24 de ago de 2010

Soul Kitchen




por Luiz Santiago


     Soul Kitchen (2009), de Fatih Akin, cineasta turco-germano que representa muito bem o atual cinema alemão, satiriza a vida da Hamburgo contemporânea, especialmente a vida dos muitos imigrantes da região, algo que podemos estender para a Europa inteira, e ainda lembrar que a imigração é motivo de preocupação de vários governos no Velho Continente, e alvo da xenofobia dos partidários de ideias de extrema direita, etc.

     O longa conta a história de Zinos Kazantsakis, um jovem grego, dono do restaurante que dá título ao filme, que tem a Caixa de Pandora de sua vida aberta: a namorada está prestes a viajar para Xangai, a Receita Federal passa a extorquir-lhe dinheiro, e um antigo companheiro de escola, interessado no Soul Kitchen, faz de tudo para comprar o estabelecimento de Zinos, mas diante da recusa, começa a fazer falsas denúncias para as autoridades fecharem o espaço. Além disso, Zinos sofre com uma hérnia em estado avançado, e tem que lidar com o irmão em liberdade condicional.

     Fatih Akin acerta na direção e no tom dessa sua primeira comédia. Os atores são visivelmente livres para improvisações e composição solta das personagens, mas no tocante à emoção e psicologia de suas personas, fixam um limite admirável, não empreendem mudanças exorbitantes de emoções. O mais interessante é que cada um dos que estão em cena integram a sua presença à comicidade da outra, de modo que uma longa sequência como a da festa da sobremesa afrodisíaca, por exemplo, além de ser muito engraçada, possui uma interação cênica formidável, e em matéria de cinema, tem um sabor especialmente autoral, já que nada se repete e a muito dinâmica composição dos quadros dá uma enorme fluidez ao que o espectador vê. O filme é um constante trânsito de coisas e pessoas, uma transposição do cotidiano movimentado para a grande tela.



     A periferia de Hamburgo retratada no filme parece uma ilha perdida no tempo, e ainda carrega um ranço dos “anos frios” de RDA x RFA – vide a sequência do leilão, quando Sócrates xinga o comprador do restaurante de “porco capitalista” como se fosse a maior agressão verbal do mundo.

     A apática classe baixa que frequenta o Soul Kitchen é tão ironizada quanto a classe alta que quer destruí-lo, especialmente quando vemos a oposição entre a família rica de Nadine, e a pobreza de Zinos. A juventude que desfila na tela é vista como “perdida no espaço”, não possui um plano de vida, não se sobressai, vive e age anonimamente, sem aspirações e destaque. Um profundo senso de alienação ronda a geração captada por Fatih Akin.

     A fotografia de Rainer Klausmann opta pelo realismo da composição, e tem ares de digital – Akin trabalha, inclusive, com outros formatos de vídeo. O destaque vai para a iluminação das internas noturnas, tanto no Soul Kitchen, quanto nos outros bares que são visitados pelos protagonistas. Os ângulos que captam as cenas também chamam a atenção. O filme parece ser visto de longe por uma terceira pessoa que se põe sempre a um plano geral ou médio de distância, e tem um peculiar olhar para o que se passa.

     Quem conhece o cinema alemão dessa geração que gerou duas fenomenais comédias muito conhecidas por aqui: Corra Lola, Corra (1998) e Adeus, Lênin (2003), e dois filmes históricos de uma qualidade indescritível: A Queda! (2004) e A vida dos outros (2006), sabe que as mentes cinematográficas pós-punk daquela região da Europa não se conformam com o trivial: os filmes estão imersos em uma grande criatividade narrativa, estética e plástica, algo que é mal visto como “virtuosismo barato” por uma ala da crítica (Contra a Parede, 2004, do próprio Fatih Akin é um bom exemplo desse tipo de bombardeio). Soul Kitchen entra para essa lista de filmes notáveis. Apesar de ser uma comédia, a película não esconde o desespero, a importância dada ao dinheiro no mundo contemporâneo, e a fragilidade das relações humanas.



     A trilha sonora do longa é quase uma elevação espiritual. Começando com Rated X e Ricky Burr, e terminando com Disko, o filme é uma passarela de tendências e versões musicais, tendo, além do título sugestivo, personagens músicos que injetam periódicas doses de bom som na veia dramática da película. O uso da música em Soul Kitchen visita diversos patamares de significados: acentua a dramaticidade ou comicidade das sequências, cria a tensão ou distensão psicológica, dá um caráter simbólico à cena (volto ao exemplo da festa com a sobremesa afrodisíaca, e destaco o momento em que os irmãos se abraçam e dançam juntos), aumenta o diminui o ritmo interno-narrativo da montagem. Embora haja poucas sequências silenciosas, a enorme quantidade de sons não oprime o ouvido do espectador, porque a música é usada sempre com um sentido de composição dramática da imagem ou da sequência, não está lá apenas para preencher o espaço deixado pelo roteiro (que, aliás, é muito bom), ou coisa que o valha. Além de lembrar Underground (1995), ou qualquer outro filme de Emir Kusturika, a rica trilha sonora de Soul Kitchen, e seu bom uso cinematográfico lembrou-me um filme que vi recententemente, Tamo i Ovde (2009), de Darko Lungulov, onde a música é praticamente uma personagem à parte, que dialoga com as personagens, embora esse não seja o caso da comédia de Fatih Akin, onde a música é parte da composição cênica, não um à parte que contracena harmoniosamente.

     Ao fim da trama, as dificuldades financeiras e os tropeços de relacionamentos entre imigrantes e autoridades ou entre as próprias personagens resolvem-se temporariamente. O filme termina sem alusões morais, mas traz a esperança em seu bojo: se a vontade de viver e enfrentar as dificuldades for maior que os contras para que o desejo se realize, a via crucis, a “viagem que não chegou ao fim” pode terminar ou fazer uma breve parada na mesa de um restaurante, com um jantar para dois e música sugestiva.



     Com essa música arrebatadora, ótimas atuações, roteiro inteiramente cômico, mas impiedoso, iluminação simples e de “aparência digital”, arte que preza pelo mínimo necessário, montagem criativa e bem cronometrada, e uma direção pontual, que amarra muito bem todas as pontas deixadas pela equipe, essa primeira comédia de Fatih Akin tem um sabor exótico de sátira social com o grotesco quase gratuito da vida. O resultado é um filme que encanta os ouvidos, os olhos, e dá cólicas de rir. Eu ri litros...

  
SOUL KITCHEN (Idem, Alemanha, 2009)
Direção: Fatih Akin.
Elenco Principal: Adam Bousdoukos, Moritz Bleibtreu, Birol Ünel, Anna Bederke, Pheline Roggan.


FILME ÓTIMO. É IMPERDÍVEL ASSISTI-LO!

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