14 de mai de 2011

Alexander Nevsky (1938)



por Erivoneide Barros


     Na história do cinema, a teoria da montagem tem um lugar central, uma vez que essa técnica constitui um elemento da linguagem cinematográfica por excelência. Ao lado dessa teoria, surge o nome do diretor soviético Serguei Eisenstein, responsável por estruturar o conceito (ou os conceitos) de montagem.

     Após o impacto inicial gerado pela descoberta da montagem, muitos críticos viram, na linguagem da montagem, apenas uma leitura estrutural (sintagmática) da obra. É o próprio Eisenstein, em 1937, que reafirma o conceito de montagem e aponta para a sua importância no campo do significado ou do paradigma: dois pedaços de filme de qualquer tipo, colocado juntos, inevitavelmente criam um novo conceito, uma nova qualidade, que surge da justaposição (2002, p. 14).

     Além desse fato, a montagem é responsável por incluir a razão e o sentimento do telespectador no processo criativo, permitindo que o público, assim como o autor, crie uma imagem orgânica e dinâmica da obra. Aqui, vale ressaltar a diferença entre imagem representação.

     A representação é o registro capturado pela câmera. Podemos aproximá-lo do significante linguístico. A imagem é o resultado da justaposição dos elementos capturados, assim ela se realiza na psique do autor e do espectador. Para Ivánov (2009), a passagem da representação do objeto à transmissão do conceito se faz por meio da montagem.

     No início da década de 30, com a chegada e solidificação do cinema sonoro, surge uma nova problemática: como produtivamente relacionar som e imagem. Eisenstein passa a teorizar sobre o problema e escreve, ao lado de Pudovkin e Alexandrov, em 1928, um texto intitulado Sobre o futuro do cinema sonoro. Nele, os autores expõem sua preocupação com o uso fútil dos filmes falados e alertam para um possível retrocesso das conquistas do cinema, sobretudo o efeito causado no público¹.

     Este posicionamento é revisto por Eisenstein em 1940, quando apresenta o conceito de montagem vertical. A montagem vertical surge da relação entre a imagem visual e a imagem sonora, fato que geraria uma imagem única, um conjunto monístico. O diretor soviético usa a relação com a música para ilustrar sua descoberta: em uma orquestra, há uma relação horizontal entre os músicos cuja tarefa é executar um instrumento. Porém a orquestra só se constitui como conjunto no momento em que há a “progressão da linha vertical”, todos os músicos “desenvolvem o movimento complexo e harmônico de toda orquestra” (2002, p.54). O próprio autor apresenta o longa-metragem Alexander Nevsky (1938) como exemplo da relação teórico-prática sobre a montagem vertical.


Outro elemento que compõe a estrutura da montagem vertical é a cor. Da mesma forma que a música conduz o público a uma leitura subjetiva, a cor gera sensações e impressões que induzem a uma percepção singular por parte de cada receptor da obra. Eisenstein afirma que um autor não está preso aos convencionalismos atribuídos às cores, porém a obra “exigirá que a consistência, numa chave de tom-cor definida, permeando toda a obra, deve ser dada por uma estrutura de imagem em estrita harmonia com o tema e a idéia da obra”. (2002, p. 101).

Abaixo apontaremos algumas construções do longa-metragem Alexander Nevsky que exemplifica a proposta de Eisenstein.

A montagem expressiva

     Nos dias atuais, poderíamos classificar Alexander Nevsky como um musical já que a música é um elemento constante, muitas vezes adquirindo fundamental importância na narrativa. A trilha sonora foi criada por Prokofiev. Diretor e maestro mantiveram um diálogo constante durante a realização da montagem a fim de atingirem um conjunto harmônico entre imagem sonora e imagem visual.

     Dessa relação profícua, surgem sequências e planos que marcam a historiografia cinematográfica. Já nos minutos iniciais, belas panorâmicas são acompanhadas de um tom grave que intensificam o peso do trabalho dos pescadores, enaltecendo-o. Lembramos que o príncipe Alexander se apresenta como um pescador. Na mesma sequência, outros trabalhadores cortam com machados troncos para produzirem barcos. O movimento do instrumento de trabalho tem o mesmo ritmo que o conjunto harmônico da música executada.

