18 de nov de 2011

Vozes Espirituais – Parte V (1995)



por Luiz Santiago


          Um nostálgico clima de despedida e lembranças marca o encerramento do documentário Vozes Espirituais. Quatro horas depois do início do filme, chegamos à parte final como quem observa o fim de uma longa jornada pela sobrevivência e pelo domínio de um território estranho, numa guerra sem sentido. O Tadjiquistão é citado algumas vezes pelos soldados, e um visível tom de amargura e ironia marca esses diálogos sobre a conquista da terra inimiga.

          Diferente dos episódios anteriores, a quinta parte de Vozes Espirituais foca-se muito nas filmagens em internas. O episódio é o passar do dia 31 de dezembro de 1994 para a madrugada e a manhã de 1º de janeiro de 1995. Sokúrov e sua equipe (dessa vez, tendo como fotógrafo Aleksei Fedorov e não Aleksandr Borov, como nos episódios anteriores) percorrem as trincheiras e os acampamentos, observando a rotina diária e registrando a comemoração do ano novo. Não fosse o ambiente, diríamos que não existia guerra. Não há indícios de disputa. A noite é fria e calma. Essas características servem para dar sustentação às emoções causadas no espectador nesse episódio. Entre cigarros, champanhe, jantar entre os companheiros, e um soldado vestido de Papai Noel à sua maneira, entregando presente aos amigos que vigiam um ponto do acampamento, temos o melhor e o mais humano episódio do filme.

          Ao fazer uso de pontos do cenário para a ligação entre as cenas, a montadora Leda Semyonova logrou criar uma atmosfera ainda mais interessante. O uso de fades entre os takes não são gratuitos, todos se apresentam como elos visuais à cena seguinte. Igualmente bem realizada é a mixagem e a edição de som. Como é de costume nos filmes de Sokúrov, temos os sons da natureza misturados com ruídos humanos e a trilha sonora. Ao invés de um desagradável resultado final, as cenas tornam-se completas com essa variedade de sons e música. No caso desse quinto episódio, a completude acontece também no contexto geral do filme, porque temos aqui uma espécie de retorno a todos os conflitos principais dos episódios anteriores, mas desta feita, a sua conclusão. Exceto pela guerra, que não parece dar sinais de terminar, o desenvolver do episódio fixa cada vez mais o tom de despedida, que realmente acontece, quando Sokúrov, Moshkov e Fedorov despedem-se dos soldados nas trincheiras e descem a montanha para partir no dia seguinte rumo a São Petersburgo. A reflexão aqui está repleta de pesar pelos que ficam.


          É possível contar nos dedos quantos documentários de guerra conseguem abordar com distintos pontos de vista (espiritual, físico, técnico, impessoal, humano) uma campanha militar por um longo período, como Sokúrov faz em Vozes Espirituais. Ao final da quinta parte, uma estranha alegria, vinda da beleza da imagem parece nos indicar que tudo estará bem em pouco tempo. A Rússia espera os seus homens voltarem da guerra. Em análise, percebemos que essa felicidade e a possibilidade do retorno imediato é apenas um sonho.

          A última narração nos diz que “Não há alma naquela terra fria”. A metáfora pode ser aplicada à situação dos soldados em guerra. Não apenas a guerra que esses russos enfrentavam no Tadjiquistão, mas em todas as guerras da história. A solidão, a culpa e a obrigação de cumprir um dever, são os ingredientes da vida de um soldado. Vozes Espirituais é exatamente isso: um raio X das emoções desses homens treinados para serem impiedosos. Em filmes posteriores (especialmente em Obediência e Alexandra), Sokúrov voltaria a falar da guerra, do isolamento humano e dos limites políticos entre o Ser e a Práxis político-social, o dever imposto por um cargo, uma nacionalidade. A conotação política em Vozes Espirituais é apenas sugerida, quase imperceptível. O principal objetivo do filme é mostrar como algo tão ruim como a guerra pode mudar a vida daqueles que a integra, e como cada um desses soldados enfrenta a selvageria de sua profissão com a humanidade que lhe resta.


VOZES ESPIRITUAIS – 5ª Parte (Dukhovnye Golosa, Rússia, 1995)
Direção: Aleksandr Sokúrov
Câmera: Aleksei Fedorov
Som: Sergei Moshkov
Música: Toru Takemitsu
Elenco: Soldados russos, Aleksandr Sokúrov (narrador).


AVALIAÇÃO DESSA PARTE DO FILME: ÓTIMO.

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