22 de mai de 2011

Dias Selvagens (1990)



por Luiz Santiago


     Em um de seus polêmicos artigos, a crítica de cinema Pauline Kael discursou sobre a desventura de um cinéfilo frente a uma “obra menor” de qualquer “grande diretor”. Dizia ela que é inevitável o espectador comparar os filmes anteriores do cineasta, fazer uma análise retrospectiva, elencar um ranking qualitativo, justificar o fracasso de uma “obra X” pelo sucesso das “obras Y”. Diante dessa teoria, acrescenta-se que o ato inevitável da comparação por vezes cega o especador, interferindo como uma má influência em sua análise. É claro que relacionar um filme com as obras anteriores do mesmo diretor é benéfico para qualquer crítica, mas não se pode desdenhar ou menosprezar um filme apenas porque ele “não é igual aos outros”.

     Para quem conhece a obra de Wong Kar Wai e tenha assistido ao seu segundo filme, Dias Selvagens (1990), depois de qualquer obra posterior a essa, certamente deparou-se com a tal situação, e pode ter relutado um pouco antes de dar o devido valor a essa película-semente na carreira do realizador chinês.

     Como é de praxe nos filmes de Kar Wai, a história se passa em Hong Kong, na década de 1960. O filme nos traz algumas histórias individuais aparentemente desconexas que se cruzarão com o tempo, todas elas direcionadas para o mesmo objetivo: a busca pelo amor. No paraíso alienado e isolado de suas personagens, o diretor acompanha o surgimento e a desilusão das relações amorosas, fraternas ou familiares.


     Como principal integrante da “Nouvelle Vague de Hong Kong” (segundo definição do pesquisador Ackbar Abbas, 1997), Kar Wai faz valer o teor comercial dessa “nova onda”, produzindo filmes profundos e experimentais, possíveis de serem distribuídos comercialmente. Em Dias Selvagens, a inspiração vinda da escola francesa aliou-se a um estilo próprio de “cinema transnacional” de Hong Kong, e resultou em um produto que não pode ser classificado como obra-prima, mas que já anuncia o surgimento de um dos mais originais realizadores da última década do século XX. O uso pontual da música, o virtuosismo fotográfico, as muitas elipses narrativas e uma rigorosa edição em continuidade, dão ao filme todos os elementos que seriam aprimorados pelo diretor a partir de então.

     Se nas histórias de amor posteriores Kar Wai daria maior importância ao drama psicológico das personagens, inserindo-o como elemento essencial de toda a película, aqui, tal jogo é feito de maneira uniforme, contendo igualmente os motivos individuais e as influências externas. O desamor e o desapego aparecem em todos os lugares, embora os indivíduos lutem para alcançar uma atenção qualquer. Durante todo o tempo, caminhamos com esses indivíduos “perdidos e sem amor” à procura de amigos, parceiros ou amantes, sem nunca chegarmos ao nosso objetivo. Quanto mais frustrações essa busca apresenta, mais desvirtuadas e violentas se tornam as personagens. Um certo niilismo se apodera de todos, e cada um resolve lidar com a falta de amor a seu modo, uns, com magoada resignação; outros, com uma vida criminosa e violenta. Dias Selvagens representa um grito de socorro para si e para os outros. Enquanto alguns estão vazios de sentimento, outros não conseguem lidar com o que sentem ou exteriorizam isso de forma psicologicamente doentia. A geração do amor dilatado sangra por conseguir amar ou livrar-se de querer.


     Elementos típicos do cinema de Kar Wai como desencontros, cortinas esvoaçantes, música nostálgica, figurinos exuberantes, cigarros, sexo e fumaça se espalham durante os 94 minutos de Dias Selvagens. A tonalidade latina que tanto agrada aos fãs do diretor ganha na fotografia de Christopher Doyle tons que privilegiam a escala verde-azul, cercando o espaço cênico interno e externo de uma atmosfera claustrofóbica e quase onírica. Ao som de Siempre en mi Corazón (Ernesto Lecuona) e de outras rumbas e boleros, o filme começa e termina em uma procura pelo outro e por um entendimento de si mesmo. Não há muitas novidades no enredo, mas a forma agradável da direção de Kar Wai torna os planos longos e o precioso uso de zoons e câmera lenta, um ótimo modelo de plasmar corpos femininos dançando, rostos masculinos tristes e objetos isolados do cenário num filme sério e autoral sobre o amor.

     Com Amor à Flor da Pele (2000) e 2046 (2004), o diretor fecharia uma trilogia não planejada sobre as relações amorosas. O primeiro passo dessa jornada de mais de uma década, que tem ainda o irônico Felizes Juntos no meio, é um filme que olha com certa indulgência para o amor. Ao fim, a preocupação extrema na busca por sentir-se amado acaba em banalização do sentimento, tornando-o apenas um dos muitos “obstáculos” a que se deve enfrentar na vida. Como fuga, as realizações pessoais e o dinheiro passam a ter maior importância para as pessoas. Dilatado o amor, sobra quase nada de um coração, e essa nova realidade será vislumbrada nos filmes posteriores da trilogia.


     Não há um único culpado para o sofrimento. Uma cadeia de necessidades e egoísmo movem as pessoas a agirem em prol de si mesmas, embora saibam que suas ações podem afetar aqueles a quem amam. Em Dias Selvagens, Wong Kar Wai vasculha algumas realidades que podem mover as pessoas a abandonarem ou tentarem esquecer os outros. O sucesso ou a tragédia de tais ações aparecem em imagens líricas e profundamente impactantes, embora a intenção seja a de um afastamento emotivo e um olhar mais racional para o problema. Concluímos que os dias selvagens são os dias de nossas vidas, todos os dias que passamos ao lado ou afastados de alguém, os dias que escolhemos seguir um rumo para alcançar um objetivo, os dias que movemos a roda da história e modificamos para sempre os nossos e os dias de outras pessoas.


DIAS SELVAGENS (A Fei Jing Juen, Hong Kong, 1990)
Direção: Wong Kar Wai
Elenco: Leslie Cheung, Meggie Cheung, Andy Lau, Carina Lau, Tony Leung Chiu Wai, Rebecca Pan, Jacky Cheung.


FILME MUITO BOM. FORTEMENTE RECOMENDADO.

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