9 de ago de 2010

Querido John



por Luiz Santiago


   Com base na obra do escritor californiano Nicholas Sparks, o mesmo autor do romance que deu origem ao excelente filme dirigido por Nick Cassavetes, Diário de uma paixão (2004), o sueco Lasse Hallström (autor de obras obrigatórias a qualquer aspirante a cinéfilo ou a cinéfilos mais “liberais”: Minha vida de cachorro (1985), Regras da vida (1999) Chocolate (2000) e Casanova, de 2005), trouxe às telas do cinema o insosso Querido John (2010), uma obra que dividiu a crítica, e que dá mais material aos que a condenam do que aos que a defendem.

   O filme conta a história de John e Savannah, dois jovens que se conhecem nas férias (ela, da faculdade; ele, do Exército), e se apaixonam perdidamente, embora não de imediato. O rapaz tem um temperamento hostil, e uma vida pregressa não muito louvável, mas que não é explicitada, o que dá ao diretor um ponto de bom senso. A garota é uma quase-perfeita, que milita em obras de caridade e é sentimental demais, o que lhe dá um ar um pouco chato, que se dilui aos poucos, no decorrer da trama. Com os dias que correm, a relação entre os belos jovens se intensifica, mas chega o momento que a partida dele para a guerra (Iraque), põe uma pausa decisiva no duo-amor jurado para sempre. Ambos trocam cartas e cartas, até o momento em que Savannah declara ter se apaixonado por outro homem, o que faz com que o espírito destrutivo de John renasça, e ele faça da guerra a sua sublimação. O filme caminha um pouco às voltas com a fórmula “conquista-perde-reconquista”, mas consegue levar o espectador por um caminho mais belo, e de certa forma, mais poético que os “romances básicos” a que estamos acostumados.

   Hallström decepciona com classe, se é que isso é possível. Querido John é o seu filme mais fraco, e com uma mise-en-scène tão a desejar, que nos lembra os filmes nacionais com atores-novela cuja única capacidade em atuar é a de “ser bonitinho”, mas mesmo assim, cativa por seu mise-en-cadre e pela opção em trazer a imperfeição como realidade e abraçar o maior número de símbolos possíveis, mesmo que representem um outro tempo, quando o romance era romântico ou, no mínimo, acontecia em Casablanca ou na Martinica: a lua, as cartas, o desencontros, a disparidade do par, o “enfrentar juntos”, as brigas, a superação.



   John (Channing Tatum, em interpretação rala, mas não descartável), é um Bogart com beleza e músculos, mas sem inteligência nem astúcia, que está tão angustiado consigo mesmo, que a única coisa que consegue fazer bem, o filme inteiro, é ser soldado. O desapego do rapaz chega a ser de mal gosto, e sua frieza em demonstrar sentimentos, idem. A relação do jovem com o pai (interpretado pelo excelente Richard Jenkins, o único ator-fenômeno do filme, que dá vida a um autista com uma paixão colossal) é ainda pior, mas não podemos culpá-lo de todo, pois aí se encontra uma ingrata armadilha de roteiro, onde causas psicológicas explicadas aos pedaços deveriam enriquecer a trama, mas na verdade só complicam a persona do jovem protagonista.

   Para um romance comercial que se pretende “um pouco mais”, faltou o “empurrão a mais” (assim como em Robin Hood, onde comentei os erros de Ridley Scott em subverter a ordem de estrutura mercadológica do filme: se é comercial, que o seja com todos os seus ingredientes, mesmo que se pretenda mais; e na época, citei casos de excelentes resultados nesse sentido, como Pecados íntimos (2006) e Um beijo roubado, de 2007).

   Savannah (Amanda Seyfried, que se saiu um pouco melhor em Mamma Mia!, 2008), irrita com suas idiossincrasias e um senso de realidade quase surreal, o que não é de todo mentira, já que realmente existem pessoas assim, mas é algo que irrita profundamente, e não vejo nenhuma justificativa artística, cênica ou fílmica, para manter um perfil tão quase repelente em uma película onde se devia ao menos amar a protagonista-mocinha-pura-perfeita.

   O desfecho da obra – em caminho abissalmente oposto ao livro, segundo me disseram – não agrada nem mesmo que não leu o volume. Ou melhor: agrada àquelas pessoas que ainda vivem nos tempos das princesas de Walt Disney.



   A fotografia de Terry Stacey (o mesmo fotógrafo de P.S. Eu te amo, 2007) encanta, e é responsável por boa parte da poética visual da obra. Sua planificação sob os cuidados de Hallström, é simples, sem nenhum virtuosismo ou invenções estapafúrdias, que trazem à realidade diegética o máximo de “verdadeira realidade” possível.

   A música de John Powell, vai pelo mesmo caminho da fotografia, mas não é usada com nenhuma diferença daquilo que sempre tivemos. Até em Chocolate, Hallström foi mais preciso quanto a relação imagem fílmica-trilha sonora.

   As minhas maiores críticas vão para Lasse Halltröm, que baixou a guarda e pulverizou açúcar hollywoodiano onde poderia haver a umidade indecisa típica do existencialismo de algumas de suas obras anteriores, ou de clássicos de seu país de origem. O resultado fílmico é daqueles que não se pode definir direito. Encanta, mas deve muito ao espectador crítico. E isso vale para os atores e para a obra, como um todo. Volto à questão primeira, que usei como título, à guisa de linhas e linhas de introdução: Querido John é obra de um neo-romantismo incompreendido ou cópia em nova roupagem do que já tínhamos nos romances cinematográficos?



QUERIDO JOHN (Dear John, EUA, 2010)
Direção: Lasse Hallström.
Elenco principal: Channing Tatum , Amanda Seyfried , Richard Jenkins , Henry Thomas , D.J. Cotrona. 

FILME REGULAR. ASSISTA SE TIVER TEMPO.

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