2 de abr de 2011

Carmen de Carlos Saura



por Nelson Lopes Rodrigues


     O objetivo desse texto é muito difícil. Pensei comigo mesmo: “como dar uma imagem filosófica ao filme Carmem de Carlos Saura”? E ainda, com considerável pertinência: situar a noção de dança na obra de Carlos Saura tendo como pano de fundo a filosofia e a paidéia grega, para tanto, encontrei em Nietzsche, um mestre da polêmica, o mais poético dos filósofos, pois, sabemos que o mesmo deu grande importância à dança identificando o homem de “espírito livre” como “aquele que dança”.

     “Eu só poderia acreditar em um Deus que soubesse Dançar” (Nietzsche). Essa frase de impacto não se trata apenas de uma frase de efeito, é mais, se trata de um direcionamento filosófico por via da estética por uma visão dionisíaca do mundo. E é o que me parece no filmes de Carlos Saura, uma manifestação de um espírito livre, um caminho estético conceitual da Dança e da música Bizet. Quando assistimos a Carmem percebemos que, a dança representa a opera em todo seu explendor, talvez ainda mais que a própria palavra. A história de um grupo de teatro que tenta realizar um espetáculo baseado na obra Carmem de Bizet, mas, o real interage com a fantasia, e a história de amor, paixão e violência se repete. Em Assim Falou Zaratustra o filósofo entende a dança como uma celebração que aproxima o homem com o divino. Zaratustra diz:

Sou advogado de Deus ante o diabo, e o diabo é o espírito da gravidade. Como ó! Vaporosas! Poderia eu ser inimigo das danças divinas ou dos pés juvenis de lindos tornozelos. (NIETZSCHE, p.81).



     Na obra de Saura, presenciamos o esplendor do movimento corporal. Assim como em Tango, Carmem de Bizet-Saura concretizam o sonho grego de Dionísio. O corpo é seu protagonista, a vontade, o motor propulsor dos músculos. Não é uma obra racional, pelo contrário, é vigoroso, visceral e instintivo, não é a toa que Nietzsche assistiu a apresentação de Carmem na França e testemunhou a opera conceitual de Bizet considerando-a uma obra que conseguia traduzir com sinceridade a alma humana, a paixão, a violência, e alegria de viver, o filme Carmem não é apenas película, mas, todas as obras juntas, é poesia em movimento, é metalinguagem, é o corpo que expressa seu desejo de criação e destruição do sujeito.

     Assim como os gregos, a obra de Saura parece celebrar a vida em todo seu vigor, rebeldia juvenil e esplendor. Estamos no âmbito de uma dança dionisíaca e profética, onde a música apenas anuncia os movimentos do ator-dançarino-poeta, pois este reescreve com o corpo a música da obra. Na Grécia arcaica, as festas eram celebradas em homenagem a Dionísio, e tinham como um dos elementos centrais a dança que em conjunto com a embriaguez ao som da flauta eram os elementos centrais do estado de “embriaguez divina”. A música, caracterizada pelo coro ditirâmbico, era a expressão da coletividade que encontrava eco na dança. A dança que Nietzsche nos apresenta era uma manifestação do espírito e não da mente racional do seguidores de Sócrates.

Dei a entender de que modo Sócrates fascina; parece um médico, um salvador. Será preciso mostrar o erro que sua crença na “razão a todo curso” continha? Enganam-se a si mesmo os moralistas e os filósofos ao imaginarem não sair da decadência fazendo-lhe guerra. Escapar dela é impossível, e o remédio que escolhem, o que consideram meio de salvação, é apenas outra manifestação de decadência; tão somente mudam sua forma de expressão, contudo não a suprimem. O caso de Sócrates representa um erro; toda a moral de aperfeiçoamento, inclusive a moral cristã, foi um erro. Buscar a luz mais viva, a razão a todo preço, a vida clara, fria, prudente, consciente, despojada de instintos e em conflito com eles, foi somente uma enfermidade, uma nova enfermidade, e de maneira alguma um retorno à virtude, à saúde, à felicidade. Ver-se obrigado a combater os instintos é a fórmula da decadência, enquanto que na vida ascendente, felicidade e instinto são idênticos. (Nietzsche, 1976, p. 22).



     Sua tese sobre a derrocada dos valores vitalistas da cultura grega, evidenciadas esteticamente pelo nascimento da tragédia, a destituição do coro ditirâmbico, sendo substituído por um coro e em complemento à função do solista é uma forma de normalização da potência criativa e coletiva da estética grega dionisíaca. Esta força plástica da vontade se expressa com vitalidade na obra dionisíaca de Carlos Saura, não é um filme para músicos, ou para atores, mas, para aqueles que enxergam na opera e na dança expressões do divino.


Nelson Lopes Rodrigues é convidado especial do CINEBULIÇÃO para o encerramento do Especial Diretor do Mês - Março/2011.


Esse artigo faz parte do Especial Diretor do Mês – Março/2011: Carlos Saura


Referências:

NIETZSCHE. Assim Falou Zaratustra. Tradução de Eduardo Nunes Fonseca. Editora Hemus
NIETZSCHE. Crepúsculo dos Ídolos ou a Filosofia a Golpes de Martelo. Tradução Edson Bini e
Márcio Pugliesi. São Paulo: Hemus, 1976.


CARMEN (Espanha, 1983).
Direção: Carlos Saura
Elenco: Antonio Gades, Laura del Sol, Paco de Lucía, Marisol, Cristina Hoyos, Juan Antonio Jiménez, José Yepes, Sebastián Moreno, Gómez de Jerez.

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