3 de nov de 2010

Grace



por Luiz Santiago

     Em 1968, o ator e cineasta franco-polonês Roman Polanski dirigiu o seu primeiro filme nos Estados Unidos, uma das melhores obras do terror no cinema: O Bebê de Rosemary. O filme conta a história de uma gestação atribulada de um bebê gerado por Satã. A partir de então, a criança, representação do estágio inicial da vida humana, tornou-se também encarnação do medo psicológico e social.

     Antes do parto-Pandora de Rosemary Woodhouse, o mais forte momento da (possível) manifestação do mal na criança está em Os Inocentes (Jack Clayton, 1961). Daí para frente, cada década produziu os seus marcos do terror com crianças e adolescentes, das quais, destaco algumas que melhor exemplificam sintomas seculares da época em que surgiram: Eraserhead (1977), O Iluminado (1980), e O sexto sentido (1999).


     Dos anos 1960 para para hoje, tanto a tecnologia cinematográfica quanto a forma de produzir um filme de terror mudaram. O formato digital e os efeitos especiais tomam conta das produções do gênero pelo mundo todo, porque facilitam (na maior parte das vezes com perda de qualidade) algumas coisas impossíveis aos esfeitos visuais, especialmente as mutilações – vide a série Jogos Mortais.

     Os medos do novo século possuem grande influência na profusão das obras de horror, nestes últimos anos. Vivemos em uma era de medos urbanos, ecológicos, políticos, sociais e econômicos. A mídia se tornou um circo de horror, a escatologia da tragédia apocalíptica ganha cada vez mais terreno, profecias e estudos de todas as ordens e ciências dão conta de uma catástrofe planetária futura, seja ela vinda de um gigante meteoro do espaço, ou de um calendário criado por uma civilização pré-colombiana. As doenças psíquicas crescem em ritmo assustador. Os cidadãos se trancam cada vez mais em sucas casas ou complexos habitacionais, condomínios superprotegidos, trancas, cercas, câmeras, tudo para afastar o horror que “mora do outro lado do muro”¹. Uma mentalidade feudal toma conta de nosso século XXI: tudo é motivo de medo, o diabo anda à solta, e do outro lado de nossa cerca de proteção, “os bárbaros” atacam, matam e invadem.

     Não é de se espantar que refilmagens, continuações e séries inteiras de conteúdo macabro, com violência em grau máximo, abuso sexual e moral, venham cada vez mais tomando conta das grandes telas. As crianças, por sua vez, tornaram-se o melhor motivo dramático para o gênero, e a partir de Os outros (2001), são presença quase obrigatória.

     Ju-On (2003) e O Orfanato (2007) sugeriram a maldade nas crianças; Haloween  O Início (2007), fixou a gênese do mal; mas foi em O mistério de Grace (2009), que o caminho trilhado desde o parto de Rosemary chegou ao “fim”. Nesta obra que beira ao trash-movie, o diretor Paul Solet corrompe a inocência de um bebê e apela para imagens chocantes, criando, no mínimo, uma plateia enojada.


     Grace é um milagre, uma criança vinda depois de um aborto, e que nasce morta, mas revive minutos depois, ao ter contato com o seio da mãe. Ao passar dos meses, a bebê passa a exalar um cheiro insuportável, atrair moscas, descontrolar o comportamento do gato de casa, e rejeitar o leite materno como alimento, trocando-o por um líquido um pouco mais... “vital”: sangue humano (vampirismo infantil!).

     O filme tem como mérito a construção de um ambiente-personagem actante e claustrofóbico, por si só, elemento de medo, mas para por aí. As atuações se perdem entre o maneirismo horrendo e o exagero dramático, que vai da maquiagem aos figurinos.

     A atmosfera em que a trama se desenrola acaba por oprimir também ao espectador, o que talvez explique o episódio dos desmaios ocorridos na exibição do filme no Sundance Film Festival, a mais de um ano. O uso de imagens de animais sendo sacrificados e a “decomposição” do lar da protagonista aumentam a expectativa de futuros acontecimentos tenebrosos, mas isso só acontece em relação à pequena Grace, que deixa a mãe com anemia profunda de tanto mamar seus sangue, através de uma ferida que fez no seio da progenitora.

     As inconstâncias fotográficas (com poucos bons momentos) e o uso inadvertido de ângulos diagonais aumentam o mal estar de quem assiste. Grace, aos poucos, se torna um filme intragável. A única coisa que segue uma linha entre boa e mediana durante todo o filme, é o uso do som, inclusive com criativos toques dialéticos.


     A cena final carimba a personalidade demoníaca da bebê, digna de ser chamada de filha de Rosemary: o seio de uma das mães adotivas (melhor nem comentar como um casal de mulheres adotaram o pequeno bebê-demônio, e como isso pode ser lido) está praticamente estraçalhado pelos dentes da menina, que começam a crescer. O fim não é o fim, tem cara de Grace 2, e só Deus sabe aonde chegará os feitos dessa criança gerada e nascida em 1968, mas que só veio à luz em 2009. Definitivamente é algo das trevas...

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1 – Em Confiança e Medo na Cidade (2009), o sociólogo polonês Zygmunt Bauman faz um estudo muito atual sobre essa “corrida para trancar-se / proteger-se”.


O MISTÉRIO DE GRACE (Grace, EUA, Canadá, 2009).
Direção: Paul Solet
Elenco: Jordan Ladd, Stephen Park, Gabrielle Rose, Samantha Ferris, Kate Herriot, Troy Skog, Malcolm Stewart, Jeff Stone, Jamie Stephenson, Tenai Cam Measmer, Annabel Kathlynn Bast.

FILME INSATISFATÓRIO. APENAS PARA FÃS INCONDICIONAIS DO GÊNERO.

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