16 de dez de 2010

O Efeito Contrário



por Luiz Santiago


     Exibido na 29ª Bienal de São Paulo, o curta-metragem O Efeito Contrário (2008), do cineasta lituano Deimantas Narkevičius, expõe a catastrófica possibilidade de um ataque nuclear mútuo entre Oriente e Ocidente, no decorrer da Guerra Fria.

     O filme começa com fotografias de bases de mísseis instalados na Lituânia (antiga República Soviética), com projéteis apontados para o oeste. Segue-se um detalhado processo de autorização para o lançamento oficial da arma. O bunker ocupado pela base do Exército lituano serve como abrigo em caso de contra-ataque, mas o resultado final é a destruição de toda a localidade.

     Narkevičius trabalha com ampla linguagem artística, indo da fotografia ao fotograma, fazendo alterações e interferindo na memória histórica de seu país – principalmente nesse impasse político-bélico que foi a corrida armamentista e a atmosfera da Mutually Assured Destruction (M.A.D.), surgidas com a Guerra Fria em 1947. Ao invés de realizar um curta que parecesse documentário, o diretor mesclou a ficção do lançamento de um míssil a imagens e contexto histórico reais – sua arte não diferencia a criação da realidade histórica através da mídia (nesse caso, o audiovisual).

     O filme de Narkevičius também dialoga com a poética da imagem de Andrei Tarkóvski, e mesmo o uso de fotografias, escrupulosos ângulos e montagem quase arquitetônica assemelham-se muito aos “filmes de guerra” do diretor russo – como A Infância de Ivan (1962) e O Espelho (1975). A diferença entre ambos está no uso do tempo fílmico e o modo como adulteram a realidade histórica e usam-na em suas tramas fictícias.


     Nesse perverso jogo de ataque e contra-ataque nuclear, a matéria retorcida domina a paisagem atingida. O trabalho poético realizado pelo cineasta na parte final do curta, é, ao mesmo tempo, belo e inquietante. Os planos sobre concretos, ferragens retorcidas, água parada e ausência de som mecânico, aludem ao extermínio pleno da vida humana naquele local, o ponto de partida para a catástrofe. E é então que o título da obra entra com uma indagação implícita: existiria algum tipo de ataque (qualquer tipo) se o agressor imaginasse a devastação que pretende causar no outro, em seu próprio território?

     A ligação do homem com a natureza (fator recorrente no cinema da região do leste europeu, península escandinava, e Oriente com como um todo) é também trabalhada, inclusive, com um plano frontal elegíaco em uma árvore com um pássaro ao entardecer – uma incursão natural completamente oposta à temática central do filme, mas que é recorrente na obras das regiões citadas, dentro do “enxergar a natureza como parte indissociável da minha humanidade”¹.

     O Efeito Contrário é um filme sobre uma possibilidade historicamente superada (o contexto da Guerra Fria), mas contemporaneamente pertinente – em meio às armas e indústrias de guerra do nosso início de século. Lacônico, crítico, poético, o curta-metragem de Deimantas Narkevičius é daquelas obras que você vê uma, duas, três vezes, e termina assim, como a chuva que ouvimos cair após o fade-out final do filme.


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1 – Quando escrevi sobre Brumas de Outono, do estoniano Dimitri Kirsandoff, eu trabalhei com mais propriedade essas questões.


O EFEITO CONTRÁRIO (The dud effect, Lituânia, 2008).
Direção: Deimantas Narkevičius.

FILME MUITO BOM. FORTEMENTE RECOMENDADO.

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