5 de mar de 2011

Bem-vindo / Welcome (2009)



por Luiz Santiago


    Em toda a história da humanidade a imigração foi um prolema. Para os que estão em trânsito e para os nativos que os recebem, há a estranheza e o medo do que não conhecem, abrindo espaço para a criação de mitos e preconceitos. Na Europa, a imigração é um “problema” contemporâneo. Em Soul Kitchen, de Fatih Akin, temos o mesmo foco de análise, mas o gênero e a abordagem da imigração é bem diversa. Em Bem-Vindo, a delicadeza da história, a solidariedade e o amor são colunas que não só dão ao filme o patamar de obra-prima mas também toca aos que assistem a película.

     Interpretações contidas e muito precisas, sem dramalhões e desespero, um uso magnífico do som, com uma música recorrente ao piano que imprime a cada cena uma identidade diferente, embora a melodia seja a mesma, e um tema que gerou tanta polêmica em seu lançamento, que acabou impulsionando o Partido Socialista Francês a discutir um projeto de lei chamado “Welcome”, título original do filme. Curdos, árabes, franceses, ingleses, dentre tantos outros povos que imigram ou recebem imigrantes, a história parece repetir-se em um macabro circo de rejeições e dificuldades. Com tanto discurso sobre ajudar ao próximo, é quase inacreditável que haja essa barreira entre as fronteiras do mundo. Uma fala do filme me chamou atenção pelo seu conteúdo reacionário: “Minha função é não transformar esse país em um campo de refugiados”. Como historiador, sou tentado a olhar para o que a história me dá de exemplo com relação a esse tipo de frase. E me lembro de um filme também, O Passo Suspenso da Cegonha, de Theo Angelopoulos, que dirige o seu olhar para a imigração no Leste Europeu e mostra o quão ridícula é a definição do espaço geográfico como propriedade provada de um povo e quem o “invade” deve ter tantas dificuldades para se estabelecer a ponto de morrer ou voltar para o lugar de onde veio.

     Muito além de uma questão de regressão ideológica, Bem-Vindo olhar criticamente para um problema. Concordo que alguns sérios problemas em relação ao tema não foram sequer abordados, e o diretor chega a romancear o fato, seguindo a dupla linha do romance que se põe no filme, e há quem diga que esses romances internos ultrapassam produto fílmico em si. Para mim, além de ser um excelente filme, Bem-Vindo não pretende apenas tocar o espectador com um sentimentalismo barato ou partidarismo piedoso aos fracos e oprimidos. Muito além da solidariedade, o filme expõe um problema, e se não o faz da melhor maneira possível, cabe ao espectador usar o mínimo de crítica possível e se dar conta de que o cinema, assim como qualquer outra arte, ocupa-se de uma representação do real, e nesse sentido, tende a ser unívoco e incompleto. Impossível dar conta de uma totalidade. Mas é possível fazer um recorte de um fato real, e em Bem-Vindo, temos uma ótima versão de como isso pode ser possível na sétima arte.

* Texto dedicado ao meu amigo A. M. Dilek

BEM-VINDO (Welcome, França, 2009).
Direção: Philippe Lioret
Elenco: Vincent Lindon, Firat Ayverdi, Audrey Dana, Derya Ayverdi, Thierry Godard, Selim Akgul, Firat Celik, Murat Subassi, Olivier Rabourdin, Yannick Renier, Moufaq Rushdie.


FILME ÓTIMO. É IMPERDÍVEL ASSISTI-LO!

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