19 de jul de 2011

O Cinema Poético



por Erivoneide Barros
Mestranda em Cinema, Psicopedagoga e Pesquisadora do Laboratório de Estudos Russos (LERUSS) e do Projeto Sergei Esenstein XXI



A imagem vista conservava e desenvolvia alguma coisa natural, encarregava-se do aspecto natural das coisas e dos seres”.
Deleuze


Aristóteles, ao escrever sua Poética, deixa entrever em seu texto a ligação entre o termo poética e a elaboração do poema realizada pelo poeta. De acordo com o autor (2006), chama-se corretamente de poeta aquele que além de escrever em versos é capaz de servir-se do metro adequadamente. O metro ou metrificação, na poesia clássica, está ligado ao ritmo, ou seja, constitui a cadência melódica assumida por cada verso e seu conjunto que forma o poema.

Não por acaso, Berrio & Fernández afirmam que o termo Poética deriva da palavra grega poiein e “significa fazer ou produzir”, e acrescentam que “com esse termo Aristóteles queria representar a particularidade do discurso artístico para construir modelos da realidade como a mimese ou imitação” (1999, p. 3). Desse modo, o trabalho poético estaria relacionado à capacidade do poeta de utilizar o discurso verbal para evocar o campo do imaginário e sentimental de seus leitores.

No Dicionário Houaiss da língua portuguesa, encontramos a seguinte definição para poética: 1 arte de fazer versos 2 teoria ou estudo sobre os vários tipos de versos 3 estudo ou tratado sobre a poesia ou estética [...]. Notamos que se mantém a ligação entre o termo e o trabalho realizado pelo poeta.

O termo lírica vem da poesia clássica. Denominava-se lírica a poesia que era feita para ser cantada ou acompanhada pela lira. Em geral, os poemas líricos apresentavam temas subjetivos, tais como a revelação de sentimentos ou percepções. Assim, vemos que, embora, ao longo da história literária, os termos lírico e poético tenham se confundido, tratam-se de dois elementos distintos.

Como assinala Berrio & Fernández (1999), o valor poético de um texto estaria nas combinações imprevisíveis e na quebra das convencionalizações da forma literária. O texto dotado de poeticidade seria aquele em que o poeta rompe com a possibilidade meramente retórica do discurso, para atingir a construção de imagens que estimulam os sentidos do leitor.

A subjetividade perpassa os elementos constituintes da poética, mas não os determina. Ousamos dizer que é a poética que reelabora a subjetividade e a transforma em obra de arte.


Na arte literária, a poética está ancorada no trabalho que o poeta realiza com a estrutura verbal para alcançar um determinado objetivo. O poeta transforma a palavra (signo) em imagem (ícone), potencializando o seu efeito sobre o leitor. Décio Pignatari afirma:

O poeta é um ser de linguagem. O poeta faz linguagem, fazendo poema. Está sempre criando e recriando a linguagem. Vale dizer: está sempre criando o mundo. Para ele, a linguagem é um ser vivo. O poeta é radical (do latim, radix, radicis = raiz): ele trabalha as raízes da linguagem. Com isso, o mundo da linguagem e a linguagem do mundo ganham troncos, ramos, flores e frutos. É por isso que um poema parece falar de tudo e de nada, ao mesmo tempo. (2005, p. 11)

Na linguagem cinematográfica, a poética emerge dos elementos específicos do cinema, tais como a música, a concepção das imagens, a manipulação do tempo impresso nas películas e, por conseguinte, o ritmo. Ismail Xavier afirma que para haver uma imagem poética “é preciso que ela se organize de modo a explorar as ‘revelações’ vindas de cada relação câmera/objeto”, a fim de que a narração explore a interioridade do encadeamento dos eventos. Nesse ponto, vemos que apenas assinalar belas cenas como sendo poéticas diminui a importância que tal elaboração adquiriu no cinema.

O cineasta alcança a poeticidade no cinema quando atinge duas características, como propõe Octávio Paz. A primeira engloba a consciência do artista de levar o suporte de seu objeto artístico a ser o que de fato é. No nosso meio de estudo, podemos verificar que os cineastas que se aventuraram na busca da poética tinham plena consciência do potencial do cinema como arte e mantiveram uma postura de críticos e exploradores de seu material de trabalho.

Em segundo lugar, o artista deve evitar o utilitarismo que, muitas vezes, pode recair sobre o objeto artístico, a fim de que este se torne um “objeto peculiar de comunicação” e permita aos espectadores uma experiência única. Por isso, Tarkóvski, em seu Esculpir o tempo (1998), diz que “a função específica da arte não é, como comumente se imagina, expor idéias, difundir concepções ou servir de exemplo. O objetivo da arte é preparar uma pessoa para a morte, arar e cultivar sua alma, tornando-a capaz de voltar-se para o bem”.

Desse modo, o valor poético de um filme surge da habilidade do cineasta para trabalhar os elementos próprios da linguagem cinematográfica, provocando uma experiência transformadora em quem a vivencia.

Como exemplo de obras do cinema que podemos considerá-las poéticas, estão os filmes de Ingmar Bergman, Andriêi tarkóvski, Paradjanov, Sokúrov entre outros que souberam como ninguém explorar as potencialidades da linguagem cinematográfica.



Bibliografia:

BERRIO, Antonio García; FERNÁNDEZ, Teresa Hernández. Poética: tradição e modernidade. Tradução por Denise Radanovic. São Paulo: Littera Mundi, 1999.

PAZ, Octávio. O arco e a lira. 2. ed. Tradução por Olga Savary. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.

PIGNATARI, Décio. O que é comunicação poética. 9. ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2005.

TARKÓVSKI, Andriêi. Esculpir o tempo. Tradução por Jefferson Luiz Camargo. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

XAVIER, Ismail. O discurso cinematográfico. 4. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2008.

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