1 de dez de 2010

O Atalante




por Luiz Santiago


     Depois de Aurora (F.W. Murnau, 1927), o verdadeiro filme sobre o relacionamento de um casal, ainda antes do cinema moderno, é O Atalante (1934), quarta e última obra de Jean Vigo. O filme surgiu em tempos de adequação do cinema francês ao advento do som, e consequentemente, à proliferação de obras que beiravam os dramas literários. As vanguardas, que até o final dos anos 20 jorravam películas para as grandes telas, viam-se em sua fase decadente. Apenas René Clair (em suas cáusticas comédias musicais, onde criticava a sociedade francesa) e Jean Renoir iam avante com um cinema fora dos padrões que então se convencionalizava. E foi em Renoir, mais precisamente em seu filme Boudou salvo das águas (1932), que Jean Vigo baseou-se para adaptar um roteiro já escrito a uma realidade que ele queria trazer às telas numa linha que perpassasse o social, o poético e o surrealista. Assim nasceu O Atalante, obra que ainda traz dois atores de Boudou..., os excelentes Michel Simon e Jean Dasté.

     Podemos dividir O Atalante em três grandes blocos de ação: casamento, convivência a dois e fuga¹. No primeiro, Jean e Juliette casam-se e são acompanhados até o barco que dá nome ao filme por um cortejo que mais parece fúnebre. No segundo, o mais longo de todos, a relação entre o jovem casal é exposta em diversas tonalidades dramáticas pelo diretor. No terceiro, a fuga e o regresso da esposa encerram a negação da realidade e o conformismo do cotidiano quase estático da vida no barco, mas além disso, também nos trazem a visão de um aprendizado, do fim de um processo de construção do amor.


     Os sinos e a música elementar de Maurice Jaubert abrem o filme com a ausência dos protagonistas. Já o uso irregular dos planos nos dão a percepção clara do espaço cênico que é a pequena vila. Toda a sequência é mostrada em duas narrativas, editadas paralelamente: a caminhada dos noivos de braços dados rumo ao cais, e os últimos preparativos do imediato e do ajudante do barco para impressionar a noiva. O realismo poético que transborda das cenas ajuda a criar a atmosfera que se dará dentro do barco, quando a viagem já houver começado – viagem esta que pode ser tanto a do barco pelos canais de Paris, quanto a do casal em direção aos sentimentos deles mesmos.

     O interior do Atalante é um ambiente claustrofóbico e abarrotado de objetos – fica clara a relação com o passado, mas aqui, ele é tão insignificante ou tão traumático ou tão exótico, que só é lembrado por père Jules, o personagem de Michel Simon, em uma conversa informal e muito rápida. Juliette, então, passa a conviver com os muitos gatos que o imediato cria, as suas recordações de viagens pelo mundo, a desorganização espacial do lugar e o desprendimento que ainda resta da alma de solteiro em Jean. Há tanto uma dificuldade de diálogo quanto de adaptação entre o casal: cada um sente em relação ao outro a ameaça de sua individualidade.

     Como uma espécie de crônica de uma viagem, Vigo nos apresenta pequenos “pedaços de tempo” do dia a dia no barco. Dos afazeres tipicamente domésticos às brigas entre todas as personagens (a única exceção é o garoto, cuja adolescência não é afetada pelas preocupações dos adultos), temos a colocação das personalidades. A câmera vasculha o barco, filma a convivência no apertado interior e contrasta o que vê com os planos gerais exteriores, onde a liberdade do mundo serve como fuga para todos os personagens do filme – ao indício de um grande aborrecimento ou de um forte desejo, a saída do barco para a terra firme é uma necessidade imperiosa, e todos saem do Atalante para a cidade, em busca e alguma coisa.

     Quando Juliette e Jules resolvem fazer esse caminho de busca juntos, o resultado foge ao controle dos dois. Um camelô (interpretado pelo cínico Gilles Margaritis) flerta com a ingênua Juliette, e incita ainda mais na jovem o afã pelas novidades da cidade. Mas se nessa longa sequência o roteiro e as situações encantam, o mesmo não acontece com a montagem, que descamba em planos atropelados e pequenas sequências tão díspares que fazem os saltos cênicos dos primeiros minutos do filme parecerem um simples raccord. Mas Vigo retorna à normalidade narrativa logo que o casal volta para o barco, e em alguns minutos, entramos na parte final do filme, quando Juliette, imaginando que a cidade pode oferecer-lhe as mais belas coisas que ela já sonhou, foge, em busca daquilo que nem sabe. O resultado é um encontro da moça com a sociedade suburbana de Paris, muito diferente da moda narrada no rádio ou das vitrines cheias de colares e joias. A Paris que Juliette conhece não tem emprego, forma grandes filas nos portões das fábricas, sente fome... A própria população da cidade está imersa em seus afazeres, e parecem não perceber a angústia da transeunte que olha para todos os lados, como se procurasse uma saída. Juliette sente-se mais sufocada na cidade do que no barco. O amor que ela não imaginava ser tão grande, dá indícios de sua dimensão. Do mesmo modo, o desesperançado Jean mergulha em uma tremenda depressão. Uma sequência onírica e de cunho surrealista, mostra a ligação entre o casal, um imaginando o outro com intensidade masturbatória. Todavia, o final feliz parece não tranquilizar o espectador. Por toda a sequência de fatos vistos durante o filme, não temos muita certeza sobre o futuro do casal, mas, momentos antes do corte definitivo, tudo parece bem.


     Jean Vigo manipula a câmera e joga com as diferentes linguagens técnicas e correntes. Planos em plongé, sobreposição de imagens, aceleração e câmera lenta também são recursos utilizados no filme. O amor e seu longo processo de entender ou perceber a si mesmo é filmado com um lirismo social levado ao campo do surrealismo. A força desse amor que se percebe, toma as cenas finais da obra. O Atalante prossegue em meio todas as dificuldades técnicas e institucionais, assim como a vida do casal protagonista e os dois ajudantes do barco. Uma família plasmada com realismo social, mas também poético. A sutileza e a crueza da vida navegam sobre as lentes desse último filme de Jean Vigo, falecido antes mesmo de finalizar a obra, mas que legou ao mundo uma realização única, composta daquilo que faz a diferença para todos nós, aquilo a quem temos amor.


1 – Lembra-me os títulos dados por Truffaut aos seus filmes sobre a fase adulta de Antoine Doinel: Beijos Proibidos (1962), Domicílio Conjugal (1968) e O amor em fuga (1970).


O ATALANTE (L'Atalante, França, 1934).
Direção: Jean Vigo
Elenco: Jean Dasté, Dita Parlo, Michel Simon, Gilles Margaritis, Louis Lefebvre, Maurice Gilles, Raphaël Diligent.


FILME ÓTIMO. É IMPERDÍVEL ASSISTI-LO!

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