30 de jun de 2010

À Meia Luz

 

                                                                         por Luiz Santiago

   George Cukor sempre enfrentou "problemas artísticos" em Hollywood. Um dos mais conhecidos foi o seu afastamento da direção de ...E o vento levou (1939), entregue a Victor Fleming. Consta que o episódio contou com grande participação do alienado e prepotente Clark Gable, que costumava fazer piadas de mau gosto sobre a homossexualidade do diretor.

   Seu reconhecimento, embora a acusação de que era autor de "filmes de mulheres" o acompanhasse toda a vida, veio com os filmes que dirigiu para a MGM. Neste estúdio, encontraria certa liberdade, e sua capacidade criativa seria vista e aguardada por um público que se familiarizaria com a elegância e a sensibilidade de sua direção. O clima burguês, pomposo, com diálogos equilibrados que não eram nem pop nem poéticos, antecederia, de certo modo, a atmosfera de Luchino Visconti, e é esta atmosfera, inserida em opressão psicológica, que vemos se arrastar em À meia luz (1944).

   Trata-se de uma história de casamento por interesse, aonde a personagem feminina (elemento típico na filmografia do diretor), é explorada e valorizada por sua força e delicadeza.


   O roteiro é baseado na peça teatral de Patrick Hamilton, e conta a história de Paula Alquist, sobrinha de uma famosa cantora de ópera assassinada, e Gregory Anton, pianista pretendente e futuro esposo de Paula. Após o casamento, Gregory passa a torturar psicologicamente sua jovem esposa, fazendo-a acreditar que está enlouquecendo. A história passa a tomar um rumo diferente, embora embebida em suspense, quando o investigador Brian Cameron passa a desconfiar de Gregory por manter Paula presa em casa, alegando sua incapacidade de saúde para receber a fazer visitas e por algumas atitudes estranhas (e noturnas) que o cruel esposo passa a tomar. Com a ajuda de um amigo policial e da empregada meio surda, Cameron guia a trama para o esperado final quase-feliz...

   O filme é medíocre mas consegue o bom clima dramático com as excelentes atuações dos poucos atores que o protagonizam. Paula Alquist é vivida pela sueca Ingrid Bergman, que provida de grande pesquisa para trazer à tona a personagem, consegue encená-la primorosamente em seus bem definidos três estágios de comportamento: o inicial, sofrido e logo depois, feliz; o central, progressivamente histérico; e o final, agressivo e enfim, calmo. Gregory Anton é encenado pelo francês naturalizado americano Charles Boyer. O ator dá a personagem toda a sua força e orgulho. Consegue nuances românticas e agressividade perversa em questão de segundos, passa do leão que ataca à presa acossada no final do filme, mas sempre com o ar ferino e superior, como na cena final, quando passa algemado pelas empregadas da casa. Brian Cameron recebe fôlego com o excelente Joseph Cotten, o melhor amigo de Orson Welles em Cidadão Kane (1941). Cotten mantém a personificação gentil-inabalável mesmo quando deve ser violento (como na cena em que está com o "vestido de Theodora" nas mãos e revela saber os passos do assassino desde há dez anos). George Cukor tece as relações entre as personagens de forma suave e insere um escape, mesmo mínimo, com o humor negro na "fixação assassina" da Senhora Thwaites, sempre preocupada em saber coisas sobre assassinatos e sobre a vida dos seus vizinhos.


   O filme é claustrofóbico desde o seu início, e a decisão de realizá-lo totalmente em estúdio contribuiu para a sensação de prisão domiciliar. A direção de arte fixou nas paredes e espalhou pelo set toda a sorte de quadros, plantas, papéis, roupas, baús, mesas, cadeiras, tapetes, livros e estantes. Não existem ângulos vazios. Mesmo o cenário "externo": a praça, as ruas ao redor da casa, a feira na Itália, tudo está cheio de elementos que preenchem a lente da câmera.

   Assim também é com os figurinos, e nesse sentido, também se aproximam da atmosfera viscontiana. As mulheres sempre elegantes (mesmo Nancy, a empregada e Elizabeth, a cozinheira), com longas e brilhosas peças, chapéus vitorianos, sombrinhas e jóias. Tudo é demasiado, tudo está abarrotado de coisas: a mente de Paula com várias ideias sobre sua possível loucura, o sótão com toda a antiga mobília da casa e as centenas de coisas da falecida Sra. Alquist, Nancy com seus diversos namorados, o museu da Torre de Londres saturado de peças de tortura, o "vestido de Theodora" totalmente composto pelas lendárias jóias do czar, Gregory com seus diversos planos a fim de arrastar Paula para o hospício. Em uma análise psicanalítica, veríamos retratos do inconsciente, de histeria e uma patologia ou outra.


   Quadro a quadro, a montagem objetiva e inteligente consegue harmonizar os diversos ângulos. Entre um plano médio e outro, alguns close-ups e descritivos planos gerais. Assim, o filme alcança a força leve de uma narrativa bem estruturada. O tempo dos takes é rígido, preciso. Quando necessário mostrar eventos fora da linha central desenvolvida (as saídas noturnas de Gregory e a articulação da investigação de Brian), vemos uma alternância entre planos paralelos e simultâneos. O espectador é condicionado a esperar o "quadro do sofrimento", e quando este aparece, espera ver o que ocorre fora dele. O efeito narrativo alcança sua completude quando as pequenas partes soltas começam a se entrelaçar e o aparentemente inofensivo Brian entra em ação e fixa as intenções sócio-fílmicas e os clichês que faltavam, embora bem trabalhados.

   Joseph Ruttenberg assume com segurança a fotografia da obra. As oscilações da lamparina (o filme se passa em 1875), os flashes de luz do sótão, a sala de estar e o quarto a cada perturbação de Paula, seu rosto, o salão de concertos da amiga da falecida Sra. Alquist, o hotel em Como, o trem, tudo recebe rigorosa inserção de luz, e o efeito plástico obtido, por vezes, é de que realmente tudo faz parte de um devaneio.

   A música é simples, dramática, com alguns belos solos de piano, que acompanham, subserviente, a mise-en-scène.

   O filme tem ritmo interno e externo usados de forma ágil e harmoniosa. Os diálogos não são rebuscados, e não estão presentes nem em demasia, nem em escassez. A película, no entanto, caminha para um pré-definido desfecho, e talvez por isso, tenha sua força artística diminuída, todo o esforço formal-interno rendido aos pés da normas do estúdio-sociedade estadunidense.


   Apesar de esteticamente belo, a forma externa e filme acabado são resultados da Erudita-Cartilha-MGM. Tudo caminha para a vitoriosa defesa de Paula, a boa burguesa oprimida pelo mau burguês. Do meio do filme para frente, o que realmente empolga é a interpretação estonteante de Ingrid Bergman, que não se perde em nenhum momento, ao contrário, na última cena, é mais bela, cruel e frágil do que no filme inteiro.

   À meia luz não é um grande filme. É uma obra mediana, empolgante e de conteúdo forte, bem interpretado e plasmado, mas com o vácuo de um quê auteur, como muita coisa "que tem tudo para ser boa" em Hollywood.


* Artigo originalmente publicado no Cine Revista.

À MEIA LUZ (Gaslight, EUA, 1944).
DireçãoGeorge Cukor.
Elenco: Ingrid Bergman, Charles Boyer, Joseph Cotten, Dame May Whitty, Angela Lansbury, Barbara Everest, Edmund Breon.

FILME BOM. RECOMENDAMOS ASSISTIR.

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