12 de dez de 2010

Dr. Fantástico



por Renato Cordeiro


     Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o mundo se viu em pouco tempo dentro de uma nova batalha envolvendo as potências globais. Entretanto, dessa vez não havia um enfrentamento direto, mas sim a maior disputa ideológica do século XX. De um lado, defendendo os ideais republicanos, liberais e do livre comércio Capitalista, estava os Estados Unidos. Do outro se assentava a União Soviética, que pregava o fim da propriedade dos meios de produção e a planificação econômica baseado nas ideias Comunistas.

     Enquanto os países se alinhavam entre os dois novos “mundos” surgidos, criava-se um crescente clima de instabilidade. Depois de 1949, os líderes dos dois blocos principais detinham as armas que, sozinhas, eram suficientes para varrer a existência humana da Terra. Esse grande medo que acometia a sociedade das décadas de 1950, 1960 e 1970 chegaria ao ápice em 16 de Outubro de 1962, quando o governo dos EUA revelaria mapas e fotos de bases de mísseis nucleares em Cuba, ilha caribenha que passara por uma revolução socialista.

     Aproveitando-se desse contexto de Guerra Fria (quando ambas as potências se ameaçavam, mas não entravam numa guerra direta), o diretor Stanley Kubrick (de Spartacus, 1960, e de Lolita, 1962) une-se com Terry Southern e Peter George para produzir o roteiro de Dr. Fantástico (Dr. Strangelove), baseando-se no livro homônimo de Peter George. O filme estreia em 1964 e se torna um dos grandes sucessos de Kubrick, sendo considerado até hoje como um dos símbolos do humor negro no cinema.

     Logo no início do filme, Kubrick faz referência a várias partes que compõem o enredo do filme. Na primeira cena, há dois aviões fazendo um reabastecimento aéreo. O primeiro deles estende um cano que chega até o tanque do outro, bombeando combustível para que este não tenha que pousar. O avião mostrado é um B52, famoso bombardeiro da aeronáutica norte-americana e que servia de transporte para bombas nucleares.

     A prática mostrada nesse trecho era recorrente durante as décadas mais acirradas da Guerra Fria. O exército dos Estados Unidos mantinha os B52 voando sem parar no espaço aéreo dos países do bloco capitalista (como os da Europa Ocidental), prontos para realizar qualquer missão de bombardeamento dentro do território soviético. Dessa maneira, eles mantinham protegida a “cortina de ferro” que separava o Primeiro e o Segundo mundo.

    Outra referência desta cena é uma correlação com o assunto que cria o problema da estória. O General Jack D. Ripper (Sterling Hayden) tem problemas de ereção enquanto tinha relações sexuais. Para justificar o acontecido, ele cria uma explicação: os soviéticos estariam utilizando a fluoração da água (um dos métodos mais comuns de tratamento) para espalhar uma substância química que causaria impotência nos homens. Com isso, a população dos EUA diminuiria, já que não haveria novos nascimentos, e os comunistas se tornariam maioria.

     Assim, a cena da aproximação e conexão dos aviões simboliza o ato sexual, fator que gerou os problemas do General Ripper. Para reagir contra a “ameaça soviética”, Ripper usa o poder da alta patente dele e fecha a base militar que comandava, mandando que os soldados atacassem qualquer um que se aproximasse. Além disso, ordena que os B52 realizem um ataque dentro da URSS, destruindo os alvos pré-determinados nos planos criptografados guardados dentro de todas as aeronaves.


     Quando o plano é descoberto, o governo convoca uma reunião emergencial na sala de guerra do Pentágono. Nele, encontram-se vários membros do alto comando do Exército, o presidente Merkin Muffley (interpretado por Peter Sallers) e o General "Buck" Turgidson (estrelado por George C. Escott), que era o responsável superior por Rippers. Estes tentam decidir como fazer os aviões retornarem, uma vez que os B52 haviam desligado os rádios, evitando que os soviéticos lhes enviassem alguma mensagem falsa.

