13 de nov de 2011

Home – Nosso Planeta, Nossa Casa (2009)


por Luiz Santiago


          O alerta ambiental é algo relativamente novo nas discussões acadêmicas e midiáticas por todo o mundo. As reuniões que levavam isso em pauta, nos anos 1970, denotavam mais uma discussão curiosa, estatística e pouco prática do que um verdadeiro exemplo de busca por melhorias, tanto que a tecnologia suplantou a boa vontade, e os discursos de uma iminente tragédia causada pela destruição humana ao planeta, chegaram ao século XXI quase como uma neurose de massa. Os “apocalípticos” passaram a ter voz e amparo científico a partir de meados dos anos 1990, uma prova de que nada mais poderia esconder os efeitos maléficos da indústria, exploração desmedida e poluição severa causada pela espécie humana à Terra.

          Aproveitando-se desse caótico estado das coisas, o cinema e a televisão encomendaram diversas versões, fictícias ou documentais, sobre o futuro e o presente, as mudanças e alternativas para o mundo. Cada obra é dotada de uma abordagem e qualidade muitíssimo distintas, e encontra críticas devastadoras ou amparo engajado dos espectadores. Em ciências biológicas e humanas nada é exato, e isso faz com que os documentários sobre “Sustentabilidade & Meio Ambiente” pareçam, para alguns, catastróficos, exagerados ou mentirosos demais. É o caso da primeira versão cinematográfica importante para o tema, a Trilogia Qatsi (1982 – 2002) de Godfrey Reggio. No primeiro volume, Koyaanisqatsi – A Vida em Transformação (1982), o diretor apresentou de maneira crítica e pouco amistosa a marcha evolutiva do homem que mascara a sua escravização aos sistemas econômicos e a espécie humana aos efeitos de toda essa “evolução para o regresso”. No volume seguinte, Powaqqatsi – A Vida em Transformação (1988), o diretor nos trouxe os efeitos de todas as mudanças científicas e industriais nos países do Terceiro Mundo. Acusado de “embelezar a pobreza”, Reggio manteve-se firme na sua crítica aos efeitos do homem na vida, e assim finalizou em 2002, a sua trilogia. Naqoyqatsi aborda os efeitos do mundo globalizado, da tecnologia e da violência em uma planeta que quer transformar tudo em propriedade privada ou lucro. Em 2009, Luc Besson e Denis Carot produziriam Home: Nosso Planeta, Nossa Casa, um documentário que adota a linha de um discurso humanista e ao mesmo tempo científico (quase na mesma linha de Godfrey Reggio), para fazer o espectador refletir a respeito dos rumos que a humanidade segue.


          Há que diga que a película não traz nenhuma informação nova, ou que é paradoxal, repetitiva, mentirosa e alarmista. De minha parte, vejo Home como um documentário mais que necessário para todos. É claro que parte dos temas e problemas abordados na obra já são de conhecimento geral, mas nem de perto o filme se compara ao “secar gelo” de Al Gore em Uma Verdade Inconveniente. O que se põe a favor de Home é uma abordagem ampla, das origens da vida na Terra às modificações realizadas pelo homem durante seus 200 mil anos de existência. No final do filme, temos os assuntos revisados, com o intuito de fechar todas as janelas abertas. Não entendo essa volta como uma repetição, posto que novas reflexões são apresentadas nesse segundo momento.

          É claro que essa abordagem pode afetar a cada espectador de uma maneira diferente. Onde eu vi bom senso do diretor em nos trazer as medidas preventivas usadas hoje em dia, para tentar minimizar os efeitos catastróficos, alguns viram abordagem paradoxal; a partir daí é de se imaginar que dependendo das ideias políticas, humanas, concepção de mundo e erudição do espectador, o filme pode parecer uma obra prima ou uma obra descartável.

          Entretanto, mesmo para os desafetos da obra, a fotografia é algo plenamente louvável e inquestionavelmente maravilhosa. As tomadas aéreas, feitas em mais de 70 países, são o exemplo de um trabalho caro e muito bem realizado. É uma pena que, acompanhando as imagens estonteantes, a narração seja tão monótona e pouco dinâmica. Essa é a única parte do formato fílmico que não condiz com todo o restante. Quanto ao roteiro, escrito a sete mãos, pode haver uma dupla interpretação. A primeira é dos que não se importam com uma narrativa feita em elos, onde o motivo final de um bloco serve de estrutura para o motivo principal do bloco seguinte. A segunda é a dos que enxergam amadorismo nesse modelo de fazer cinema documental.


          Home foi lançado simultaneamente nos cinemas, em DVD, na televisão e no youtube, e tem sua versão em inglês e francês disposta na rede, na íntegra. Essa estratégia permitiu que muitos espectadores ao redor do mundo assistissem ao filme ao mesmo tempo e em diversas mídias. Alguns críticos acusaram a propaganda das empresas envolvidas de enganosa, porque declararam o projeto sem fins lucrativos e acabaram cobrando pelo DVD nas lojas. Tal ignorância só pode vir de pessoas que não enxergam um palmo à frente do nariz. Se o filme foi lançado pelas vias eletrônicas, gratuitamente, penso que a questão financeira seja a menos importante para as produtoras, pois, que outra iniciativa faz esse tipo de lançamento gratuito? É claro que, os que optam pelo produto em DVD ou pela sessão em tela grande devem pagar por elas!

           Uma das raríssimas parcerias entre “corporações no caminho do verde” e o cinema, Home é um exemplar do documentário engajado e crítico, porque, ao final da sessão, é impossível a plateia não pensar a respeito do tema e querer fazer algo para mudar. Se um filme alcança esse ponto, não há vitória maior a ser alcançada. E para além do triunfo de seu discurso, a parte final do longa é muitíssimo emocionante, de fazer chorar mesmo, porque nos lembramos que nossa espécie é absurdamente autodestrutiva, e isso nos agride, no melhor sentido da palavra; uma agressão que impulsiona a querer partir para ação, melhorar, de alguma forma, o planeta onde vivemos. Home: Nossa Planeta, Nossa Casa, é muito mais que um filme cheio de imagens bonitas. É um filme sobre o diário universal e mal escrito do homem na Terra.


HOME – NOSSA PLANETA, NOSSA CASA (Home, França, 2009)
Direção: Yann Arthus-Bertrand
Narração: Yann Arthus Bertrad e Jacques Gamblin (versão original); Glenn Close (versão em inglês).

FILME ÓTIMO! É IMPERDÍVEL ASSISTI-LO!

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