9 de out de 2011

Especial Friends: Monica, Rachel e Phoebe


por Jorge Rodrigues
De Coimbra - Portugal, 
Jurado do Cinebulição e co-editor do blog Dial P for Popcorn


     Coube a mim falar-vos hoje de parte de uma das razões que fez “Friends” resultar tão bem. O elenco. Ou melhor, o elenco feminino, a parte que me coube. Rachel Green, Monica Geller, Phoebe Buffay. Jennifer Aniston, Courteney Cox, Lisa Kudrow. Três personagens – e actrizes – tão diferentes, cada uma mais forte numa área e num tipo de comédia que outro, e tão bem que as três se complementam. É curioso como estas três personagens tão caricatas e divertidas se reflectem nas várias amigas que tenho. Conheço sem dúvida uma Monica, conheço uma pessoa bem parecida com a Phoebe e conheço quem tenha uns toques de Rachel. Crédito uma vez mais aos argumentistas de “Friends”, que tiveram o condão de criar personagens tão completas, complexas, honestas, verdadeiras e fiéis a si próprias e tão diferentes umas das outras, mas todas com características universalmente reconhecíveis em várias pessoas.

     Comecemos pela Phoebe. A Phoebe é… peculiar. É a melhor descrição que lhe poderia dar. Ela é uma massagista que, além disso, canta em público. Mais ou menos. Bem, ela canta mal, só que pensa que é brilhante. Explicado? Ela não é louca. Mas é tão diferente do habitual que custa aceitar, à primeira, que exista alguém como ela. Contudo, todos temos pelo menos um amigo que é assim (ou que partilha algumas das suas características). Aquele amigo que acredita na sorte, no destino, no amor verdadeiro, que acredita em fantasmas, em espíritos, em reencarnação, em energias negativas, em auras, em psíquicos, bruxas e cartomantes, que é um incontornável defensor dos direitos dos animais e da Natureza e que, obviamente, é vegetariano. Alguém que nos diz sempre a verdade na altura certa e que faz as coisas porque quer (por vezes, sem reparar na indecência ou inadequação dos seus actos) e sem qualquer malícia ou segunda intenção por trás. Alguém que ajuda os outros sempre que pode, que é genuína, honesta, bondosa (afinal, não é qualquer pessoa que decide ser barriga de aluguel para o irmão e a sua esposa) e que se entrega de alma e coração aos amigos. E alguém que não é fácil de perceber à primeira, que é algo que eu adoro. Apesar do seu passado difícil, ela nunca se deixa abater, optando sempre por ver o lado positivo das coisas. No fundo, tem um coração de ouro, puro e às vezes até algo infantil, embora seja ao mesmo tempo imensamente sábia. Lisa Kudrow, a actriz que interpreta a Phoebe, é uma fantástica comediante. Além de ser dona de um timing comédico invejável e de uma panóplia interminável de expressões faciais, é fenomenal a quantidade de vezes que ela consegue roubar cenas dos seus parceiros.



     Passemos à Rachel. Filha de pais ricos e habituada a tudo o que há de bom e a uma vida sem esforço, a Rachel Green que conhecemos no episódio piloto está a milhas da Rachel Green de que nos despedimos no final, uma Rachel que subiu na vida – de empregada de mesa a quadro superior de uma empresa de moda – e que aprendeu a ser independente. A Rachel inicial era arrogante, ingénua, resmungona e algo superficial. A Rachel, no fim, é uma mulher completamente diferente, madura, responsável, uma mãe dedicada e amorosa e uma amiga leal e devota. A personagem mais popular dos seis principais, a ponto de até o seu penteado ficar célebre, Rachel compôs uma das metades do duo romântico mais desejado da televisão das últimas duas décadas: Ross e Rachel. Todos torcemos para que eles ficassem juntos, todos chorámos com a sua separação e todos ansiámos para que, no fim, estes dois eternos românticos ficassem juntos, ao lado da filha que, tendo nascido fruto de um encontro casual e acidental, é por eles muito amada. Dos seis principais, sempre acreditei que Rachel seria a personagem mais próxima do seu intérprete. Sempre achei que a Jennifer Aniston tinha dado muito de si à Rachel, a ponto de haver cenas que parecem tão reais, tão autênticas, que é impossível que ela tenha inventado alguns traços de personalidade da Rachel do nada.

     Finalmente, falamos da Monica. A Monica é uma belíssima chef com uma carreira emergente com uma obsessão exagerada por limpezas e com uma necessidade anormal de ser controladora, competitiva, teimosa e organizada. À primeira vista, a mania obsessivo-compulsiva, a sua meticulosidade e picuinhice, o seu modo competitivo, a sua forma frontal de se queixar da falta de zelo dos outros, a sua excessiva preocupação com as coisas mais ordinárias do quotidiano e a sua personalidade mandona fazem-nos pensar que Monica Geller é uma pessoa insuportável. No entanto, a sua doçura, sensibilidade, a sua divertida e saudável rivalidade com o irmão Ross, a entrega e dedicação aos amigos, paixão pelo seu trabalho oficial e pelo seu trabalho oficioso (organizadora de festas e jantares) fazem dela a amiga ideal para ter do nosso lado, para festejar connosco ou para se lamentar connosco. Seja com uma garrafa de champanhe ou com uma grande taça de gelado cheio de calorias, a Monica está sempre do nosso lado. A Monica é, ainda, a típica rapariga que sonha com o príncipe e o casamento perfeitos, com uma vivenda grande nos subúrbios com muitos filhos e um cão e um relvado grande e vistoso. Curiosamente, o mais improvável dos romances floresce quando Monica e Chandler se juntam. Um dos grandes prazeres que ver “Friends” me deu foi ver este magnífico romance desenvolver-se e florir, com Monica e Chandler a descobrirem os seus defeitos e virtudes e, no fim, a ficarem juntos, perfeitos como são, no meio das suas várias imperfeições e ver o quão bem e quão crescidos e felizes e realizados eles parecem juntos. Falando da actriz: é uma enorme injustiça que Courteney Cox, a mais dotada dos seis na comédia física e sempre daquelas com o maior peso em termos de carregar a narrativa dos episódios, tenha sido a única que nunca foi nomeada para os Emmy. Ela é, para mim, a mais engraçada dos seis (não é a mais cómica – isso é Matthew Perry e Lisa Kudrow – mas é sem dúvida a que mais piada tem dentro das situações).



     E é isto. Do momento em que “Friends” surgiu, destacava-se de todas as outras. O dia-a-dia de aventuras, romances, desafortúnios e confusões de seis amigos na metrópole cultural que é Nova Iorque era partilhado e convivido com milhões de pessoas em todo o mundo que sintonizavam as suas televisões semana após semana para saber o que se passava com Ross, Rachel, Monica, Chandler, Phoebe e Joey, que riam com eles, que choravam com eles, que sentiam as suas alegrias e se emocionavam com as suas tristezas. Mesmo hoje em dia, qualquer pessoa que veja a série facilmente se envolve e se diverte. Todos somos, já fomos ou seremos jovens adultos, de vinte e poucos anos, a começar a sua vida no mundo do trabalho, cheios de sonhos, ambições e esperanças. “Friends” fala de um grupo de amigos que é também nosso amigo. E é isso que tornou a série tão especial, tão culturalmente relevante, tão importante para tanta gente. E é também isso que a torna tão fundamental para mim. Sempre que estou triste, vejo um episódio de “Friends” para me alegrar. E funciona sempre.


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