     Alexander, figura do herói, sempre aparecerá em primeiro plano, superior a outras personagens. As posturas e as falas do herói reforçam a sua importância como representante do povo russo. As repetições de primeiro plano e as mudanças rápidas das sequências constituem o ritmo, outro elemento fundamental ligado à montagem.

Ainda ligado ao ritmo, durante a montagem, temos as repetições de planos que auxiliam o diretor a dar a impressão de um grande número de soldados, como ocorre na sequência em que há o recuo do exercito alemão e os russos continuam atacando com flechas. Existe ainda um outro elemento inovador que aparece muito rapidamente na sequência da batalha final, falamos da câmera subjetiva. Em meio aos combates corporais, a câmera leva o telespectador para o palco de batalha e acabamos envolvidos física e emocionalmente com os combatentes. Outro momento em que isso ocorre, é quando um trabalhador russo proclama “Morte aos inimigos!”, olhando diretamente para o público (câmera).

     Retomando a relação imagem visual e imagem sonora, vemos a cena em que os homens se preparam para a guerra e há um coral masculino ao fundo. A cena visual e sonora muda com a preparação de uma mulher “soldado”. Nesse instante, há um solo musical feminino.

     No famoso plano do gelo, a instabilidade dos soldados alemães sobre os gelos quebrados e o inevitável afogamento de muitos são marcados pelo som de tambores e bateria aumentando e acentuando a agressividade punitiva da sequência.


     Ao retornarem para Pskov, a cidade recebe um cortejo dividido em três etapas: a primeira é formada pela entrada dos mortos que são acompanhados por uma música fúnebre e melancólica; em seguida, há a chegada dos prisioneiros de guerra que recebem uma melodia próxima às músicas circenses e, por fim, há a entrada triunfal de Alexander e seus soldados que é marcada por uma melodia que dá conta desse estado de espírito. Nessa sequência, os sentimentos envolvidos em cada plano são salientados pela trilha sonora.

     A cor também é muito relevante na construção da narrativa. A dualidade vivida entre a Rússia e seus países inimigos é delineada pelo preto e o branco. Na primeira sequência, a brancura, quase estourada, dos elementos que compõem a cena se contrapõem aos objetos escuros da comitiva dos tártaros. Posteriormente, é a vez dos russos assumirem o preto e os alemães, o branco. Sobre essa escolha, Eisenstein declara: “Em Alexander Nevsky, os trajes brancos do teutônico Ritter eram associados aos temas da crueldade, opressão e morte, enquanto a cor preta, ligada aos guerreiros russos, descrevia os temas positivos de heroísmo e patriotismo” (2002, p. 100). Eisenstein salienta que tal transgressão é possível porque o autor não segue nenhuma lei “abrangente de significado”. A ambiguidade com que o autor trata essa questão, em seu texto teórico, deixa-nos impelidos a fazer um levantamento mais apurado sobre essa questão.

Fechamento

Eisenstein garantiu o seu espaço não apenas como diretor, mas como teórico do cinema ao contribuir significativamente com a linguagem cinematográfica, ao buscar elementos próprios do cinema e ao delinear um perfil para a arte cinematográfica.

Ao lado de Grififth, o diretor soviético deixou um legado que foi aperfeiçoado e questionado ao longo da história. Assistir a Eisenstein é ler um material precioso sobre o desenvolvimento da sétima arte.


1 A forma do filme. Trad. Teresa Ottoni. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. p. 225


Referência Bibliográfica

EISENSTEIN, Serguei. O sentido do filme. Trad. Teresa Ottoni. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

IVÁNOV, V. V. Dos diários de Serguei Eisenstein e outros ensaios. Trad. Aurora Fornoni Bernardini e Noé Silva. São Paulo: Edusp, 2010.


ALEXANDER NEVSKI (Aleksandr Nevskiy, URSS, 1938)
Direção: Sergei Eisenstein
Elenco: Nikolai Cherkasov, Nikolai Okhlopkov, Andrei Abrikosov, Dmitriy Orlov, Vasili Novikov, Nikolai Arsky, Varvara Massalitinova, Vera Ivashova, Aleksandra Danilova.


FILME ÓTIMO. É IMPERDÍVEL ASSISTI-LO!

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