14 de ago de 2011

A Árvore da Vida / The Tree of Life (2011)




por Luiz Santiago


Onde estavas tu, quando lancei os fundamentos da terra? Responde-me se tens sabedoria para isso. Quem lhe pôs as medidas, se tu o sabes? Ou quem estabeleceu sobre ela o seu cordel? Sobre que estão fundadas as suas bases, ou quem assentou a sua pedra de esquina, quando as estrelas da alva juntas alegremente cantavam, e todos os filhos de Deus rejubilavam?

Livro de Jó 38:4 - 7


     A epígrafe retirada da Bília abre a mais nova obra do filósofo Terrence Malick, diretor com 42 anos de carreira e apenas cinco longas e um curta no currículo. Durante quase meio século de criação e intervalos de até duas décadas e meia entre um filme e outro, Malick estabeleceu um estilo profundamente metafórico e espiritual, desligado de toda a parafernália técnico-narrativa secular. Sua pequena grande obra conseguiu a amplitude que tem graças a perfeição narrativa e a planificação lírica e poética (salientando bem a diferença entre as duas coisas), num momento do cinema em que tais produções são cada vez mais raras aqui no Ocidente. Não é que não existam obras com esse caráter por aqui, mas convenhamos que não há muitos cineastas preocupados em trazer para seus filmes uma linha mais impalpável, panteísta, deixando de lado a montagem televisiva, o roteiro verborrágico e a direção inquietante. O cinema de Terrence Malick é uma espécie de “último exemplar”, um exemplar do cinema que se preocupa mais com a alma dos espectadores do que com os aparelhos que usa para filmar e a forma dada ao produto final.

     Dito isto, não é de se espantar que tivéssemos chegado a 2011 com a grande euforia pela estreia de A Árvore da Vida, incitada após o filme levar a Palma de Ouro em Cannes. Todavia, qual não foi a surpresa de parte da crítica e dos espectadores ao constatarem que A Árvore da Vida é um filme inebriante de tão belo, mas que beira ao ruim, de tão vazio! Pela primeira vez em sua carreira, o genial Terrence Malick realiza um filme onde a estesia e a beleza dos planos-sequência suplantam o significado geral da obra, e as mais de duas horas de projeção ficam entregues ao subjetivo do espectador, não conseguem mover a barreira de se tornar independente como obra em si, não se realiza, apenas está lá para desfrute inebriado e embasbacado.

     A expressão artística no cinema até pode ser um enigma completo, mas o seu todo deve possuir um fio condutor (e não estou falando de narrativa linear) a fim de nos fazer enxergar pelo menos um dos pontos indissociáveis dessa particularidade semiótica (segundo ótima contextualização de Aumont e Marie): sentido da realidade, tradução da subjetividade do artista na obra e indução de um estado emocional no espectador. Se juntarmos todos os elementos espirituais, metafóricos, metafísicos, filosóficos e teológicos, não chegaremos a nenhum sentido de realidade em A Árvore da Vida, posto que o filme nos apresenta uma linha atemporal de acontecimentos – abarcando o princípio da Era Cenozoica até os dias de hoje – e se destina a falar aos que tem fé. A realidade está banida, e Deus, a Natureza e a Graça assumem o leme desse barco de reflexões, no mar da Criação Divina.


     A subjetividade aparece não só no espelho que Malick faz de si na família que protagoniza a obra, mas do próprio filme em relação às plateias, como objeto maleável, múltiplo de significados. É certo que após a sessão de A Árvore da Vida, dezenas de versões, entendimentos e interpretações surgirão, chegando com isso à terceira coluna da expressão artística, a indução dos estados emocionais no espectador. Mesmo para quem, como eu, não gostou do filme, duas coisas ficam bem claras: é um dos filmes mais belos já realizados no cinema, e um dos que (ou talvez o único deste século) podemos nomear de “caminho para o divino” ou “alumbramento sacro” ou “filme onde se pode sentir Deus”.

