20 de out de 2010

Os óculos de Pedro Antão



por Erivoneide Barros



     Machado de Assis desenvolveu uma literatura peculiar em meio ao Realismo. Enquanto os demais escritores brasileiros buscavam desmascarar a sociedade burguesa do fim de século XIX, o bruxo do Cosme Velho, como o chamou Drummond, procurava assinalar as singularidades da alma humana, abrindo, segundo Alfredo Bosi, uma fenda na máscara dos tipos sociais, para que o leitor, atento, completasse o que estava oculto.Vê-se que se trata de uma literatura que exige um leitor ativo, atento e, acima de tudo, perspicaz.

     A maneira envolvente que Machado utilizou para contar suas histórias despertou o interesse de cineastas. O narrador machadiano torna os leitores cúmplices da ação narrativa, solicitando de maneira explícita a participação desse Outro, fato relevante na construção cinematográfica, segundo alguns cineastas. Por exemplo, para Andriêi Tarkóvski, a participação do telespectador no processo de ressignificação da Arte era fundamental para que esta pudesse cumprir a sua função.



     Outra característica cinematográfica presente na obra machadiana é a sutileza da narração. Nada é dado facilmente para o leitor. Quem se aventura a ler um texto de Machado precisa manter um posicionamento crítico diante de tudo e todos. A ironia fina presente em sua obra em prosa é o condimento fundamental dessa receita.

     O processo de adaptação de qualquer linguagem para uma outra forma de dizer sofre perdas e ganhos. Óbvio que não se pretende defender uma adaptação fiel e simétrica à obra de origem, no entanto, de acordo com nossa leitura, uma adaptação precisa manter a essência da obra.

     O roteirista precisa conhecer profundamente a sua fonte, ter uma leitura madura da obra, para, dessa maneira, desenvolver uma releitura produtiva que acrescente significados e não reduza a qualidade do objeto primeiro. Quando se desenvolve uma adaptação livre, é preciso salientar essa informação a fim de não complicar a vida de leitores e telespectadores desavisados.

     Machado de Assis teve várias obras adaptadas para o cinema. A professora Drª. Silvia Maria Azevedo, da UNESP de Assis, coordena um grupo de pesquisa sobre o autor e é possível encontrar no sítio do grupo (www.machadodeassis.unesp.br) algumas das obras que ganharam esse novo olhar. Além das obras citadas pelo grupo da UNESP, destacamos A causa Secreta (1994), do diretor Sergio Bianchi, e o desconhecido Os óculos de Pedro Antão (2008), do diretor Adolfo Rosenthal.



     Os óculos de Pedro Antão merece destaque por conseguir atingir uma qualidade de adaptação até o momento restrita ao Memórias Póstumas de André Klotzel. Na adaptação do conto homônimo, o diretor conseguiu manter o clima de mistério e a sutileza da criação da personagem Pedro, o mesmo que fez André ao manter a ironia do defunto autor na reconstrução de sua própria história.

     A narração do filme de Rosenthal é feita em primeira pessoa, assim como no conto. Pedro (Michel Bercovitch) é um jovem médico que gosta de histórias de mistério, por isso é convidado por Mendonça (Bruno Mello) para conhecer um casarão que este havia ganhado de herança.

    A herança veio de um tio, Pedro Antão (Michel Bercovitch), que morrera de forma misteriosa dez meses antes. Pedro cria uma história para explicar a vida enigmática do tio de Mendonça. É importante notar que o processo de construção do conto, conseqüentemente do roteiro, é o próprio processo de criação literária. O jovem investigador revela ao amigo:

— Viste aqui uma casa velha, trastes velhos, ares velhos, nada mais. Eu vi aqui dentro uma história misteriosa. Organizar no vácuo não é coisa que todos possam fazer. Vejamos se não me achas razão1.

     A partir desse instante, Pedro cria uma série de eventos para justificar os elementos que encontra pela casa e, quando não os encontra, busca explicações menos palpáveis. A princípio, Mendonça zomba da criação do amigo, porém vai se envolvendo com o enredo.
O trabalho positivo de Rosenthal é manter este clima de mistério e criar no telespectador a mesma sensação de desconfiança que Mendonça experimentou. Posteriormente o telespectador também é arrebatado no plot fantástico criado por Pedro.

     O diretor lança mão de alguns recursos que instigam a imaginação de quem o assiste. Michel Bervovitch desempenha os papéis de Pedro e Pedro Antão aumentando a dubiedade da narrativa. Elementos do agora se misturam aos aspectos da imaginação. A descrição minuciosa no conto de Machado, também foi outro artefato bem explorado pelos roteiristas.

     As modificações mínimas solicitadas pela adaptação da linguagem não trouxeram nenhum prejuízo à obra, ao contrário, intensificaram o mistério e suscitaram discussões sobre o processo de construção de uma peça cinematográfica. Sem perder de vista a narração machadiana, o diretor, aproveitando o final surpreendente, deixa uma questão: o que é verdade quando se trata de cinema e literatura?

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1 Disponível em www.dominiopublico.gov.br.


OS ÓCULOS DE PEDRO ANTÃO (Brasil, 2008).
Direção: Adolfo Rosenthal.
Elenco: Michel Bercovitch, Bruno Mello, Karen Marinho, Roberto Pirillo e Luiza Tomé.

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