     Com o intuito de deter Rippers, o presidente envia uma tropa para invadir a base militar dele a qualquer custo. Além disso, o embaixador soviético Alexi de Sadesky é chamado até a sala de guerra para tomar consciência da situação e telefonar para um membro do alto escalão soviético. Nesse ponto, Alexi fala sobre a “Arma do Juízo Final”, situada num dos quartéis no território russo e que tinha poder para exterminar toda a humanidade.

     A existência de uma única arma com tal poder destrutivo (ao menos usada individualmente) nunca ocorreu na realidade. Porém, esse era um dos grandes temores que cercava a mente das pessoas desse período, sobretudo depois da crise dos mísseis em Cuba, na qual a Terra se viu realmente às margens de uma guerra nuclear. Assim como os EUA, a URSS tinha grande potencial tecnológico militar, desenvolvido como parte da corrida armamentista travada entre eles, e que era potencialmente perigoso.

     Por esse motivo, de ambos os lados, ocorria uma grande paranóia em torno do que o inimigo poderia planejar e executar. Este motivo foi o que desencadeou o crescimento da espionagem mútua entre os blocos (principalmente entre CIA e KGB), que buscavam descobrir informações secretas sobre os rivais. No próprio filme, o Embaixador soviético é acusado pelo General Buck de fotografar a parte interna da sala de guerra, algo que daria aos russos preciosas informações sobre a tecnologia deles.

     Além da espionagem, essas organizações de inteligência costumavam se aliar a centros de pesquisas para testar novas tecnologias e substâncias químicas que poderiam ser usadas contra o outro lado. Igualmente, a mídia era constantemente empregada como instrumento para divulgar informações que pudessem demonstrar como a ideologia de um era melhor que a outra. Assim, em certos casos, até dados e notícias eram modificados para corromper a imagem comunista (no caso dos EUA) ou capitalista (no lado da URSS) dentro das próprias fronteiras de cada um.

     Finalmente, o presidente Muffley consegue ligar para o cônsul soviético, por quem chama de Dmitri. Ele, então, começa a contar sobre a situação que ocorreu, afirmando que eles não tinham intenção de atacar o país deles. Pela gravidade da situação e por tudo que ela poderia implicar, o presidente norte-americano autoriza Dmitri a mandar a força aérea russa abater os B52 se necessário. Contudo, esse diálogo não deixa de tomar um tom de comédia, já que Dmitri estava extremamente bêbado.

     Quando a unidade mandada consegue entrar na base militar, ocorre um problema. Enquanto estavam sendo atacados, o General Ripper era tranquilizado pelo major inglês em intercâmbio Lionel Mandrake (que também era interpretado por Peter Sallers). Entretanto, Rippers se mata antes de Mandrake e o exército da presidente conseguirem recuperar o código de acesso para mandarem os aviões retornarem.

     Porém, analisando uma frase que era constantemente dita por Rippers, Mandrake consegue achar a combinação do código. Ele, então, consegue telefonar para a assessoria do governo e informar a combinação secreta. Ao saber dela, o Exército manda os aviões retornarem, salvando o mundo de uma Terceira Guerra Mundial e da destruição nuclear.

     Entretanto, um avião permanece em curso.  Por causa das perseguições executadas pela aeronáutica soviética, o avião é atingido e fica com a comunicação danificada. Assim, o comandante não consegue receber a mensagem para retornar para a base. Muffley liga novamente para Dmitri e informa sobre os locais do plano de ataque daquele avião, mandando-o centrar as defesas naquelas áreas e assim impedir que a “Arma do Juízo Final” dispare.

     Com todos os danos sofridos, o B52 começa a perder combustível. O comandante da missão resolve, então, mudar o alvo para o local mais próximo. Ele altera o curso de voo e chega até uma base militar soviética, onde tenta disparar a bomba armazenada dentro do avião. Como ela não sai (novamente por causa das avarias), o próprio piloto vai até a carga e solta a bomba: estava iniciada a Guerra Nuclear.