     O vazio que me trouxe essa obra talvez esteja ligado à sua carga panteísta, elementar, orgânica, mas esta não é a única causa. Penso que Malick levou muito a sério o seu batismo místico, e realizou algo que se confunde com um documentário naturalista de alta qualidade, com imagens inebriantes do espaço, do mar, de geleiras, montanhas, vulcões em erupção, dos planetas, do sol. Através de seu “roteiro de máximas”, e apostando na problematização da vida em nosso planeta através dos tempos, da educação e sofrimento humanos, da moral e ética pessoais, o diretor se perde no jogo duplo entre a realidade secular (o drama da família com o pai autoritário, a mãe angelical e o filho que morre muito jovem); a realidade divina (a exemplificação de que tudo é uma conexão milenar vinda de um gerador – Deus – que pulsa de vida); e a realidade da vida como questionadora de si e como postura após a morte. A cena final do filme é um exemplo desses caminhos mal pavimentados pelo diretor, que numa espécie de Paraíso, Reino dos Mortos, Mentalidade do Perdão, Lugar de Amor, reúne as personagens em júbilo, exatamente como nos diz o final do último versículo citado na epígrafe. Os filhos de Deus estão em júbilo (certamente não em vida, de modo que penso a cena final como uma visão bem posterior a tudo o que temos durante a projeção), enquanto as estrelas da alva cantam juntas. E que estrelas são essas? Ora, todo o Universo! A criação divina é pequena diante da força que a move, que a faz morrer e (re) nascer, que a reúne num único bloco de vida e a faz ser necessária para os que virão depois: tudo tem um propósito de ser. A fluidez heraclitiana volta à tona num filme de Malick, e a poesia impregnada a ela, facilmente encanta a qualquer um que vir A Árvore da Vida. Ao som de Smétana, Bach, Mahler, Mozart, Berlioz e Mussorgsky, e tendo um criativo grupo de cinco editores, não é de se espantar que o filme corra como um rio: lentamente. Mas dos incômodos que a película causa, este é o menor.

     A mais de um ano, quando saí dos cinemas enfurecido com Tio Boonmee Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas (2010), eu tinha como acusação o fato de nunca ter visto nada do diretor, o que corrigi imediatamente assistindo a Mal dos Trópicos (2004) e Síndromes e um Século (2006). No caso de A Árvore da Vida, tenho em minha defesa todos os filmes de Terrence Malick vistos e comentados, por isso não me sinto nada culpado em dizer que este é o pior filme do diretor, e a minha grande decepção do ano. O problema não está na técnica, nem no elenco, que por sinal, está afiadíssimo; nem da direção.


     Não há um único plano feio no filme. Não há uma única palavra feia. Não há feiura. O problema é o filme ser concebido como uma viagem ao âmago da Criação, e ter, como conteúdo, uma composição híbrida pouco funcional e mal amarrada. O quanto essa opinião está impregnada de subjetividade eu ainda não sei medir. Mas afirmo que eu gostaria de A Árvore da Vida, se ele fosse dividido em 10 documentários poéticos sobre a origem do Homem e do Universo, tendo como plano de fundo a história de uma família contada linearmente. A Árvore da Vida foi concebido para exibição no Éden, e apenas Deus, seu séquito de escolhidos e os seres celestiais, poderão apreciar com total entrega e devoção (obrigatórios para que se capte todo o conteúdo que desfila na tela) essa obra que é puro exagero maneirista.

     Pendurado em abstratismo transcendental, Malick foi ovacionado em Cannes e segue arrebatando espectadores nos países onde seu filme estreia. Para mim, ele ainda é um grande diretor, e mantenho afirmação de ele ser um dos raros cineastas que podem se orgulhar de nunca ter feito um plano ruim, mas que em A Árvore da Vida não fez nada demais além de dar vida a um irmão manco de 2001: Uma Odisseia no Espaço (Stanley Kubrick, 1968), esse sim, uma reflexão legítima e madura sobre a existência humana, Deus e a Criação.


A ÁRVORE DA VIDA (The Tree of Life, EUA, 2011)
Direção: Terrence Malick
Elenco: Brad Pitt, Sean Penn, Jessica Chastain, Hunter McCraken, Laramie Eppler, Tye Sheridan, Fiona Shaw, Jessica Fuselier, Nicolas Gonda, Will Wallace, Kelly Koonce.


FILME REGULAR. ASSISTA SE TIVER TEMPO.

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