11 de dez de 2011

Sonata para Hitler (1979 - 1989)



por Luiz Santiago

          Em um curta metragem de dez minutos, o cineasta e historiador Aleksandr Sokúrov discursa com imagens de Hitler e momentos da Segunda Guerra Mundial, ao som de Bach e Penderecki. Sonata Para Hitler é um filme de 1979, realizado com material soviético sobre a Segunda Guerra destinado à destruição, mas passou uma década proibido na URSS, sendo lançado oficialmente apenas em 1989. O filme trabalha com a oposição dialética de imagens de crianças, multidões, cidades destruídas, e pequenos filmes de Hitler discursando, de trabalhadores de fábricas, comícios e vida cotidiana.

          O filme passa bem longe de uma obra prima de Sokúrov, mas tem o seu valor como material histórico, e como passo inicial para uma discussão sobre o tema. Sokúrov trabalhava pela primeira vez com a figura do ditador alemão, e já aqui, vemos a indicação de uma “abordagem de bastidores”, que o cineasta tomaria como foco central em Moloch (1999).

          Um certo caráter ficcional perfila o documentário, e mesmo quando olhamos para esses registros de época, eles aparecem insossos demais para serem “reais”, de modo que tomamos aquilo como ficção mal feita, o que faz diminuir bastante a nossa simpatia para com o filme. Acrescenta-se aí a estranheza causada pelo estilo hipermidiático tão caro ao diretor, e a sua caótica edição de som, que num sentido dramático condiz com o filme, mas por outro lado incomoda o espectador, isso no sentido negativo do “incômodo” cinematográfico”.


          O filme não é descartável, mas não entra para a categoria dos essenciais na filmografia de Sokúrov. De qualquer modo, trata-se de uma película histórica sobre um dos grandes inimigos da URSS. É muitíssimo estranho o filme ter sido proibido por dez anos no país; talvez porque a figura social e política ali tratadas se assemelhassem muito à figura de Leonid Brejnev e da União Soviética à época.

          A “História” ganha ares de “estória” em Sonata para Hitler. Através de diversas exposições ideológicas e pequenas metáforas visuais, Sokúrov nos apresenta quase didaticamente os efeitos causados pelo comportamento de um homem e de um povo, e ao mesmo tempo, o lado humano, frágil e pessoal de cada um desses atores históricos, reafirmando sua abordagem humanista no cinema. A intenção do curta é nos fazer pensar que nem só de poder, aço e força é feita uma guerra, formada uma ideologia e construído um país. Por mais contraditórias e abjetas que sejam as personalidades governamentais, elas possuem as fraquezas de sua espécie.

* Este texto faz parte do Especial cinema russo: 20 anos sem socialismo


SONATA PARA HITLER (Sonata Dlya Glitera, URSS, 1979 - 1989).
Direção: Aleksandr Sokúrov
Elenco: Adolf Hitler (material de arquivo).

FILME BOM. RECOMENDAMOS ASSISTIR.

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