25 de out de 2011

O Palhaço




por Luiz Santiago

     Em sua estreia na direção com o drama Feliz Natal (2008), Selton Mello já demonstrava grande força cinematográfica e a ousadia em experimentar. “O ator que virou diretor”, nomenclatura geralmente usada de modo pejorativo aos profissionais que passam da frente para trás das câmeras, não é algo que podemos aplicar a Selton Mello. Sua presença na tela alcança, a cada filme, uma boa acolhida (embora nem sempre ele atue em filmes bons), e em seu segundo longa, também a direção alcança prestígio nacional. Em uma sessão especial com o diretor e todo o elenco do filme, eu tive o privilégio de conferir O Palhaço na 35ª Mostra, e posso afirmar que é o melhor filme de ficção brasileiro de 2011 lançado até agora.

     A história de um palhaço triste é algo comum, em obras de todos os gêneros, sobre o mundo do circo. Sua versão mais clássica é a da ópera de Ruggero Leoncavallo, I Pagliacci, de 1892. Outra referência é o filme Os Palhaços (1970), de Federico Fellini, um documentário farsesco sobre o mundo do circo e alguns dos palhaços mais famosos da Itália. Aglutinando todas as referências fellinianas (e de A Viagem do Capitão Tornado, de Ettore Scola), Selton Mello adicionou um ingrediente plenamente brasileiro, o humor físico da personagem de Renato Aragão, Didi Mocó, e criou, assim, o seu palhaço: um homem confuso e em conflito consigo mesmo, que busca, para além do circo, a sua felicidade.


     Um roteiro maravilhoso e a divina trilha sonora de Plínio Profeta dão a esse filme a leveza, o humor e a beleza que tem. O riso não é tirado a fórceps do espectador, ele vem pela vontade legítima de rir da inocência, malandragem e palhaçadas desse mundo incrível. Os conflitos que surgem no meio do caminho, ao invés de desviarem a atenção do espectador ou enfraquecerem o filme, tem a capacidade de nos fazer pensar, parar um pouco para aflorar os sentimentos. O Palhaço é um filme que nos faz sentir. 

     Tudo no filme é delicioso de se ver. Um timming perfeito e uma boa edição fazem o trabalho final. O filme chega a seu fim e nos deixa pregados à cadeira, com aquela cara boba de quem acabou de ver parte da sua alma, infância, juventude, vida adulta, velhice, sentimentos e problemas, expostos na tela por uma trupe de talento colossal. O Palhaço é um filme sobre a nossa verdadeira identidade, e por isso mesmo, é para se ver e rever inúmeras vezes.


* Filme visto na 35ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.


O PALHAÇO (Brasil, 2011)
Direção: Selton Mello
Narrador: Selton Mello, Paulo José, Larissa Manoela, Giselle Motta, Teuda Bara, Moacyr Franco, Fabiana Karla, Álamo Facó, Tony.


FILME ÓTIMO. É IMPERDÍVEL ASSISTI-LO! 

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