamente perdida e oprimida pelo ambiente que ela mesma criou e não vê como sair dele (um triunfo da ideologia). É nesse ambiente opressivo e mortal que vivem as personagens do penúltimo filme de R.W. Fassbinder, O Desespero de Veronika Voss (1982)².

O filme narra a história da decadente atriz de cinema, Veronika Voss, que, viciada em morfina, fica a mercê de sua neurocirurgiã, dando-lhe tudo quanto tem em troca de doses da substância. Pequenas e pertinentes histórias paralelas se cruzam e se adaptam à trama central, especialmente a do jornalista esportivo que tenta resgatar a atriz, mas é vencido pelo mundo que a cerca e domina. 


 A primeira sequência da película é em um cinema. Uma cortina se abre e insere o espectador na sala onde se projeta um antigo filme em que Veronika atua. A atriz está na plateia, e em dado momento, cerra os olhos, para não ver a cena de desespero de sua personagem viciada, e acaba saindo da sala escura, perturbada com a proximidade entre a realidade diegética e a sua realidade. É dessa sequência-chave que a atriz se lembrará, no epílogo do filme, quando é “apresentada” ao suicídio. 

À cena de abertura, segue-se um flashback que nos leva para o momento em que se filmava a obra exibida na sequência inicial. O flashback de Fassbinder é extravagante e fascinante. Luzes-estrelas brilham em diversos pontos da tela e tomam o quadro com imponente força estética, incomodando a visão do espectador, e salientando ainda mais o caráter pretérito da cena. As lembranças do passado, neste filme, sempre serão acompanhadas deste tipo de iluminação agressiva, quase onírica.

A planificação de O Desespero de Veronika Voss é quase uma afronta de tão bem escolhida, usada e relacionada com a tensão dramática e especialmente cênica, do quadro. A isso, soma-se uma estonteante mise-en-scène, que baila junto com os atores em um cenário abarrotado de coisas, cheio de forte luz e escuridão (um saliente caráter expressionista pontua o filme) e muitas vezes vistos por enquadramentos inclinados ou interceptados em primeiríssimo plano por uma parede, uma cadeira, um ombro: contra-campos com um personagem onipresente (o espectador?), que faz parte da cena ou observa a todo o tempo o cotidiano das personagens.

 O mundo de Veronika Voss é burocrático, e essa burocracia alcança todos os níveis da sociedade. Através da corrupção, facilitada pelos muitos papeis e departamentos, algumas pessoas desfrutam de grandes privilégios (em geral, financeiros), e não hesitam em cometer crimes de todas as ordens para manterem sua posição de destaque e sua fonte inesgotável de dinheiro, mesmo que a vida de algumas pessoas sejam destruídas. Os criminosos estão sempre bem e felizes, ricos, e gozam de livre trânsito na sociedade, sob a alcunha de bons profissionais e bons cidadãos. 

O mundo das artes funde-se ao mundo real. Já dissemos que ao fim da fita, Veronika Voss (lancinante interpretação de Rosel Zech) repete um trecho do roteiro de um antigo filme que atuara. Durante toda a película, é difícil definir com certeza se ela realmente sente o que expressa, ou só atua.



 A música de Peer Raben faz simbólicos todos 100 minutos de duração do filme. Usando a seu modo o princípio da não-coincidência, o compositor “ataca” algumas cenas com uma melodia tranquila, quando a mise-en-scène caminha em sentido oposto; mas também cria a expectativa típica do suspense, com trechos graves e em tons menores, e também incita a impaciência, o medo e o incômodo, em diversos momentos, mesmo com a música não original, ou com os tambores, cada vez mais fortes através da melodia principal, como se marcassem os batimentos do coração das personagens em cena.

Xavier Schwarzenberger arrebata o espectador através de sua fotografia tendenciosamente expressionista. Junto à direção de arte a aos figurinos, ressalta ainda mais a opressão e o desespero pretendidos por Fassbinder. Podemos citar como exemplo dessa perfeita junção, o consultório da neurocirurgiã Marianne, ambiente terrivelmente branco, que destaca as figuras de Veronika, seu amante, de outros pacientes, ou os policiais, todos vestidos de preto, cinza, etc., em diferentes momentos do filme. A câmera fixa não exclui os movimentos de planos ou internos, o que equilibra as sequências e dinamiza o filme, dando à morbidez do estrelato, uma fluidez irônica e incômoda.

A edição de Juliane Lorenz é um caleidoscópio matemático, e suas transições incomuns clamam o exótico ou o irreal – aqui, ressaltamos que as transições incomodam, de fato, e só são entendidas dentro de seu contexto fílmico, quando a trama já vai bem avançada. Cada sequência é um ato. O corte, aqui, tem um papel temporal e às vezes, de transição psicológico-espacial. 


 Fassbinder dirige os atores dentro de “espaços de personalidade”. Cada persona em cena é um universo, que vive em um universo maior, manipulando-o, reflexo de sua alma e personalidade. O mundo pós-guerra criado pelo diretor alemão conclama a morte pelo desespero, pela busca de um significado ou de uma paz que é impossível porque o vício ou as sequelas de um passado recente atormentam a memória e empurram o indivíduo para a morte. O Desespero de Veronika Voss esquadrinha a alma e a existência em uma Alemanha que se reconstroi, porém, sob os mortíferos pilares do capitalismo e da indiferença.


1 – O olhar de Roberto Rossellini para a Alemanha desse período chega a um ponto lancinante em Alemanha ano zero (1947), comovente e dura visão sobre o homem castigado pelas consequências de seu tempo histórico, tendo o apelo para que se deixe o lamento e a desesperança de lado, e se parta para a re-construção da vida e do meio onde se vive.

2 – R.W. Fassbinder foi um dos mais prolíficos diretores da história do cinema. Dirigiu o seu primeiro filme, O Vagabundo da Cidade, em 1966, aos 21 anos, e o seu último, Querelle, em 1982, ano de sua morte. Em 13 anos de carreira, o cineasta dirigiu 44 filmes, escreveu e dirigiu diversas peças de teatro, e ainda fez trabalhos para a televisão, incluindo a lendária série, Berlin Alexanderplatz.


O DESESPERO DE VERONIKA VOSS (Die Sehnsucht der Veronika Voss, Alemanha, 1982)
Direção: Rainer Werner Fassbinder.
Elenco principal: Rosel Zech, Hilmar Thate, Cornelia Froboess, Annemarie Düringer, Doris Schade, Erik Schumann, Peter Berling, Günter Kaufmann, Sonja Neudorfer, Lilo Pempeit, Volker Spengler. 

FILME ÓTIMO. É IMPERDÍVEL ASSISTI-LO!

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