     Na sala de guerra, o presidente e o General Buck se reúnem com o Doutor Fantástico (terceiro papel de Sallers no filme), alemão especialista em assuntos nucleares que fora naturalizado e assessorava o governo dos EUA. Ele diz, então, que a melhor alternativa seria que eles protegessem a sociedade norte-americana da radioatividade que se espalharia, preservando-os assim para depois que a vida voltasse a ser possível. Ele, então, dá como alternativa uma fuga para cavernas profundas, onde a radioação não pudesse atingir os que lá ficassem.

     Dr. Fantástico é um símbolo dos muitos cientistas alemães naturalizados que foram trabalhar para os EUA, como Wemher Von Braun (inventor do míssil), Edward Tellet (o pai da Bomba de Hidrogênio) e John Von Neumann (líder do Projeto Manhattam). Entretanto, Dr. Fantástico carrega em si muitas características nazistas. Sentado numa cadeira de rodas, tentava controlar uma mão que tinha vida própria e insistia em fazer a saudação a Hitler. Em certo momento, também, chama o presidente de Führer.

     Entretanto, os principais traços nazistas se encontram no discurso ao presidente, demonstrando como, naquele período, as propostas fascistas ainda permeavam os discursos políticos e as ideologias. Dr. Fantástico diz que o governo deveria fazer uma seleção das pessoas com melhores características físicas e com inteligência para ir para a caverna. Essa ideia era constantemente defendida pelos nazistas, que tentavam eliminar as “raças inferiores” para tentar atingir a “raça pura ariana”. Além dessa, Dr. Fantástico cita também que eles poderiam rapidamente expandir o “espaço vital” de dentro da caverna, algo também defendido por Hitler, pensamento que justificou a invasão nazista na Áustria, Tchecoslováquia e Polônia.  Tudo acaba sendo bem aceito pelo presidente Muffley (num diálogo que envolvia Sallers conversando com o outro papel dele), revelando que ele possivelmente seguiria aquele plano.

     O filme é considerado por diversos críticos como uma das melhores comédias da história do cinema, principalmente nas cenas de humor negro. No enredo, escrito originalmente para um livro de Peter George, há diversas peculiaridades que aumentam o tom satírico da trama. De prontidão, pode-se estabelecer uma relação entre o nome do General Jack D. Ripper com o de Jack, o estripador (cujo nome, em inglês, é Jack The Ripper). Outro também é o nome do capitão do B52, Major T.J. "King" Kong.


     Também aparecem traços humorísticos no modo como agiam os políticos. Desde o diálogo entre Muffley e Dmitri, as brigas entre o General Buck e o Embaixador Alexi até a mão nazista de Dr. Fantástico, todas as situações servem para criticar o medo que cercava a sociedade do período. Já no final, é memorável a cena em que o capitão Kong, com seu jeito e sotaque texano, cai “montado” sobre a bomba nuclear (como se esta fosse um cavalo). A última cena, em que explodem várias bombas para ilustrar a guerra nuclear, é marcada pelo contraste com a música de fundo, tornando-a irônica.

     A combinação do tema da Guerra Fria, a atuação de atores como Sellers e George Scott e um enredo bem escrito com traços de comédia ajudaram ao filme “Dr. Fantástico” a ser considerado por muitos críticos uma das melhores gravações de todo o cinema. Mais do que isso, ele serve como símbolo para a época em que foi criado, servindo de base para retratar os temores e a política de uma sociedade bipolarizada e que vivia em torno de uma escolha apenas: ser Capitalista ou Comunista.


DR. FANTÁSTICO (Dr. Strangelove or How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, UK, 1964).
Direção: Stanley Kubrick.
Elenco: Peter Sellers, George C. Scott, Sterling Hayden, Keenan Wynn.




FILME ÓTIMO. É IMPERDÍVEL ASSISTI-LO!

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