13 de dez de 2010

Anime: Death Note (2006)



por Caroline Ferreira Amaral


O segredo da existência humana consiste não só em viver, mas ainda em encontrar um motivo de viver
Dostoiévski


     Do que é capaz uma pessoa com um poder enorme nas mãos? Quais as consequências de se viver em uma sociedade alienada e reprimida? O que o tédio e a monotonia podem fazer? O fenômeno Death Note foi construído sobre estas questões.

     Death Note nasceu da parceria entre Tsugumi Ohba e Takeshi Obata, roteiro e ilustrações, respectivamente. Brilhante e inovador, acabou retirando o antigo estigma que algumas pessoas possuíam sobre a maioria dos desenhos japoneses.

     Light Yagami (Raito, no original, devido a dificuldade de se pronunciar a letra L no japonês), filho de um chefe de polícia, é um estudante com inteligência acima da média, considerado um dos melhores do Japão. Sua rotina extremamente monótona é quebrada quando ele encontra um caderno que caiu do céu, intitulado Death Note. Entre algumas instruções, aparecia que a pessoa cujo nome fosse escrito morreria. Tentado a testar a veracidade do objeto, o jovem resolve escrever o nome de um criminoso que estava sendo noticiado. Este seria apenas seu primeiro crime. Após a confirmação, aparece a ele Ryuuk, um shinigami ou deus da morte, antigo dono do caderno que o havia lançado no mundo humano somente para sua própria diversão. Light então resolve eliminar todos os criminosos que eram divulgados pela mídia. A polícia e até o FBI logo notam os estranhos acontecimentos, e ele é intitulado de Kira, fonema da palavra killer. Entre Raito e seu objetivo de ser o deus do novo mundo aparece o misterioso L, o melhor detetive do mundo, que promete descobrir sua identidade e capturá-lo.


     O aparecimento de um inimigo com capacidade analítica páreo a do jovem Yagami gera diversos momentos de tensão. L ganhou bastante destaque devido ao enigma que é sua personalidade. Jovem, apaixonado por doces e com aparência desleixada, ele surpreende ao se aproximar de Raito quando este é o maior suspeito, e quem, estranhamente, passa a considerar como o único amigo que já teve.

     Baseada no terror, principalmente psicológico, a série está repleta de raciocínio lógico, reservando novos personagens e acontecimentos inesperados.

     O anime foi lançado em 2006 pelo estúdio Mad House, que com direção de Tetsurou Araki, que fez uma belíssima adaptação do mangá. A qualidade da animação apresentada é muito acima das outras produções, podendo até mesmo ser comparada com filmes de animação. Um dos pontos fortes foi a colorização, capaz de introduzir o espectador na atmosfera específica de cada cena.

     A abertura e o encerramento, tanto o cantado pela banda Nightmare quanto pelo Maximum the Hormone, são extremamente viciantes, assim como toda a trilha sonora. Algumas das canções foram compostas especialmente para o anime por Hideki Taniuchi, que já fez trilha sonora de outros animes. Uma característica interessante é o contraste entre cenas de terror e muita tensão e música clássica.

     Desde o início da série nos deparamos com a ausência da típica relação herói e vilão dos shonen. Raito e L integram uma relação de protagonista versus antagonista, já que nenhum dos dois possui exatamente um bom caráter. Raito é um estudante exemplar, mas esconde sua personalidade sociopata, que englobam falsidade, cinismo, capacidade de manipular pessoas a seu favor colocando-as em risco, assim como fez com seu próprio pai e com Misa (sua namorada), e a incapacidade de manter uma relação leal e duradoura, sendo que ele prometeu amar Misa até o fim da vida dela, que foi reduzida pela metade devido ao pacto dos olhos de shinigami, e mesmo assim a traiu com Takada. L é frio, capaz de sequestrar e torturar pessoas (como fez com Misa), não se importando que ocorram mortes, contanto que estas lhe forneçam uma pista sobre a identidade do seu suspeito. Assim como todo o ciclo dos personagens principais, são frios e calculistas, e tem suas personalidades facilmente decifráveis devido as cores que os representam nas cenas que revelam seu estado interior. Light tem toda sua agressividade e desejo de poder representado pelo vermelho. L é representado pelo azul, cor do pensamento, compreensão e raciocínio. Near é representado pelo verde, que representa vigor e juventude, talvez por ser o mais jovem dos envolvidos nesse ciclo de personagens ligado a lógica e raciocínio. Teru é representado pelo roxo, que transmite tristeza e respeito, algo que pode ser notado pelo histórico da personagem, que tem uma vida extremamente regrada e que nunca teve um propósito e sua fidelidade por aquele que ele considera Deus.

     A simbologia das cores não é a única empregada durante a série. Um dos elementos mais presentes é a maçã. Esta pode representar o desejo por poder buscado pelo personagem principal desde o início, mas também representa o pecado, já que na maioria das vezes está ligada a Ryuuk, que possui uma certa obsessão pelo fruto.

     A ausência de fillers, os temidos episódios de enrolação, faz com que a história seja ágil, tomando um ritmo cada vez mais alucinante, com sequências lógicas cada vez mais rápidas. Mesmo com a interrupção da narrativa e a passagem de tempo após a morte de L, os fãs não foram deixados inertes a uma enxurrada de fatos desconhecidos como costuma acontecer. Mais uma vez, Ohba mostrou-se muito coerente na construção do roteiro.



     Death Note traz indagações sobre a moral, o que é certo ou errado e quem deveria punir a pessoas. Também revela as possíveis consequências de uma sociedade extremamente reprimida. Talvez devido a esses elementos, essa trama seja tão intrigante e tenha conquistado tantos fãs ao redor do mundo.


DEATH NOTE (Japão, 2006).
Direção: Tetsurou Araki.

ANIME ÓTIMO. É IMPERDÍVEL ASSISTI-LO!

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