27 de fev de 2011

O Sonho do Soldado



por Luiz Santiago


     O cinema de Aleksandr Sokúrov é puro sonho, arte e poesia. Suas obras transitam entre o escrupuloso visual e a captação da identidade russa através de ângulos praticamente impossíveis, em filmes definitivamente transformadores. Dentre os temas recorrentes na filmografia do diretor, encontramos a guerra, o sonho, a morte e as relações familiares – além, claro, da abordagem histórica, mnemônica e cronológica (tendo nesse aspecto uma particular tendência a mostrar a passagem do tempo na tela).


     O Sonho do Soldado, documentário em curta-metragem feito especialmente para integrar o terceiro episódio de Vozes Espirituais (1995), é uma pequena demonstração do “cinema etéreo” realizado por Sokúrov, trazendo não só o uso não-realista da cor, a aplicação estética da música e a manipulação perceptiva da imagem, mas também uma fuga em meio à guerra. Trata-se do estranho sonho de um soldado que luta na fronteira do Afeganistão com o Tadjiquistão. Tanto o cenário quanto os temas que se evidenciam no filme demonstram uma completa interação do indivíduo com o espaço bélico. O sonho revela a liberdade, mas não longe dos tanques de guerra, da base militar ou dos tiros das metralhadoras. Ao que parece, a guerra dá mais sentido à vida desses soldados do que a paz quase bucólica mostrada na abertura de Vozes Espirituais.

     No entanto, em meio a esse mundo onírico pontuado pela guerra, uma segunda fuga se revela, e talvez insinue a morte, a alma, o sentido artístico e humano do soldado fora do estado de vigília. A aparição do anjo em um quadro do filme, é inquestionavelmente uma representação cifrada do inconsciente, mas seu significado pleno nos escapa. O filme cerca o indivíduo em seu território de guerra, mas não nos dá pistas sobre sua personalidade ou vida fora daquele espaço. O curta fecha-se no sonho, plasma o momento em que um combatente é substituído por outra realidade que não a de sobrevivência.


     Como em quase todos os filmes dirigidos por Sokúrov, é difícil descrever exatamente a atmosfera e a sensação que a obra causa no espectador. A sensibilidade e a poesia misturam-se às críticas indicações da realidade, nossa percepção do mundo onírico e da guerra são reformuladas, e parece que todas as questões existencialistas saltam das nuvens da última cena para o nosso pensamento. Ao terminar o filme, pouco se sabe dizer a respeito. O que fica na mente do espectador é o conjunto de imagens-enigma expostas durante os doze minutos de projeção.


O SONHO DO SOLDADO (Soldatskiy Son, Rússia, 1995)
Direção: Aleksandr Sokúrov
Elenco: Soldados russos


FILME MUITO BOM. FORTEMENTE RECOMENDADO.

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