21 de dez de 2011

Alexandra / Aleksandra (2007)


por Marcel Moreno

          Alexandra é uma mulher atenciosa, curiosa, destemida, com personalidade forte. Um ser totalmente diferente daqueles que habitam no acampamento de guerra. Mesmo que eles permaneçam temporariamente, são momentos intermináveis para eles, que sem saber do seu destino, também não sabem por quanto tempo a sorte os manterão vivos. Os sons constantes de helicópteros nos remete a todo momento a eminência da guerra. Os sons são tão expressivos, que se nos deixarmos levar, eles nos colocará cara-a-cara com a face da guerra. Alexandra, naquele ambiente totalmente masculinizado, é um símbolo de esperança. Ela representa a atenção que é dada ao homem enquanto homem, com sentimento, com angústias, com esperanças. Todos querem ajudá-la, todos querem um sorriso, todos querem ser correspondidos quando depositam no universo um pouco de seus sentimentos, que por conta da guerra, estavam ali guardados em seu peito, protegidos por um uniforme verde, que é um escudo de proteção ao inimigo, e que se transforma em um escudo contra o sentimento humano, ao mesmo tempo que veste o homem com uma máscara, a máscara da guerra, como se com ele toda a sensibilidade para a menor manifestação possível de afeto ou compaixão desaparecesse, sugado pelas armas e o desejo de destruir.

          Alexandra começa o filme entrando com dificuldade em um trem e depois em um tanque de guerra. A cena dela entrando no trem e vendo aquelas crianças trajadas de soldados, são quase representações de anjos, é a vista de homens que perderam sua inocência e são entregues aos interesses do próprio homem. Esta cena dá quase um tom de semi-morte para ela, que está saindo do seu mundo. Quando sai com dificuldade do trem e entra no tanque, para finalmente chegar no acampamento do neto, ela tem seu nascimento. Este nascimento que se dá em um local totalmente fora do seu mundo habitual. Ela foi conduzida a uma esfera de vida totalmente voltada para o desconhecido. Um mundo de homens, talvez sem respeito, sem garantias básicas de vida. Curiosa, ela conhece algumas partes do acampamento, e quando se depara com jovens limpando armas, percebe que isso é o que a guerra faz com os nossos jovens, entregues a nada. Neste momento, ela é a representação de todas as mães e avós que zelam pelo futuro de seus filhos e netos, desejando-lhes um futuro promissor, de bondade, caráter e dignidade.



          O ambiente é sujo, quente, não há luxo, não há conforto, não há sentimento de fraternidade e compaixão. Este é o ambiente que Alexandra fica por alguns dias para poder visitar o neto. As cores são de um tom pastel, verde e qualquer outra que dá um tom de areia. Com tons de cores parecidas, tudo se mistura como em um quadro. Se por algum momento conseguir penetrar no filme, acreditará que tudo foi feito do mesmo material, uma mesma vida, um mesmo destino. Estão todos camuflados, como se o término de um fosse o inicio do outro. Não há mudança, é uma corrente de um mesmo pensamento, de uma mesma ideologia. Um sentido da vida com uma verdade oculta, uma história escondida, uma realidade inexistente para o comum. Assim é a guerra. Um mistério sem fim, algo que chega a ser incompreensível para os seres pensantes, algo que não condiz com o sentido da vida humana, de construir e não destruir. A guerra é como se renegássemos a nossa própria existência, a nossa própria identidade. Somos todos humanos, sem diferenciações, mas nos reconhecemos como nação e esquecemos que viemos do mesmo material, o qual deu origem ao primeiro homem. Guerreamos sem sentido, destruímos o que poderia ser construído. A guerra destrói o que há de mais precioso no homem: a vida. A cena do banco camuflado, denuncia um possibilidade das expressões humanas dentro de um ambiente totalmente contrário a ela. Um banco poderia ser uma praça, um lugar de encontro, um local para namorados, um belo lugar para ver o crepúsculo solar, mas aqui camuflado, significa uma expressão humana mascarada pelo sentimento de terror, morte, assassinato do próprio ser.

          Os soldados tem sempre aparências tristes, ininteligíveis, estáticas, como se o destino já as estivesse escrito, como se não dependesse deles e somente da guerra. Cansados e sem perspectivas, vagam como zumbis pelo acampamento, sem esperança, esperando somente o exato momento de fazerem a passagem. Mas todos desejavam atenção. Todos queriam ser reconhecidos. todos queriam tirar aquela máscara da guerra e mostrar seu lado humano.

          Quando Alexandra conhece uma mulher do vilarejo próximo do acampamento, somos levados a uma outra esfera, o universo feminino. Com a predominância de mulheres, somos transportados a um ambiente que podemos notas os sentimentos de amizade, amor, sem interesse, compaixão. Aqui vemos um mundo diferente do que vimos no acampamento dos soldados, aqui é o ambiente humano. A guerra apesar de presente, não se sobrepõe ao homem e seus valores. Aqui quem manda é o coração e a guerra é algo que mesmo muito próxima, fica distante dos sentimentos femininos. Por elas, a guerra não existiria por ser tão desnecessária e inexplicável.



          Alexandra é um símbolo de esperança do começo ao fim. Até ela mesma necessita disto porque é algo que o homem não consegue se desvincular. Precisamos de esperança para continuarmos nosso caminho. Todos querem mostrar seu lado humano que é sobreposto pela guerra. A esperança é que nos faz ter fé de que pode ser diferente, de que podemos mudar. O filme levanta a questão do orgulho militar. Que orgulho é este que ninguém entende, que não têm sentido e que ninguém consegue explicar? Qual é o orgulho que temos de destruirmos nossa própria identidade, irmãos de sangue, homens tão homens quanto nós? A guerra limita o homem, o impede de pensar, o tira do seu mundo colocando-o dentro de uma máscara que só serve aos interesses alheios, e tira do homem um dos seus bens mais preciosos: a fé e a esperança.


ALEXANDRA (Aleksandra, Rússia, França, 2007).
Direção: Aleksandr Sokúrov
Roteiro: Alesandr Sokúrov
Elenco: Galina Vishnevvskaya, Vasiliy Shevtsov, Raisa Gichaeva, Andrei Bogdanov, Aleksandr Kladko, Aleksei Neymyshev, Rustam Shakhgireev, Evgeni Tkachuk.
Duração: 1h35min.


FILME MUITO BOM. FORTEMENTE RECOMENDADO.


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