8 de jul de 2010

Tokyo GA


                                                                                    por Luiz Santiago


   Excetuando as produções para TV que inundaram a programação juvenil no início dos anos 1990 no Brasil, meu primeiro contato com os filmes japoneses aconteceu no dia do meu aniversário de 18 anos, quando, já confesso réu de alto consumo de cinema, ganhei de presente de aniversário um filme chamado Bom Dia, de Yasujiro Ozu.

   Na época, eu não me dei conta do quão importante era aquilo que eu via e gostava imensamente, sem saber o motivo. A partir de então, dei início a uma busca frenética por obras do diretor, e assim conheci Pai e filha (1949), Era uma vez em Tóquio (1953), Dia de outono (1960), Fim de verão (1961) e A rotina tem seu encanto (1962).

   A aparente simplicidade de Ozu, me incomodava ao mesmo tempo que me encantava. Ver seus filmes me abriu as portas para uma visão de cinema cuja profundidade não reside no virtuosismo ou na pompa estético-formal, mas na profundeza da narrativa e dos temas escolhidos. Os filmes de Yasujiro Ozu me deram uma visão menos generalizada e pop do mise-en-cadre. Sua câmera sempre lá em baixo e sua fechada lente de 50mm criaram uma Tóquio familiar, mas em transição para um pólo industrial de relações humanas desagregadas – tudo isso plasmado por uma fotografia bem clara e uma forma bem seca e cheia de desalento, por assim dizer, de demonstração do cotidiano.


   “O mundo de Ozu era um mundo sagrado”, disse Wim Wenders, ao viajar por duas semanas para o Japão, na primavera de 1983, a fim de procurar a Tóquio ozuana que sabia já não existir mais. O resultado desta procura é o belo documentário Tokyo GA.

   Mesclando seu estilo próprio com os enquadramentos e a “complexa simplicidade” dos filmes de Ozu, Wim Wenders produziu uma crônica em movimento que liga um passado quase idílico a um cruel e doente momento presente. O Japão que se apresenta em Tokyo GA é viciado em jogos (a fuga criada no pós-guerra), em rock, em coca-cola, em inglês. O filme busca um Ozu vivo, ou ao menos a sua poética, na cidade, mas só o encontra no túmulo, e na memória de Chishu Ryu e Yuharu Atsuta (profissionais que trabalharam com o diretor a vida toda). Vazio é o sentimento que a Tóquio de 1983 emana, apesar dos carros, trens, dos campos de golfe, da tecnologia.

   A decadência das relações humanas, a desintegração da família, a tecnologia no cotidiano, as crianças rebeldes, tudo o que Ozu filmou ainda perdura nas imagens de Tokyo GA, mas com o extremo de seu pior. Pelos becos, restaurantes, ruas, cemitérios, quartos de hotel e meios de transporte, Wim Wenders homenageia seu cineasta-ídolo com precisão invejável, mas chora a decepção antiimperialista de ver a cidade mostrada pelo mestre japonês entre sóis e trens, perecer no caminho sem volta, da máquina, da moeda e do mercado internacional.


TOKYO GA (EUA, Alemanha Ocidental, 1985).
Direção: Wim Wenders


FILME MUITO BOM. FORTEMENTE RECOMENDADO.

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