16 de ago de 2011

Noir ou Clássico? Qual é o segredo de Berlim?



por Luiz Santiago


     Se O Segredo de Berlim (2006) constitui-se um filme decepcionante, é porque desde os primeiros minutos de sua projeção, uma enorme promessa se ensaia, porém, ao final, quase nada de surpresa permanece, e somos obrigados a engolir um drama meio noir, meio drama clássico com cada de Casablanca e Alemanha, Ano Zero envoltos numa atmosfera do tipo de O Falcão Maltês. Talvez a descrição negativa e irônica faça o filme parecer pior do que realmente é, mas certamente justifica-se pela apatia gerada no espectador a partir da metade do filme.

     A película é baseada na obra de Joseph Kanon, num roteiro debilmente adaptado por Paul Attanasio, e que é a fonte principal dos tropeços do filme. A história do jornalista americano que vai a Berlim à época da Conferência de Potsdam (Julho/Agosto, 1945), e que, além de encontrar a mulher que amou, percebe-se cercado por uma intriga política digna dos primórdios da Guerra Fria, sugere uma boa trama, ainda mais com os elementos fornecidos pelo autor, focando em cada uma das histórias mais ou menos paralelas um mundo particular, quase desprendido do enredo. Mas é exatamente aí que a adaptação, e depois, a direção, erra o passo. Em dado momento do filme as coisas confundem-se. Não se sabe qual é o foco; se voltamos nosso olhar para as querelas políticas dos EUA x URSS; se atentamos para o domínio soviético na destruída Berlim; se tentamos entender as influências políticas externas à trama ou se juntamos tudo isso para chegarmos a um consenso. Ao juntarmos tudo, temos a terrível constatação de que o filme está repleto de histórias dramaticamente sem importância e que poderiam ser deixadas de lado em prol de um maior desenvolvimento de outro ponto.

     Deixando de lado o excesso de informações e histórias, estamos diante de um filme que não pode, em hipótese alguma, ser descartado. Primeiro porque mesmo que não seja fiel ao noir e nem siga à risca a cartilha do drama clássico (o filme é na verdade um thriller), o próprio dinamismo técnico, e os esforços de Soderbergh para recriar esse mundo do pós-guerra – fazendo uso, inclusive, de cenas de documentários – são um atrativo irresistível, e formam todo aquele aparato encantador que chega a nos prometer demais logo no início do filme. Ainda sobre essas questões, vale dizer que o próprio Soderbergh é o único responsável por elas, uma vez que além de dirigir o filme, ele realizou a fotografia (sob o pseudônimo de Peter Andrews) e a montagem (sob o pseudônimo de Mary Ann Bernard). A maravilhosa trilha sonora é assinada por Thomas Newman, uma trilha muito propícia e de caráter sinfônico até, se levarmos em conta a sua importância nos momentos finais da obra.


     Cate Blanchett e Tobey Maguire são os destaques do filme, muitíssimo bem colocados em suas personagens. George Clooney é sempre ótimo, mas Jake Geismer certamente não é um de seus melhores papéis no cinema, deixando-o apenas dentro da normalidade. O Segredo de Berlim é um filme que por seu forte impacto técnico e por seu fraquíssimo desenvolvimento de enredo gera opostos e conflitantes sentimentos de defesa e acusação ao filme, porém, se considerarmos friamente o todo, entendemos que há mais pecados do que virtudes, sendo a pior delas o vácuo de sentido que paira no ar após o fade-out final.


O SEGREDO DE BERLIM (The Good German, EUA, 2006)
Direção: Steven Soderbergh
Elenco: Jack Thompson, John Roeder, George Clooney, Tobey Maguire, Cate Blachett, Dominc Comperatore, Dave Power, Tony Curran, Ravil Isyanov


FILME BOM. RECOMENDAMOS ASSISTIR.


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