7 de ago de 2011

A Serbian Film: quando a arte vira patologia





por Luiz Santiago


     Duvido muito que neste ano, outro filme cause tanta polêmica no nível cinema-política-sociedade quanto o doentio A Serbian Film – Terror Sem Limites (2010), estreia do diretor Srdjan Spasojevic nos cinemas. Por sua má realização e agressão extremas aos valores morais e éticos de grande parte dos espectadores, não creio que o filme tivesse tanta repercussão caso não houvesse sido proibido em diversos festivais pelo mundo (EUA, Canadá, Noruega, Espanha), e no fim de julho, no Brasil.

     A polêmica, no entanto, tem plena razão de existir: A Serbian Film é dos mais legítimos herdeiros dos gore movies, e desfila necrofilia, violência extrema, mutilação de corpos, estupro, etc. Mas se fosse apenas isso, a película se igualaria aos seus pares de gênero como O AlbergueJogos Mortais e Hellraiser. A diferença desse filme sérvio para com os demais, é que ele toca no núcleo familiar em plena crise dessa instituição, crise altamente propagada pela mídia, em especial a onda pedófila e a violência conta as mulheres. O estupro de um recém-nascido e uma cena de incesto com um garoto são dois dos principais fatores para tornar A Serbian Film uma realização no mínimo desprezível. Não fossem, portanto, essas cenas, a obra passaria quase em branco, e certamente figuraria na mesma estante em que se encontra Holocausto CanibalJenifer – Instinto Assassino e Louca Obsessão. Nada, porém, justifica a censura ao filme aqui no Brasil, ato que considero tão abominável quanto o produto que ela abomina.

     Até então, o último filme censurado em nosso país fora a 25 anos atrás, o filme do cineasta francês Jean-Luc Godard, intitulado Je Vous Salue Marie. Após duas décadas e meia, e a despeito do que nos diz a Constituição de 1988 sobre a liberdade de expressão artística, o deputado Rodrigo Maia, do DEM, acionou uma equipe de advogados e juízes em nome do partido, para proibir a exibição do filme no Cine Odeon (RJ), sessão agendada em caráter especial após o veto da Caixa Econômica, organizadora do RioFan, onde seria projetado inicialmente. E então, aconteceu o que se espera depois de uma atitude estúpida dessas: um filme que tinha sido visto apenas por espectadores dos festivais Fantaspoa (RS) e Lume de Cinema (MA), em apenas 24h, subiu quase 1000% na lista de downloads ilegais, e se tornou uma febre na internet.



     Mas ao contrário do que dizem os pretensiosos “donos do bom gosto”, que acham que podem decidir o que os brasileiros devem ver ou não, A Serbian Film não faz nenhuma apologia à pedofilia e nem defende nada do que mostra, muito pelo contrário. Em todas as declarações dos vetores, vemo-nos dizer não ter assistido ao filme, e que baseiam sua decisão apenas no que leram sobre a película. Se o assistissem, veriam que, apesar de descartável e infeliz, o filme se auto-condena e no que concerne à violência, não difere muito de nenhum filme exploitation; no que concerne ao sexo e à tortura, não difere muito de Salò – Os 120 Dias de Sodoma; e no que concerne à pedofilia, não difere muito das fotos, notícias e vídeos jornalísticos com suas tarjas pretas, veiculados pela televisão de todo o país. É claro que não há nada dessa dimensão na TV, mas as sugestões dessa violência mostradas no filme não se distanciam tanto das que vemos na pequena tela com o título de informação e utilidade pública.

     A Serbian Film não é filho único na história dos “malditos” no cinema, e certamente não será o último. Diversas outras realizações já trouxeram o horror gore às últimas consequências, e continuarão a surgir outros exemplares. Se a qualidade desse tipo de filme fosse ao menos louvável, dedicaríamos mais algumas linhas para analisá-las e discuti-las. Como não é o caso, termino dizendo que a única coisa boa em A Serbian Film é a edição, e que, para um filme fadado ao nicho dos admirados incontestáveis do gênero, A Serbian Film alcançou uma visibilidade absurda graças à cegueira da pseudo-justiça brasileira e de políticos que agem inconstitucionalmente e ainda levantam a bandeira de defensores da família e dos direitos alheios. A censura começa proibindo aquilo que não gostamos e termina por proibir tudo. Assim foi em nossa ditadura militar, episódio que nessas horas, muita gente se esquece como começou e o processo de sua criação. A Serbian Filme é uma película ruim e abjeta, mas a sua proibição (pelo menos temporária, aqui no Brasil), está de mãos dadas com tudo de ruim que ela traz.



A SERBIAN FILM – TERROR SEM LIMITES (Srpski Film, Sérvia, 2010)
Direção: Srdjan Spasojevic
Elenco: Srdjan Todorovic, Sergej Trifunovic, Jelena Gavrilovic, Katarina Zutic, Slobodan Bestic, Ana Sakic, Lena Bogdanovic, Luka Mijatovic.



FILME INSATISFATÓRIO. SOMENTE PARA FÃS INCONTESTÁVEIS DO GÊNERO.



CONFIRA O TRAILER!



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